Uma história que li na minha juventude e foi-me relembrada pelo querido amigo, o Dr João Brandão, de autoria do escritor e matemático brasileiro Malba Tahan, em seu livro "Minha Vida Querida".

Fim de tarde. Um pastorzinho se senta, exausto, encosta a cabeça no tronco de uma árvore e promete a si mesmo: "preciso cochilar só um minuto". O campo silencia.

Nesse intervalo, três destinos cruzam a estrada.

Vem primeiro um rei, cansado de procurar herdeiro. Vê o garoto dormindo com a paz que não encontra no palácio. "Volto depois", decide, com um sorriso raro.

Passa uma princesa, com o coração pronto para escolher. Encanta-se com a serenidade do menino. "Volto depois", promete, guardando o impulso de acordá-lo.

Surge por fim um bandido. Prepara a lâmina, mas recua: "Não se tira a vida de quem dorme". "Volto depois", resmunga, envergonhado de um resto de humanidade.

O sol muda de lugar. O "depois" não volta.

Quando o pastor desperta, recolhe a flauta, ajeita a sandália e segue sua jornada. Não sabe que, enquanto dormia, um trono, um amor e um risco de vida passaram a um palmo do seu destino e o respeitaram demais para despertá-lo.

Moral da história: você é esse pastor. Todos nós somos. Achamos que "estar presente" significa chegar no horário e responder e-mails. Mas presença real é vigília, perceber quando a oportunidade está ali, quando o talento certo aparece, quando a crise se aproxima nas entrelinhas.

Oportunidade, amor e risco têm horário. Gentileza nem sempre dá segunda chamada. Dormir é necessário, mas adormecer diante da própria vida custa caro.

Quem não vigia a si mesmo deixa o destino passar em silêncio, e depois reclama da falta de sorte.

Acordar não promete sucesso. Dormir, no entanto? É garantia de arrependimento.

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