A arquitetura dos pioneiros de Londrina na mira de um artista
Jovem expressa seu afeto pelas moradias de madeiras em uma coleção de desenhos que documenta uma paisagem em risco de extinção
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de fevereiro de 2022
Jovem expressa seu afeto pelas moradias de madeiras em uma coleção de desenhos que documenta uma paisagem em risco de extinção
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

O que um millennial pode fazer pela memória da cidade? Caio Felipe de Souza desenha para quem quiser entender. Com seus lápis inspirados, o artista de 26 anos, graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Londrina, reproduz as fachadas das edificações de madeira que marcam a paisagem dos bairros mais antigos.

A maior parte da coleção, retratos 15 x 21 em papel A4, gramatura 180, foi feita na Vila Nova, onde o artista vive e nasceu. Outros bairros imediatamente ao norte da antiga linha férrea também foram cenários, como Vila Casoni, Vila Recreio e Jardim do Sol.
Para evitar interferências no seu campo de visão, Souza trabalha em horário alternativo. Prefere o fim da madrugada e o início da manhã, quando tira seus apetrechos da mochila (“meu ateliê ambulante”, brinca) e do outro lado da rua se ajeita na calçada e começa a transferir as formas da casa para o papel. No silêncio da rua deserta, o talento flui e a base da obra fica pronta em pouco mais de uma hora de observação. Quando é necessário, uma foto ajuda na conclusão, feita em ambiente caseiro.
Mas o processo começa antes, nas andanças pela cidade em busca de consumidores para os produtos de outra habilidade, um catálogo com dez tipos de brigadeiro, que ele mesmo faz e vende em lojas e bares.
“Valorizo muito a memória. O período mais feliz da minha vida, a infância, eu passei numa casa de madeira. Logo depois ela foi demolida e deixou muitas saudades”, explica Caio. “Percebi que este apagamento acontecia em muitos pontos da cidade e, como artista, tive a ideia de tentar imortalizar em desenhos outras construções semelhantes que ainda estão em pé. Tiro do efêmero o que merece ser eterno”.
Além do valor afetivo, os olhos do desenhista enxergam a riqueza cultural dos detalhes, que revelam a influência de muitos povos nas técnicas construtivas e a mistura de hábitos e costumes das primeiras décadas da colonização.
Em 2018, a coleção foi exposta pela primeira vez no Expocultura, evento que faz parte da ExpoLondrina. “A curadoria viu meus trabalhos nas redes sociais e fez o convite. Este reconhecimento mudou até minha própria forma de avaliar esta coleção”. Desde então, os convites para eventos foram se tornando mais frequentes, entre eles o Mostra Tua Arte, em Belém, onde as obras são projetadas em versões gigantes nas fachadas de edifícios.

O artista também faz outros desenhos de observação, em especial retratos. Já ilustrou livros e capas de álbuns musicais. A arte de Caio também inclui pintura a óleo e gravuras. “Eu gosto de retratar paisagens e os pontos mais conhecidos da cidade, como o Lago Igapó e a Catedral”.
As casas de madeira também aparecem em outra coleção, de pintura abstrata. “Tento expressar minhas memórias involuntárias e nelas estão o calor da infância em contraponto à frieza da vida adulta. E as casas de madeira surgem naturalmente neste contexto”.
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ENCONTRO INUSITADO
A reportagem percorreu as ruas da Vila Nova com o artista e registrou um momento inusitado, quando uma moradora da Rua Itajaí foi apresentada ao desenho da casa onde vive. "Nossa! Muito lindo", diz a pensionista Maria de Lourdes da Silva, que garante que a construção é uma das mais antigas do bairro e que já correu o risco de virar cinzas em dois episódios de incêndio, que deixaram marcas sutis na fachada.

É notório que Caio se sente recompensado com o encantamento que suas obras causam em gente simples como Maria de Lourdes. "Sempre que isso acontece, eu me sinto fortalecido para continuar desenhando e descobrindo que o amor por estas construções sobreviveu ao tempo".
A coleção está longe de ser encerrada e o artista esclarece que também trabalha sob encomenda. Os contatos são feitos através das redes sociais: @caioworld.art , no Instagram, e caiosouza/(caiex) no Facebook.
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