O El Niño, um dos fenômenos climáticos de maior impacto na Terra devido a sua capacidade de alterar a circulação atmosférica global, vem afetando o Paraná desde o início do inverno, somado a frentes frias, cavados, sistemas de baixa pressão, jatos de baixos níveis e tornados recentes. O pico do fenômeno será entre novembro e janeiro no Brasil, quando a temperatura da superfície do mar deve ficar 2,9°C acima da média.

As mudanças climáticas colocam a saúde da população em risco em diferentes âmbitos, aumentando riscos sanitários, sujeitando serviços de saúde a danos estruturais e prejudicando o bem-estar físico e mental dos afetados. Antecipando o período crítico do El Niño, o MS (Ministério da Saúde) intensificou estratégias de vigilância com base nas demandas de cada região do país, preparando a rede para responder aos numerosos malefícios que o evento climático pode causar.

O fenômeno ocorre na região do Oceano Pacífico equatorial e nas áreas próximas, caracterizado por variações anômalas na temperatura da superfície do mar e na circulação atmosférica. Por períodos que vão de vários meses a anos, ele é capaz de influenciar o comportamento da temperatura do ar e da precipitação em vastas áreas do planeta.

Existe uma probabilidade acima de 90% de que o evento seja categorizado como “muito forte” entre a primavera e o verão no Brasil. Já entre outubro e dezembro deste ano, há 75% de chance de que ele seja o mais intenso de todos os El Niños já registrados desde 1950. Desta forma, o Simepar (Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná) prevê chuva acima da média concentrada em poucos dias, o que aumenta a probabilidade de temporais severos, enxurradas, granizo, raios, cheias repentinas, saturação do solo e movimentos de massa no Paraná.

‘Ouvir a ciência’

O MS antecipa os riscos à saúde pública com base na preparação do SUS (Sistema Único de Saúde) por territórios, com R$ 9,8 bilhões em investimentos para a resiliência climática e planejamento até 2035. As prioridades do AdaptaSUS consideram previsão do tempo, histórico de eventos, vulnerabilidades socioambientais e populacionais, localização de comunidades mais expostas, capacidade de resposta dos serviços e risco de interrupção da assistência.

O Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, pontuou que “uma marca do nosso AdaptaSUS é reconhecer que as mudanças climáticas têm impacto sobre a saúde pública, mas o impacto não é igual para todo mundo. Estamos nos preparando para o El Niño de uma forma completamente diferente de como foi a forma irresponsável que aconteceu no Brasil durante a pandemia, que fazia conflito com o Estado e o município, negava a ciência e virava as costas para a população mais vulnerável. Vamos ouvir a ciência, respeitar as informações que os meteorologistas conseguem nos trazer e integrar essas informações com os dados da Saúde”.

Certos perigos do El Niño são potencializados em todas as regiões do país, como o aumento de acidentes, lesões, sofrimento psicossocial e agravamento de condições crônicas, além da ampliação de casos de dengue, chikungunya e doenças respiratórias, cardiovasculares, relacionadas ao calor e hídricas.

Leia mais:

Leia mais:

Assistência no Sul

A região Sul é a única que deverá ser impactada com chuvas intensas, temporais e inundações durante a janela crítica do El Niño. O cenário esperado para as demais é de seca e calor. Nilton Pereira, diretor de Programa da Secretaria Executiva do MS, elencou diferentes maneiras pelas quais a saúde dos sulistas poderá ser impactada, com afogamentos, ferimentos graves, leptospirose, doenças pela água contaminada, gastroenterites, hepatite A, febre tifoide e interrupção de serviços de saúde.

“Além dos planos de contingência para chuvas intensas que já estão feitos, as linhas de cuidado de saúde mental pós-desastre são prioritárias, e também já estamos emitindo alertas, boletins e fazendo a capacitação e qualificação permanente das equipes”, adiantou Pereira, ressaltando a futura implantação de um Cisc (Centro de Informação em Saúde e Clima) em Curitiba, que irá monitorar riscos relacionados a eventos climáticos.

O diretor salientou iniciativas específicas que deixam o “SUS mais forte para proteger os mais vulneráveis”, como a “reconstrução e construção de novas UBSs (Unidades Básicas de Saúde), todas com arquitetura e engenharia resilientes, mais preparadas para os impactos das mudanças climáticas”. No Sul, são 478 unidades já entregues ou em processo de edificação, projetadas para resistir a eventos extremos, com energia solar, geradores e reserva hídrica para até 72 horas.

A região também recebeu 709 ambulâncias do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e 14 soluções para o acesso à água potável em áreas indígenas, além do reforço na rede de laboratórios de saúde pública - Lacen (Laboratório Central do Estado do Paraná) - e na atenção especializada. “Estamos qualificando a rede de urgência e emergência com a ampliação da cobertura e a universalização do Samu em todo o Brasil, diminuindo o tempo de resposta para o atendimento em desastres”, completou Pereira.

Imagem ilustrativa da imagem Impactos do El Niño na saúde da população
| Foto: Roberto Custódio/Arquivo Folha

Tragédia climática histórica

Ainda na menor região do país em extensão territorial, o maior foco do MS se dá no Rio Grande do Sul, pensando que as enchentes ocorridas em 2024 foram o maior desastre natural da história do Estado e um dos maiores do Brasil. Foram implantados um Cisc e uma Base da Força Nacional do SUS em Porto Alegre, com apoio da inteligência climática.

“O SUS está mais preparado este ano para os impactos das mudanças climáticas do que estava naquele momento. Até porque eu acho que muita gente que negava as mudanças climáticas, achava que não tinham impacto e, inclusive, aprovava políticas negacionistas, reviu sua posição depois da tragédia que aconteceu em Porto Alegre, mas todo o cuidado é pouco. A gente precisa manter a situação de ocupação, de alerta, de vigilância permanente, e é exatamente para isso essa preparação prévia da Força Nacional do SUS”, pontuou Alexandre Padilha.

mockup