‘Cavalo de Troia’: Iberê Thenório transforma ciência em curiosidade diária
Criador do "Manual do Mundo" esteve em Londrina e explica como torna conceitos complexos em conteúdos acessíveis a todos os públicos
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segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Criador do "Manual do Mundo" esteve em Londrina e explica como torna conceitos complexos em conteúdos acessíveis a todos os públicos

A energia cinética de um carro em movimento, os efeitos gravitacionais de uma bola de basquete caindo durante uma partida na praça ou, até mesmo, todo o processo computacional envolvido na simples leitura de uma reportagem digital. Frequentemente imersos em problemas e compromissos diários, toda essa curiosidade científica em entender os “porquês” do mundo acaba afogada para a maioria das pessoas, em um mar de objetivos “reais” e, sob um olhar direto, mais simples de visualizar e se entender.
Como o motivo pelo qual, na hora de se preparar o feijão do almoço, a escolha é sempre uma panela de pressão. Essa decisão é feita de forma automática. A pessoa apenas sabe fazer, sem nem mesmo chegar a conclusão que todo dia utiliza, na prática, ciência.
É na tentativa de despertar essa fagulha, do interesse científico em jovens e adultos, que o jornalista e divulgador científico Iberê Thenório, criador do canal de Youtube “Manual do Mundo”, dedica seu trabalho. Ele esteve em Londrina na manhã desta quinta-feira (13) para uma palestra na abertura da 3ª edição do FICSesi (Feira de Iniciação Científica do Sesi). Evento que reúne estudantes (ensino fundamental, médio e Educação de Jovens e Adultos) e professores para a apresentação de projetos de iniciação científica em diferentes áreas.
Preconceito da complexidade
É na tentativa de despertar essa fagulha, do interesse científico em jovens e adultos, que o jornalista e divulgador científico Iberê Thenório, criador do canal de Youtube “Manual do Mundo”, dedica seu trabalho. Ele esteve em Londrina na quinta-feira (13) para uma palestra na abertura da 3ª edição do FICSesi (Feira de Iniciação Científica do Sesi).
O influenciador contou que seus vídeos utilizam uma metodologia denominada por ele como “cavalo de troia”. Referenciando a conhecida estratégia usada por gregos na invasão da cidade de Troia, descrita na Ilíada de Homero. A ideia do divulgador busca construir um paralelo ao atrair a atenção de seu público com algo chamativo, dessa forma, burlando a barreira do preconceito da complexidade.
“Nós buscamos encontrar um chamariz, algo que seja o fator mais importante. Depois que conquistamos essa atenção, aproveitamos para explicar outros assuntos. Por isso o ‘cavalo’, algo bonito por fora, mas recheado de informação relevante por dentro”, explica.

