Os cinemas de rua em 82 fotos ao redor do mundo
No livro Entresalas, Sergio Poroger retrata espaços abandonados e captura as luzes daqueles que resistem em meio às mudanças tecnológicas
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de novembro de 2026
No livro Entresalas, Sergio Poroger retrata espaços abandonados e captura as luzes daqueles que resistem em meio às mudanças tecnológicas

Assistir a um filme em um cinema de rua como o Cine Villa Rica, em Londrina, ou participar de um festival como o Kinoarte é um privilégio para poucos no país. Hoje, o Brasil tem apenas cerca de 400 salas nesta modalidade, segundo a Ancine (Agência Nacional do Cinema). Inaugurado em janeiro de 1968, o Cine Villa Rica fechou as portas em 2001 e só voltou a funcionar em 2022, depois de um longo período de abandono e de um processo de restauração. É nesse cenário de espaços que resistem, definham ou tentam renascer que o fotógrafo Sergio Poroger encontrou a matéria-prima para seu livro Entresalas (Editora Maayanot).
O olhar apurado do fotojornalista de 70 anos, que já percorreu salas de cinema no Brasil e em outros países, busca revelar a beleza que resiste mesmo nos espaços marcados pelo abandono. A relação com o tema, no entanto, vem de muito antes do projeto. Na infância, Poroger frequentava o antigo Cine Metro, no centro de São Paulo, acompanhado pelo pai, aos domingos. As sessões de desenhos animados se transformaram em lembranças que ajudaram a construir sua ligação com a sétima arte.

Anos depois, ao perceber o desaparecimento de salas que fizeram parte de sua história, o fotógrafo decidiu investigar o destino desses espaços. O trabalho começou com o projeto Uma Rua Chamada Cinema, que posteriormente deu origem a Entresalas. Ao longo de viagens e visitas, ele passou a registrar não apenas a arquitetura dos antigos cinemas, mas também os vestígios de sua existência e as pessoas responsáveis por manter alguns deles em atividade.
Para Poroger, encontrar uma sala abandonada provoca sentimentos contraditórios. “A degradação dos espaços desperta tristeza, mas também encantamento”, avalia. “Tristeza porque essas salas representaram muito para a vida cultural das cidades. Ao mesmo tempo, existe algo profundamente comovente em encontrar uma sala abandonada. Mesmo quando está em ruínas, ela ainda guarda uma espécie de presença”, completa.
Ele destaca que a arquitetura, os ornamentos, os corredores, as poltronas e, sobretudo, a tela permanecem como testemunhos de uma história que oferece possibilidades de leitura e interpretação. O fotógrafo considera que, mesmo em ruínas, fachadas, corredores, poltronas e telas conservam marcas de uma época em que o cinema ocupava lugar central na vida das cidades. “Procuro encontrar neles uma beleza que não está necessariamente na conservação, mas naquilo que permanece. Uma sala em ruínas ainda pode nos fazer imaginar as pessoas que passaram por ali, as histórias que foram projetadas e as emoções que aquele lugar abrigou”, afirma.

A composição das imagens parte de uma observação demorada dos ambientes. A relação entre arquitetura, luz, cores e passagem do tempo orienta o trabalho, com especial atenção à fotografia colorida e à saturação. Cada sala, porém, apresenta características próprias. Algumas têm arquitetura monumental e ornamentação exuberante; outras preservam a simplicidade dos antigos cinemas de bairro. “Gosto de pensar que o olhar do fotógrafo não é apenas o de quem registra uma cena, mas o de quem procura estabelecer uma relação com ela”.
Entre as imagens mais representativas do livro está a fotografia escolhida para a sobrecapa, feita no Cine AIP, no 13º andar do Edifício AIP (Associação de Imprensa de Pernambuco), em Recife. Em meio à estrutura em ruínas, a abertura na antiga tela permite enxergar o mundo exterior. “É uma imagem que reúne a ideia de desaparecimento e, ao mesmo tempo, a possibilidade de continuidade”, analisa.
Leia mais:
O percurso de Poroger também passou por cinemas nos Estados Unidos, na Holanda, na Polônia e na Argentina. Apesar das diferenças arquitetônicas e culturais, ele identifica uma memória compartilhada entre frequentadores de diferentes países: a experiência coletiva de acompanhar uma história em uma sala escura. “Independentemente do país, da língua ou da cultura, existe algo muito poderoso na experiência de compartilhar uma sala escura com outras pessoas e acompanhar uma história projetada em uma tela”, avalia.
Memória e Reconhecimento
O livro também amplia o olhar para além dos edifícios. Ao longo do projeto, Poroger percebeu que a história dos cinemas não poderia ser contada sem reconhecer os profissionais que fizeram parte do cotidiano desses espaços. Bilheteiros, pipoqueiros, projecionistas, trocadores de letreiros e funcionários da limpeza ajudaram a construir vínculos entre as salas e as comunidades.
“Eles não apenas trabalhavam nos cinemas. Ajudavam a construir uma relação afetiva entre a sala e a comunidade”, observa. Fotografar esses profissionais, segundo ele, é uma maneira de dar visibilidade a trajetórias e ofícios que nem sempre receberam o devido registro.

A experiência do Cine Villa Rica, em Londrina, é citada pelo fotógrafo como exemplo de que a recuperação dos cinemas de rua é possível. Para ele, a retomada desses espaços deve ser pensada não apenas como restauração arquitetônica, mas como um projeto cultural capaz de devolver à população lugares de convivência e acesso à arte.
Poroger defende que essas salas possam abrigar, além de sessões regulares, festivais, debates, exposições e outras atividades. Na avaliação dele, os cinemas de rua não precisam competir diretamente com os grandes complexos ou com as plataformas digitais, mas oferecer uma experiência diferente, vinculada à identidade e à história das cidades.
O fotógrafo também estabelece uma relação entre a preservação dos cinemas e sua própria maneira de trabalhar. Embora reconheça as possibilidades abertas pela tecnologia, valoriza a fotografia impressa e a experiência de observar uma imagem em papel.
“Não vejo a tecnologia e a fotografia impressa como opostas. Pelo contrário, acredito que podem coexistir. Mas, em um mundo cada vez mais acelerado e digital, gosto da possibilidade de oferecer ao público uma experiência que convide à contemplação e à pausa”, diz.

Com Entresalas, Poroger espera alcançar não apenas apreciadores de fotografia, cinema e arquitetura, mas também leitores que guardam lembranças de antigas salas de exibição. A intenção é que as imagens despertem memórias e provoquem uma reflexão sobre o patrimônio cultural e os espaços construídos coletivamente. “Se as imagens conseguirem despertar alguma emoção, alguma lembrança ou mesmo a vontade de conhecer e recuperar esses espaços, acredito que o livro terá cumprido um papel muito importante.”
Em Londrina, o livro está à venda na Livraria da Vila, no Aurora Shopping, mas a compra também pode ser feita no site do fotógrafo.
SERVIÇO
Entresalas — Sergio Poroger
Livro fotográfico dedicado aos cinemas de rua, suas arquiteturas, memórias e trabalhadores.
Fotografias realizadas no Brasil, Estados Unidos, Holanda, Polônia e Argentina - entre os anos 2014 e 2026
Editora Maayanot
144 páginas
82 fotografias
R$ 198,00
Ano de publicação -2026
*
Onde pode ser encontrado
Livraria da Vila - Aurora Shopping Londrina


Celso Felizardo
Jornalista





