Algumas áreas começaram a ser formadas há décadas; velocidade com que as ocupações surgem supera a capacidade do poder público de encontrar uma solução
Algumas áreas começaram a ser formadas há décadas; velocidade com que as ocupações surgem supera a capacidade do poder público de encontrar uma solução | Foto: Marcos Zanutto



O aposentado Marinho Vieira de Souza mudou-se para uma área de invasão no fundo de vale do jardim Sérgio Antônio (zona leste de Londrina) em 1976. Ele vivia de aluguel em uma casa no jardim Piza (zona sul), mas o pagamento dessa despesa pesava demais no orçamento e, mesmo sabendo que estaria irregular, a invasão lhe pareceu uma boa saída. Construiu uma casa na rua Rosa Branca, onde viveu por mais de 30 anos.

"Já estou com 75 anos. Quero deixar alguma coisa para os meus filhos", conta Marinho Vieira de Souza
"Já estou com 75 anos. Quero deixar alguma coisa para os meus filhos", conta Marinho Vieira de Souza | Foto: Saulo Ohara



Quando a prefeitura decidiu retirar todas as famílias do local e demolir as edificações, em meados dos anos 2000, Souza, que era casado na época, entregou toda a documentação solicitada pela Cohab (Companhia de Habitação de Londrina) e conseguiu uma casa no Residencial Vista Bela (zona norte). Mudou-se para o novo endereço, mas depois de oito anos o casamento acabou e como o imóvel estava registrado no nome da ex-mulher, deixou a casa com ela e voltou para o mesmo terreno no fundo de vale da zona leste. Construiu uma nova casa, que divide com o irmão, e sonha com a regularização da área para que possa ter a garantia de que não irá perder todo o investimento feito. "Eu até sairia daqui, para qualquer bairro de Londrina, mas teria que ser com uma escritura no meu nome, tudo direitinho. Já estou com 75 anos. Quero deixar alguma coisa para os meus filhos." Dois filhos e um neto de Souza também moram na área de invasão.

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As casas da rua Rosa Branca construídas à margem do fundo de vale não têm energia elétrica, água encanada nem esgoto. A água e a luz que abastecem as residências vêm de ligações clandestinas, os chamados "gatos", e o esgoto vai para fossas sépticas ou escorre a céu aberto no fundo de vale. A diarista Daiane Cristina Ferreira dos Santos relata as dificuldades de se viver nessas condições. Uma das principais delas são os insetos, como mosquitos, aranhas e escorpiões, e também os ratos e cobras que vez ou outra aparecem dentro das casas. A proximidade com o córrego que corta o fundo de vale obriga a população a conviver com a umidade e o mofo. Mas a maior ameaça é mesmo a desocupação. Ela se mudou para o bairro há seis anos, depois de deixar um terreno da Cohab no jardim Pindorama (zona leste). "Ganhei o terreno da Cohab, mas não conseguiria construir minha casa lá, então vendi e vim para cá", contou.

Daiane Cristina Ferreira dos Santos: ameaça de desocupação
Daiane Cristina Ferreira dos Santos: ameaça de desocupação | Foto: Saulo Ohara



Santos comprou a casa de dois cômodos e ampliou o imóvel para que pudesse acomodar toda a família. Além dela e do marido, no local vivem os quatro filhos. Na compra da residência e na obra foram gastas as economias da família, que ainda teve ajuda de doações. Agora, teme perder tudo o que investiu em melhorias. "Ainda estou inscrita na prefeitura, mas se eu for sair daqui para uma casa da Cohab, não vou ter condições de pagar. Quando eu vim morar aqui, era diarista, ganhava R$ 400 por mês mais os R$ 200 do Bolsa Família. Hoje, meu marido está desempregado, eu faço fisioterapia porque sinto muitas dores, não é sempre que consigo trabalhar, e a gente está vivendo mesmo só com o dinheiro do Bolsa Família."

CRESCIMENTO DESORDENADO
O crescimento desordenado das cidades associado ao agravamento da questão social e às limitações da política habitacional, que não atende a demanda por habitação, gera um cenário favorável para a expansão das ocupações irregulares em áreas impróprias para moradia. Em Londrina, dados da Cohab apontam a existência de 73 áreas de ocupação irregular onde vivem cerca de quatro mil famílias. Algumas dessas áreas começaram a ser formadas há décadas. A mais antiga é a invasão do jardim Sérgio Antônio, que remonta ao ano de 1973. As mais recentes foram registradas em 2016. A velocidade com que as ocupações surgem supera a capacidade do poder público de encontrar uma solução para o problema.

Segundo a Cohab, das 73 áreas irregulares, 12 são núcleos urbanos informais e estão em processo de regularização. As 61 restantes, em terrenos públicos ou privados, concentram o maior contingente populacional, com quase 3,3 mil famílias e cerca de 12 mil pessoas, e não atendem aos requisitos para regularização fundiária. Dessas, 56 ficam na área urbana e cinco nos distritos de Irerê, Paiquerê, Guaravera, Lerroville e São Luiz. É nesse grupo maior que se enquadra a ocupação no fundo de vale do jardim Sérgio Antônio, onde vivem 51 famílias, entre elas, a de Marinho Vieira e de Daiane dos Santos.

É entre as 3,3 mil famílias que estão também as cerca de 25 pessoas que na noite de 14 de janeiro perderam tudo em um incêndio no conjunto Novo Amparo (zona norte). O fogo consumiu dez casas da área da ocupação irregular que existe desde 2016 e que também não existe possibilidade de regularização. Para casos como esses, a única solução, afirma a Cohab, é a remoção das famílias. "Essas áreas não podem ser regularizadas porque são locais com condições topográficas desfavoráveis ou consideradas de preservação permanente", explicou o presidente da Cohab, Luiz Cândido.

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