Morador de Londrina transforma terreno baldio em horta

O engenheiro civil Gelson dos Santos utiliza a área de 1,1 mil metros para plantio de mandioca, milho e banana, entre outras espécies

Laís Taine - Grupo Folha
Laís Taine - Grupo Folha

Às 9 horas de uma quinta-feira, a circulação de veículos é intensa na rua Sena Martins, no jardim Higienópolis (área central de Londrina), mas enquanto muitos passam apressados, uma esquina faz as vezes de guardiã do tempo. Após anos como receptáculo dos mais variados materiais degradados, nas mãos do vizinho Gelson dos Santos, 68, o terreno de 1,1 mil metros quadrados se transformou em plantação. Mandioca, milho, banana e até espécies pouco encontradas, como ora-pro-nobis e araruta, crescem em meio a fumaça, barulho, entre grades e com prédios no plano de fundo. 


Morador de Londrina transforma terreno baldio em horta
Lais Taine - Grupo Folha
 



Os milhos já “embonecaram” na plantação produzida pelo engenheiro civil e recém-bacharel em direito. Da família de agrônomos apaixonados por café veio o amor e o dom pela terra. “Eu venho, fico uma hora, uma hora e meia, me desestresso... É o meu cantinho aqui”, relata.  




Apesar da satisfação e paisagem que o espaço produz hoje, comenta que nem sempre foi assim. “Esse terreno era um descarte dos piores que você pode imaginar. Isso aqui fedia, tinha animal morto, resto de obra, madeira, era feio como aqueles da matéria”, indica a reportagem da FOLHA sobre lixos em locais abertos.  



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Por conta da reportagem apontada, Santos entrou em contato com a redação da FOLHA para mostrar sua ideia de solução. Para ele, a questão seria colocar em prática a Lei 12.620/2017, que cria o AgriUrbana (Programa Municipal de Agricultura Urbana e Periurbana). “Lotes tanto públicos quanto privados são um problema para Londrina inteira. Gasta-se para roçar, limpar, cortar, porque o mato cresce. Se você tiver terreno baldio perto da sua casa, você vai ter problema, é dengue, rato, barata, fumaça, porque botam fogo no lixo... Existe um custo altíssimo com isso, então, por que não incentivar as pessoas a plantarem?”, indica. 


Entusiasmado com a proposta, na época em que a lei foi sancionada, em 2017, ele já estava com o próprio projeto em andamento. “Achei o proprietário do terreno no final de 2016, para ele era um problema isso aqui, porque não tinha interesse em construir ainda e o pessoal jogava lixo. Então apresentei a ideia, fiz um contrato de cessão de uso e começou todo o processo”, recorda. 


O resultado está nas variedades de espécies produzidas lá. Mandioca, café, banana, quiabo, chuchu, abóbora, taioba, cana-de-açúcar, araruta, milho, entre outros. “Eu fui limpando e plantando. Trouxe mudas que eu fui ganhando, buscando em algumas instituições. O dono cercou com alambrado, eu fico com a chave, ninguém entra se eu não estiver junto. Eu que cuido”, afirma.


E não é preciso muito, uma vez por semana para acalmar a mente, como ele mesmo afirma. “Aqui sou eu e Deus, eu cuido da plantação e Deus cuida da chuva, é uma parceria perfeita”, brinca. Com estrutura já montada, no futuro pretende também captar água da chuva para quem sabe começar a produzir hortaliças. 



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No entanto, Santos lamenta não ver a lei sendo implantada como gostaria. “É preciso que seja nomeada uma comissão para que ela entre na ativa mesmo, é preciso que alguém coordene, dizendo o que plantar, onde plantar, como plantar, como cercar, essas coisas, senão ela não vai sozinha”, afirma. Em períodos em que a cidade enfrente o risco de epidemia de dengue, acredita que essa seria uma proposta ideal para trazer alimento, saúde e educação ambiental para a população.



No caso do próprio projeto, o conhecimento inato e amor pela natureza permitiram que tudo funcionasse bem. “Preferimos alambrado para que as pessoas vissem, que fosse uma vitrine mesmo. Tem gente que vem se exercitar no Zerão e tira foto, fica olhando”, revela. Mostrando que pode dar certo. "Não preciso ficar falando, é só vir aqui ver", acrescenta.





O cuidado é dele, mas a colheita é distribuída sem receio entre os vizinhos, colegas e projetos sociais. “Já doamos para hospital, creche. O pessoal vem pedir muda e eu dou”. Ao ser questionado se teria ciúme da plantação, mal consegue disfarçar. “Eu tenho cuidado, eu acho assim... Não gosto que mexam, que venham roubar”, aponta. Cuidadoso e orgulhoso do trabalho, a ponto de incentivar: “gostaria que fosse multiplicado, que mais terrenos da cidade fossem assim”. Para transformar lixo, doença e sujeira em comida, alimento e vida.

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