O encontro formativo Conhecer Londrina trilha étnico-racial, realizado na manhã deste sábado (7), no centro histórico de Londrina, teve como público-alvo comissões de diversidade e cursistas do projeto Conhecer Londrina. Entretanto, a profundidade do tema e suas perspectivas da educação ampliaram a adesão ao evento.

O ponto de partida foi a biblioteca pública municipal Professsor Pedro Viriato Parigot de Souza, localizada na avenida Rio de Janeiro, 413 e que conserva profunda relação com a memória de Londrina. Lá, os participantes conheceram as salas temáticas afro-brasileira e indígena da biblioteca, em uma conversa sobre o acervo e os espaços como marcadores da memória negra e indígena em Londrina.

A responsavável pelo apoio pedagógico de História e Educação para as Relações Étnico-Raciais da Secretaria Municipal de Educação e representante do projeto Conhecer Londrina, Eliane Candoti, contou um pouco da história do município e do Centro Histórico. "Quem vinha de São Paulo para Londrina, atravessava o rio Tibagi, seguia pela estrada dos Pioneiros e, neste ponto em que estamos, se deparava com a igreja matriz de um lado e do outro a quadra de tênis - hoje esta biblioteca - construída para os ingleses praticarem o esporte."

No interior da bibioteca, entre as riquezas, o vitral impactante que convida o visitante a subir as escadas da unidade rumo a seu segundo piso. A instalação original data da década de 1940, quando o espaço abrigava o fórum. "O vitral evidencia a erva-mate, a base econômica e o motor de sustentação financeira que viabilizou a emancipação política do Paraná em 1853, um conhecimento dos indígenas", explica Candoti.

Imagem ilustrativa da imagem Trilha percorre espaços de memória negra e indígena de Londrina
| Foto: Walkiria Vieira

Entre os que prestigiaram a prática formativa estavam os mestrandos em lincenciatura Gabriel Antônio Ferreira e Tiago Lima. Formados em geografia, viram na proposta uma oportunidade de somar conhecimentos à trajetória acadêmica e para a futura docência. "Dentro da disciplina de geografia colonial, eu estou fazendo uma trabalho e esse roteiro vai ao encontro da temática sobretudo porque contempla um estudo de campo cercado de aspectos culturais", observa Lima. Os participantes contaram que no mestrado estudam com profundidade o decolonialismo, um conjunto de teorias e práticas que busca reverter e superar os efeitos duradouros da colonização nas sociedades. "Felizmente a data deste encontro foi perfeita e estamos muito satisfeitos oferecidos pela professora Eliane", dividem os bacharéis em geografia.

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Para a professora Juliana Caroline da Silva, a oferta deste curso prático agrega de modo significativo em sua profissão. Silva dá aulas para alunos do P4, no Centro Municipal de Educação Infantil Marízia Carli Loures, zona norte de Londrina. "Eu já venho trabalhando o conteúdo de história e geografia com os estudantes e essa formação contribui no sentido de nos apresentar dados históricos sobre a fundação da cidade, seus primeiros moradores e o desenvolvimento de Londrina".

Silva menciona que dentro do projeto Conhecer Londrina já conduziu visitas com alunos de outras turmas e eles se encantam com Bosque Marechal Cândido Rondon - dada a quantidade de verde bem no coração da cidade, assim como as construções de grande porte como as bibliotecas, os museus e também o memorial dos pioneiros, na proximidades da Conha Acústica. "São referências concretas e que somam bastante para esses alunos na faixa dos quatro anos de idade", relata a educadora.

AUSÊNCIA TAMBÉM FALA

De acorco com Eliane Candoti, a biblioteca municipal é um marcador temporal e se tornou um marcador de memória pela estratégia de localização à época e as considerações sobre a topografia. O roteiro da trilha étnico-racial inclui o Memorial do Pioneiro em razão da narrativa da população que aqui chegou, no caso os imigantes. "Mas ao mesmo tempo analisamos a sociologia das ausências, pois a ausência também fala e, neste caso, a ausência da população negra no memorial do pioneiro é uma realidade", destaca.

O início da vertilização de Londrina é obsevado nas proximidades da Concha Acústica. A rota também contempla o Calçadão, o Museu Histórico, a praça Rocha Pombo e o Museu do Café. A proximidade da praça Rocha Pombo com as duas Estações - ferroviária e rodoviária - fez com que a vizinhança da praça se tornasse um aglomerados de hotéis, bares e pensões. "De lá, nós visualizamos o outro topo do espigão, uma referência à presença negra, pois de lá vemos o alto da zona norte de Londrina", aponta.

Imagem ilustrativa da imagem Trilha percorre espaços de memória negra e indígena de Londrina
| Foto: Walkiria Vieira

CONHECER E SE RECONHECER

Nesta perpectiva de formação, Candoti enaltece a importância de conduzir as crianças a este tipo de conhecimento. "Andar pela a cidade é algo rotineiro, é o lugar onde todo mundo pisa, onde todo mundo passa. Eu falo que aqui estão as memórias da infância, da adolescência, da fase adulta, as memórias do idoso. Percorremos esses caminhos no cotidiano - para trabalho, o estudo, as compras, o lazer e, muitas vezes, não nos reconhecemos nele. Fazer esse exercício é importante, pois podemos fazer leituras da cidade em diferentes momentos com outros olhares", reflete.

No caso das crianças, Candoti considera que essa prática desde os primeiros anos de vida permite que o indivíduo se reconheça. "Quando ela vem numa outra fase madura ou acompanhada de adultos, a própria criança faz a narrativa, rememora, ressignifica e traz outros olhares para o adulto", pontua. Assim, de seu ponto de vista, permitir esse olhar da criança a torna uma nova narradora da história. "À medida em que a pessoa se reconhece, ela vai reconhecer também as suas memórias afetivas e isso não tem idade e nem um caminho determinado. O importante é que seja feito várias vezes, de diferentes formas, em diferentes perspectivas porque sempre há uma história nova para se contar", acresenta.

A iniciativa integra a programação do Novembro Negro, mês de reflexão sobre a consciência negra, o combate ao racismo e a valorização da cultura afro-brasileira, e é aberta ao público, sem necessidade de inscrição. A programação do Novembro Negro reúne diferentes instituições e entidades, entre elas o GPPIR (Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial, a Gestão de Políticas de Igualdade Racial), a UEL (Universidade Estadual de Londrina), por meio da Cuia (Comissão Universidade para Indígenas) e do Neab (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros), além do Neabi (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas) da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná).

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