A FICSesi (Feira de Iniciação Científica Sesi Paraná), realizada em Londrina na semana passada, reuniu 170 projetos de alunos de todo o Estado. Entre dezenas de participantes, duas mulheres se destacaram. Mãe e filha, Marleni Malinosky, 57, e Alessandra Nunes, 17, vieram de São José dos Pinhais (Região Metropolitana de Curitiba) para apresentar pesquisas desenvolvidas no âmbito da EJA (Educação de Jovens e Adultos) e do Ensino Médio, respectivamente. Em diferentes níveis de aprendizado, ambas planejam trajetórias que priorizam o estudo, sempre juntas.

Malinosky teve que abandonar os estudos aos 11 anos para trabalhar como babá. Casou “muito cedo”, se tornou mãe e não teve mais oportunidade de estudar. Em 2025, sua filha Alessandra completou 16 anos e ela quis interromper a “ociosidade de ficar em casa” arrumando um emprego. Os filhos mais velhos, já adultos, sugeriram que ela buscasse finalizar o Ensino Fundamental primeiro. Assim, o ingresso na EJA do Sesi em São José dos Pinhais foi viabilizado, marcando o retorno à sala de aula após 46 anos.

No início, Malinosky sentiu que “não entendia absolutamente nada” e pensou em desistir, mas seu interesse pela pesquisa foi despertado quando dois professores a convidaram para integrar um projeto que pretende solucionar vazamentos de gás de cozinha a partir da automação.

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Para isso, foi construído um dispositivo de segurança desenvolvido com um microcontrolador Arduino e sensor MQ-2. Quando a presença de gás e fumaça - em princípio de incêndio - é detectada, uma válvula solenoide é acionada para interromper o fornecimento, junto da emissão de alertas sonoros e visuais.

A pesquisa começou a ser desenvolvida há somente dois meses, demandando mais testes para chegar em resultados conclusivos. Malinosky enxergou a FICSesi como uma porta de entrada no mercado, almejando a produção e venda do equipamento futuramente.

‘Antes e depois da EJA’

A pesquisadora se disse “extremamente feliz” por ter retomado os estudos, enxergando “novos horizontes” em sua vida. “Eu sempre falo que tem a Marleni antes e depois da EJA. A de antes estaria em casa assistindo novela", observa. "Eu não sei como vai ser daqui em diante, mas não pretendo parar. Eu quero terminar o Ensino Fundamental, depois terminar o Médio e fazer uma faculdade", acrescenta.

"Eu deveria ter começado antes, mas tudo é na hora certa, é agora que deu”, pontuou Malinosky. Afirma ainda que vai descobrir o caminho que deseja trilhar no esnino superior e seguí-lo, com apoio da família.

Marleni teve que parar de estudar aos 11 anos e voltou para a sala de aula recentemente: "Eu não sei como vai ser daqui em diante, mas não pretendo parar"
Marleni teve que parar de estudar aos 11 anos e voltou para a sala de aula recentemente: "Eu não sei como vai ser daqui em diante, mas não pretendo parar" | Foto: Heloísa Gonçalves

Irmão inspirou pesquisa sobre sono

Enquanto a mãe planeja um futuro acadêmico do início, Alessandra Nunes, de 17 anos, quer ser caloura de Psicologia já no ano que vem, concluindo o Ensino Médio na Escola Sesi de Referência de São José dos Pinhais.

O projeto que apresentou na FICSesi junto de outros colegas tem a qualidade do sono como mote, com a pesquisa originando a plataforma SLUMBER - termo para “dormir”, em inglês. Ela ajuda o usuário a compreender seus hábitos e a acompanhar informações sobre seu descanso. Um dos recursos é o SleepWake, protótipo físico que identifica sinais de sonolência durante atividades no computador.

Os dados coletados são transformados em análises e relatórios personalizados, usando inteligência artificial para permitir que o usuário converse sobre seus próprios registros. A ferramenta não realiza diagnósticos, mas pode auxiliar no acompanhamento de condições já laudadas e no diálogo com profissionais de saúde.

A ideia surgiu porque o irmão mais velho de Nunes sofre com narcolepsia, distúrbio neurológico caracterizado pela sonolência excessiva durante o dia, com episódios recorrentes e incontroláveis ​​de sono. Ele foi a “cobaia” da SLUMBER, fazendo uso do site por quatro meses e apresentando melhora significativa em seu quadro, conforme a aluna.

O próximo passo é buscar auxílio médico para aprimorar o serviço oferecido pela plataforma, que não terá custo. “É algo para ajudar as pessoas a ter consciência sobre a própria saúde e a própria vida. Um terço da nossa vida é passado dormindo, então é importante que a gente cuide desse um terço”, considerou Nunes.

União em meio às adversidades

Mãe e filha fazem “tudo juntas” desde cedo, visto que Nunes é a filha mais nova e seus pais se divorciaram em 2014. Com a morte do pai há quatro anos, a proximidade aumentou ainda mais, e a viagem a Londrina para participar da FICSesi foi um marco na relação.

“Eu tenho muito orgulho da minha mãe, é muito emocionante vê-la indo à escola depois de tantos anos. Cada uma de nós está vivendo um momento diferente na educação, mas estamos descobrindo juntas o quanto a ciência pode nascer de problemas que fazem parte da nossa própria rotina. Ver a trajetória dela e poder compartilhar a minha também é uma inspiração”, completou a filha.

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