De criança até bisavô
O jornalista reforça que a acessibilidade da linguagem de seus conteúdos é um fator essencial para ter conseguido atingir uma extensa faixa etária, desde a “criança de 3 anos” até “o bisavô de 90”. Constantemente em atualização, Thenório detalha a necessidade de estar atento aos formatos predominantes, como os vídeos curtos e verticais, que atraem a atenção principalmente dos jovens.
“Eles [jovens] precisam tomar cuidado [com esse formato rápido], pois acabam assistindo vários vídeos e nem sempre absorvem todo o conteúdo apresentado. Como eles vivem um momento de provas, isso acaba sendo um tempo desperdiçado, não proveitoso. [No canal] Nunca nos acomodamos, sempre estamos insatisfeitos com o resultado final, pensando em diversas outras maneiras de melhorar no próximo vídeo produzido”, complementa.
O futuro das IAs
Questionado sobre os impactos das IAs (Inteligências Artificiais) na sociedade, o pesquisador compara o momento atual com o advento da energia elétrica no final do século 19. “Se você olhar para como era a vida em 1850 e como mudou em 1900, é totalmente diferente. É exatamente a mesma mudança que enxergo no cenário atual. Agora se isso será para o lado bom ou ruim, isso depende de qual uso vamos atribuir a elas”, analisa.
Entre as aplicações dessas ferramentas em sua rotina na produção de conteúdos, está o uso de IAs na área de pesquisa, principalmente quanto à localização de fontes de boa referência. Na visão do educador, essa busca deve ser entendida como uma porta de entrada, não como o destino final de um questionamento.
Duas plataformas recomendadas por ele são Perplexity e Gemini, segundo o jornalista, ambas são úteis na hora de realizar essas tarefas.
“Me ajudam muito, principalmente na construção de pautas. Vamos supor que eu queira contar uma história que seja genuinamente brasileira e surpreendente, ele poderá me indicar coisas como, por exemplo: a vez em que o presidente americano Theodore Roosevelt ficou muito doente no Brasil, quando visitou a Amazônia ao lado do Marechal Cândido Rondon. Nunca que eu iria descobrir isso naturalmente, é nesse ponto que as IAs são muito úteis”, esclarece.
Na contramão desse avanço, Thenório expõe seu temor quanto ao uso nocivo desse conhecimento, na aplicação bélica e criminosa mas, principalmente, quanto à velocidade com que tais tecnologias têm se aperfeiçoado.
“Na criação de conteúdo, estamos tendo que disputar a atenção com produtores que fazem tudo com alguns prompts. Mas que o resultado exposto não condiz com a realidade. Por isso as pessoas devem aprender a lidar com todas essas mudanças pelo qual vamos passar”, antevê.
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Origem rural e programas de ciências
A influência do projeto idealizado pelo paulista de 46 anos tem sido o motor de arranque para muitos jovens pesquisadores em todo o pais. Nascido na cidade de Sorocaba, no interior de São Paulo, Thenório celebra sua origem rural como um catalisador para sua sede de saber. Para ele, foi a partir dela que muitas de suas habilidade de “pôr a mão na massa” despontaram. Além de como muitos programas de ciência das décadas de 1980 e 1990, focados no público infantil, foram um modelo de inspiração para o futuro trabalho da sua vida.
“Na minha infância acompanhei a coletânea de livros ‘Manuais do Escoteiro Mirim”, da Disney. Tinha exemplares que explicavam como funciona o código morse, outros que mostravam como esquentar um copo de papel com chá no fogão utilizando dobraduras. Um verdadeiro manual do mundo. A escolha do nome [do canal] teve muita influência disso. Outra grande influência que tive foram os programas na TV Cultura durante os anos 1990. Beakman, X-Tudo, O Professor e Castelo Rá-Tim-Bum”, detalha.
Olhando em retrospecto, o escritor analisa que, diferente das fórmulas brutas e metodologia monótona das salas de aulas de sua infância, esses programas de televisão foram capazes de transformar todos aqueles conteúdos, aparentemente desnecessários, em algo proveitoso e instigante.
“Sempre estudei em escolas ruins, passava o dia estudando mas voltava para casa sem ter aprendido nada. Comecei a pensar: ‘isso não pode continuar acontecendo, os estudantes não podem ir para uma aula apenas para perder tempo. No nosso vídeo, você precisa sair com, pelo menos, alguma coisa na mão. Investir 15 minutos da sua vida para aprender algo novo já te deixa no lucro”, defende.
Criado em 2006, o trabalho do jornalista conta, atualmente, com a colaboração de uma grande equipe de pesquisadores, jornalistas e editores de vídeos, alcançando a marca de 20 milhões de inscritos.
Londrina: ‘interior superdesenvolvido’
Reconhecida pelo pesquisador como parte do “interior superdesenvolvido”, Londrina é vista por Thenório como um dos municípios brasileiros com destaque “fora da curva” no desenvolvido industrial e acadêmico.
“A UEL (Universidade Estadual de Londrina) é referência até mesmo na cidade onde cresci, vi muitas pessoas se mudarem para cá [em Londrina] por conta dessa oportunidade. Sempre enxerguei Londrina como uma cidade com uma função educacional muito grande”, observa.
Semelhante a sua cidade de origem, Sorocaba, o influenciador destaca o fomento de polos industriais nessas regiões do interior brasileiro como um fator crucial do desenvolvimento econômico.
'Quiabo indesejado'
Diante de um auditório lotado de crianças, adolescentes e adultos, o influenciador compartilhou a história de como o “forçar-se” a comer um “quiabo indesejado” foi a máxima que o guiou a dominar as disciplinas que “mais odiava” na infância.
“Eu odiava física, química e matemática, gostava mesmo era de português. Foi só depois das minhas frustrações de ser reprovado no vestibular que me forcei a estudar muito. O resultado: consegui a minha sonhada vaga para jornalismo, em uma faculdade renomada, com os melhores resultados nessas mesmas disciplinas que eu detestava. Você pensa ‘depois que eu entendi isso ficou muito fácil, isso pode ser para mim’. Por isso, gostar de coisas abre portas. Meu conselho é: experimente tudo aquilo que não te faz mal”, afirma.
Uma viagem que muda a vida
Diferente da versão mortífera de Homero, os frutos desses “cavalo de troia” não são rastros de morte e destruição, mas sim de exemplos de como uma simples semente de dúvida pode pavimentar um caminho de colaboração, a saída da inércia ou a criação de algo para ajudar as pessoas amadas.

A primeira dessas histórias é a do baiano Alcy Santana Costa Freitas, de 34 anos, que há seis meses decidiu partir de sua terra natal e cruzar o país do Nordeste ao Sul com seu carro, ao lado da esposa e do cachorro, para lecionar na EJA (Educação para Jovens e Adultos) de Maringá (Noroeste).
“Na EJA, nós atuamos com perfis de diferentes idades. Basicamente o nosso foco é tentar se conectar com a história da pessoa e, a partir disso, vamos desenvolvendo [os conteúdos]”, detalha, animadamente.
Em seu último trabalho, o educador aproveitou a forte presença de umidade na cidade canção para explicar a seus alunos o conceito da chuva ácida. “Mostrei que os Ipês da cidade perdem coloração quando há poluição. Isso já é o bastante para eles começarem a fazer algumas associações”, explica.
Apaixonado pela cultura do norte paranaense, Freitas conta que tem encontrado diversas maneiras de misturar os costumes locais com os da Bahia. “Estou amando esse experiência [no Paraná]. Na próxima segunda-feira (17), vou fazer um projeto chamado ‘Meu Prato, Minha História’, onde vou fazer um cuscuz nordestino para mostrar a ciência do café da manhã brasileiro. No final, espero conseguir juntar as culturas com um prato típico desses dois estados”, projeta, com um sorriso no rosto.
Freitas estava acompanhado de seu aluno, Carlos Eduardo Severino de Paiva, 41, estudante que superou os desafios impostos pela perda de 90% da visão para compreender e dominar a computação. Com o sonho de tornar-se um educador, Paiva almeja ajudar pessoas em condições similares às suas, estendendo assim o conhecimento da acessibilidade que hoje, drasticamente mudou sua vida.






