O tonto e o tapado ouviram a fábula dos Três Porquinhos, o conto curioso que qualquer criança de seis anos absorve sem grande capacidade mental.

O tonto saiu com a cara de quem tentou montar um guarda-chuva debaixo de uma tempestade, pediu ajuda aos céus e, ao final, culpou a meteorologia. Não entendeu patavina. Mas teve a elegância mínima e rara de admitir que não entendeu.

O tapado? Esse não. Saiu radiante, convertido, como quem desceu do Sinai com tábuas nas mãos. Concluiu que a parábola é um cardápio: lição de estímulo ao consumo de salsicha, linguiça e torresminho nos fins de semana. Ele viu embutidos como moral da história. Ou melhor, onde o criador do pequeno conto colocou trabalho, consequência e prudência, o tapado enxergou proteína suína processada. E nada além.

Há um velho aforismo, atribuído a meia dúzia de gente célebre o bastante para que a autoria não importe, sobre o erro de entregar um Stradivarius a quem só vê lenha. Belo pensamento. Mas incompleto. Porque o tapado não se contenta em rachar o instrumento para fogueira. Ele examina os cacos, nada enxerga além de madeira, e sai dizendo que fez um bem à música.

Eis o desastre deste século. Não a ignorância, que seria mero acidente de berço, perdoável, até charmoso em certas doses. Imperdoável, sim, é a ignorância travestida de epifania e arrogância.

O tapado não erra por falta de luz. O que faz ele? Acende um fósforo num porão vazio e sai convencido de que é o criador do sol. Discutir hermenêutica com esse sujeito é tão retórico quanto interpretar um adagio de Mozart numa festa rave. Ele não precisa de explicação. Precisa, antes de tudo, descobrir que está no degrau zero da escada. E que existe, sim uma escada. E aqui estou sendo bastante complacente.

A tragédia de verdade, a que interessa, a que paga salário e quebra empresas, é quando tontos e tapados chegam à diretoria, ao conselho, ao comando de gente e de capital. Aí já não é fábula de porquinho. É balanço trimestral. É questão de resultado. E o mundo, enquanto isso, vai piorando na proporção exata e desgraçada do quanto esses cavalheiros pensam que sabem.

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