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Londrina

Cidades

m de leitura Atualizado em 22/04/2022, 17:58

Idoso com deficiência visual é aprovado em direito na UEL

Aos 65 anos, José Marcelino, ex-aluno do Ceebja em Londrina, vai realizar o sonho de entrar na universidade; 'estou cheio de planos'

PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de abril de 2022

Micaela Orikasa - Grupo Folha
AUTOR autor do artigo

Foto: Gustavo Carneiro - Grupo Folha
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Enfrentar desafios tem sido um exercício diário para o mineiro José Marcelino, desde a infância. Hoje, aos 65 anos, sua história de vida ganhou um capítulo à parte. O fato de ter perdido a visão há nove anos não o impediu de alcançar o sonho de entrar para a universidade.  

Marcelino foi aprovado no curso de direito no Vestibular 2022 da UEL (Universidade Estadual de Londrina), pelo sistema de cotas para pessoas com deficiência. Ele mora em Cambé (Região Metropolitana de Londrina) com uma irmã e está animado para frequentar o campus.  

“Estou cheio de planos. Fiquei surpreso em ter meu nome entre os aprovados. Eu sempre tive muita vontade de estudar e agora consegui conquistar uma vaga na universidade para seguir em frente. Estou muito contente”, afirma Marcelino, que desde criança tinha que interromper os estudos quando surgiam oportunidades de trabalho.  

Ao contar sua história, Marcelino tem na ponta da língua muitos detalhes como datas e nomes de pessoas. Ele lembra que em 1976 veio para Cambé e arrumou um emprego no centro de Londrina. “Tive a chance de estudar até o 7º ano no Colégio Estadual Antônio de Moraes Barros, no jardim Bandeirantes, mas mais uma vez tive que mudar de cidade por causa do trabalho e parei de estudar”, conta Marcelino, que atuava como encanador industrial. 

A perda da visão foi gradativa, após o uso de um medicamento para artrose. “Fui medicado com o remédio errado e isso prejudicou minha vista. Em janeiro de 2005 comecei o tratamento no Hoftalon (Hospital de Olhos) e anos depois fui encaminhado para o Instituto Roberto Miranda, onde estudei Braile e Soroban”, conta. Ele ficou cego em 2013, aos 56 anos.  

José Marcelino José Marcelino
José Marcelino |  Foto: Gustavo Carneiro - Grupo Folha
 

'ESTUDO É O MELHOR CAMINHO'

Sem trabalho, Marcelino passou a investir nos estudos e frequentou as aulas do Ceebja (Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos) de Londrina, onde relembrou o gosto especial por conteúdos de matemática e geografia. 

“Quis voltar a estudar porque o estudo é o melhor caminho. É um remédio para as pessoas. Estou acostumado a trabalhar desde criança e eu não podia ficar parado. A minha preocupação era de que forma que eu iria estudar sem enxergar o quadro e os livros, mas eu tive muito apoio”, enfatiza o futuro calouro  de direito da UEL, que espera dentro de alguns anos atuar na área trabalhista. “Estou com mais de 60 anos e muitas vezes não tive meu trabalho reconhecido. Perdi muitos direitos e agora quero entender mais sobre isso”, afirma.  

APOIO E DEDICAÇÃO

 O apoio que Marcelino cita como fundamental para essa conquista é, em boa parte, a dedicação da professora Sirlene Madalena Barros, em atuação no Ceebja desde 2004.  

Ela se especializou em Educação de Jovens e Adultos e também em Educação Especial. “São alunos que já trazem um conhecimento de mundo e, junto disso, algumas especificidades. O material desses alunos é diferenciado e precisa ser contextualizado com a vivência que cada um tem de mundo”, ressalta.  

José Marcelino com a professora Sirlene Madalena Barros: "Ele sempre foi muito aplicado" José Marcelino com a professora Sirlene Madalena Barros: "Ele sempre foi muito aplicado"
José Marcelino com a professora Sirlene Madalena Barros: "Ele sempre foi muito aplicado" |  Foto: Arquivo pessoal
 

Com Marcelino, a professora ensinou técnicas de leitura skimming e scanning. “E todo o material era feito em braile. Na escola temos um departamento que desenvolve o material e isso com certeza, ajudou ele no vestibular. Recebi a notícia da aprovação do José com muita alegria e satisfação. Digo para os alunos que eles têm que acreditar nos sonhos e ter incentivo, sempre”, comenta. 

CAPACITISMO

Sobre a prova, Marcelino disse que respondeu as questões com calma e que o tema da redação, que teve como apoio uma matéria da Folha de Londrina sobre capacitismo, o favoreceu. “Porque eu tenho muito a contar sobre o tema”, diz. 

A disciplina de Marcelino com os estudos sempre chamou a atenção da professora. “Ele nunca faltava às aulas e nem chegava atrasado. Sempre foi muito aplicado e a visão de mundo que ele tem, pelo fato de ter viajado bastante pelo País a trabalho, fez diferença”, afirma.  

CEEBJA LONDRINA

Hoje, o Ceebja de Londrina tem aproximadamente 30 alunos com deficiência. Ao todo, a instituição conta com 517 estudantes matriculados, entre 15 r 85 anos. A diretora geral Rosângela Lopes Ferreira comenta que, “na maioria das vezes, os alunos chegam ao Ceebja buscando somente concluir os estudos, mas muitos acabam aceitando o desafio de ir além, de seguir em frente sem contar a idade ou as circunstâncias. No caso do senhor José é ainda mais emocionante, pois ele precisa vencer barreiras próprias de uma pessoa que ficou cega já adulta e da sociedade em que vivemos.” 

COTAS

A cota para pessoas com deficiência foi aprovada na UEL em agosto de 2021, a partir da Resolução Cepe nº 044, que reserva 5% das vagas nos processos seletivos da graduação para pessoas com algum tipo de deficiência (física, auditiva, visual, visão monocular, mental, transtorno do espectro autista e múltipla).  

No Vestibular 2022, a Cops (Coordenadoria de Processos Seletivos) registrou 86 inscrições de candidatos. O curso de medicina registrou 41 inscrições para quatro vagas para pessoas com deficiência. Já os cursos de direito (matutino), ciência da computação (integral) e administração (noturno) registraram quatro inscritos cada. Ao menos uma vaga de cada curso deve ser destinada a estudantes com deficiência. 

Os candidatos aprovados no Vestibular 2022 passarão pela Comissão de Homologação de Vagas, indicada pelo Cepe e composta por membros da Prograd (Pró-Reitoria de Graduação), do NAC (Núcleo de Acessibilidade), do Conselho Municipal de Direitos da Pessoa com Deficiência, um representante médico e professor do curso de Medicina da UEL e, por fim, um representante discente. 

No ato da pré-matrícula, o estudante deve apresentar um laudo médico que ateste a espécie e o grau da deficiência. Além disso, deve apresentar número do RG, CPF, identificação do curso pretendido, além da expressa referência, no CID (Código Internacional de Doenças), assim como a provável causa da deficiência. Também serão necessários a assinatura e o carimbo do número do CRM do médico responsável pela emissão da documentação. Candidatos que já possuem curso superior não podem ingressar pelo sistema de cotas para pessoas com deficiência.  

A Lei Estadual 20443/2020 garante que todas as IEES (Instituições Estaduais de Ensino Superior) e escolas técnicas reservem 5% de vagas a esse público, independente do percurso de formação.  (Com Agência UEL) 

SERVIÇO -  Mais informações sobre o Ceebja de Londrina pelo fone  (43) 3324-7199. O endereço é avenida São Paulo, 294. 

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