A fantasia do ungido
Um sucessor iludido é criatura engraçada, não ergueu tijolo nenhum, mas traz a planta da reforma debaixo do braço
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segunda-feira, 05 de outubro de 2026
Um sucessor iludido é criatura engraçada, não ergueu tijolo nenhum, mas traz a planta da reforma debaixo do braço

A vaidade de um fundador custa caro, mas ao menos vem com nota fiscal: ele construiu alguma coisa antes de virar insuportável. Transforma a empresa em altar da própria imagem, rejeita ideia que não nasceu no próprio crânio e batiza de "visão" o que a equipe já apelidou, em voz baixa, de teimosia. Ainda assim, há explicações: noites mal dormidas, aposta própria, prejuízo assinado com o próprio nome. Ele errou pagando a conta.
Um sucessor iludido é criatura bem mais engraçada de observar à distância. Recebe a empresa pronta, o sobrenome de brinde, e a convicção de que o universo interrompeu a agenda cósmica para inaugurá-lo como a nova era da humanidade corporativa. Não ergueu tijolo nenhum, mas traz a planta da reforma debaixo do braço.
Olha no espelho e vê um ungido. Abre a boca e transforma clichê de segundo semestre de administração em revelação bíblica. Fala de cultura, propósito e liderança como quem desceu do monte com as tábuas da governança, só que a equipe já ouviu tudo isso em cursinhos de fim de semana, em livro de aeroporto e até em estampas de canecas de louça.
Nas redes, a fantasia ganha holofote: ele paga por visibilidade, monta plateia sob encomenda e confunde aplauso comprado com autoridade conquistada. Depois se acha perseguido por invejosos, quando as pessoas só tentam entender o que se passa com o rapaz que herdou uma empresa e resolveu se projetar como evento histórico.
Essa vaidade não é custo fixo, é fábrica de decisão cara em turno extra. Toda resistência vira prova de vanguarda. Toda crítica confirma a genialidade. Se fracassa, a culpa é da equipe. Se acerta por acaso, já encomenda biografia.
Empresa familiar não precisa de messias nem de filósofo de corredor. Precisa de competência, humildade e resultado. O sobrenome abre a porta. Mas só o trabalho impede que a casa desabe.


Abraham Shapiro
Coach e escritor.



