Conheci um sujeito que era “bom em tudo”. Ela não era, mas repetia isso como quem recita um mantra para afastar a insegurança. No trabalho, ele sabia um pouco de finanças, um pouco de marketing, um pouco de gente, um pouco de tecnologia. Em casa, era o marido “presente”, o pai “participativo”, o amigo “disponível”, o professor sabichão, o atleta “quase”. Um canivete suíço humano, daqueles que têm quinze funções e nenhuma lâmina que corte de verdade.

Um dia, a empresa entrou em crise. Nada épico: prazo estourando, cliente irritado, equipe perdida, venda sob risco de não fechamento. Reunião de emergência. O chefe pergunta: “Quem resolve isso?” E o nosso polivalente levanta a mão com entusiasmo. Ele adorava ser útil. Só esqueceu de um simples detalhe: utilidade não é competência, é ocupação.

Ele falou bonito, sugeriu dez caminhos, prometeu ajudar em cinco frentes. Saiu da sala com a sensação deliciosa de importância. Três dias depois, o problema estava do mesmo tamanho, só que com mais gente confusa e mais tarefas abertas. Foi quando chamaram outro colaborador. Não o mais simpático. Não o mais “versátil”. O que tinha uma marca reconhecida por todos: sabia diagnosticar, decidir e executar. Em duas horas, ela cortou o supérfluo, definiu prioridade, distribuiu responsabilidade e encerrou o teatro. Venda realizada com sucesso.

A vida faz a mesma pergunta todos os dias: “Quem resolve?” Aquele que quer ser bom em tudo se recusa a escolher, porque escolher dói. Escolher é perder. É dizer “não” sem justificar. É aceitar que profundidade custa renúncia. Mas é justamente essa renúncia que cria reputação, confiança e paz.

Se você quer ser lembrado, pare de colecionar habilidades como troféus decorativos. Escolha um campo, aprofunde, torne-se referência nele. O resto é vaidade disfarçada de equilíbrio.

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