El Niño deve garantir chuva, mas impactos ainda são incertos no campo
FOLHA ouviu especialistas para entender como o fenômeno climático afeta a agricultura
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sábado, 20 de junho de 2026
FOLHA ouviu especialistas para entender como o fenômeno climático afeta a agricultura
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

O pesquisador da unidade soja da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), José Renato Farias, acredita que os agricultores paranaenses devem tratar a possibilidade de uma versão severa do fenômeno climático chamado de El Niño como um momento de alerta e não de pânico.
“O produtor deve se precaver e atuar de acordo com a necessidade da lavoura. É um momento de ter atenção máxima com as boas práticas para diminuir os impactos e efeitos do excesso de chuvas”, acredita.
“Vai ter um volume alto de chuva durante o verão, mas será que vai ser bem distribuído? Será que essas chuvas vão atender a necessidade da planta no momento que ela precisa? O que a gente recomenda é fazer uma boa cobertura do solo, com uma deposição adequada da palhada, evitar plantio morro abaixo, fazer uma boa semeadura em curva de nível, semeadura em contorno, porque se vai aumentar o volume de chuva e elas podem ser torrenciais, perde-se tudo na enxurrada, sem que a água infiltre no solo”, explica o doutor em Agronomia, um estudioso da agrometeorologia e das mudanças climáticas. “Outra providência é escalonar a semeadura, não fazer tudo na mesma época. Faz um talhão numa semana, outro na semana seguinte. Busque usar cultivares de tipos diferentes, porque uma vai florescer em um período diferente da outra, isso protege ao menos uma parte da lavoura da estiagem ou da chuva excessiva”, orienta.
Para as culturas de verão como a soja, muitas vezes nem o La Niña nem o El Niño têm muito efeito no resultado geral da safra, não há essa correlação porque as variáveis de produtividade não convergem com a ocorrência destes fenômenos, garante o pesquisador. “O ciclo das cultivares atualmente tem um ciclo muito pequeno e as fases filológicas muito bem definidas: se faltar água naquele momento, o estrago já está feito. Então mesmo com mais chuva na estação, se ficar sem chover 10 ou 15 dias, haverá prejuízo porque a estiagem ocorreu no momento específico do desenvolvimento da planta”, esclarece. “Eles impactam as médias pluviométricas com certeza, mas não há evidências que eles também impactem a produção agrícola. Não é para ninguém ficar apavorado no campo, os efeitos nas cidades são muito piores”, compara. “As culturas de inverno sofrem um pouco mais com a umidade, principalmente o trigo, mas não há evidências que este fenômeno se prolongue após fevereiro”.
O El Niño é o aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico próximas à Linha do Equador, entre a América do Sul e a Oceania. O aquecimento altera a pressão atmosférica, os ventos e o regime de chuvas em todas as regiões da Terra, por até um ano. Nos três estados do Sul, a anomalia causa aumento da temperatura e mais volume de chuvas.
À medida que o outono avança para o fim, os modelos científicos usados pelos governos vão confirmando as suspeitas de que a anomalia cíclica, que é recorrente em intervalos que variam de quatro a sete anos, vai se instalar em 2026.
Relatório publicado este mês pelo Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) informou que as águas do Pacífico Equatorial Central estão 0,7 grau mais quente. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, autoridade climática mais referenciada do planeta, estimou também este mês que existe uma chance de 82% de probabilidade do El Niño se estabelecer já neste trimestre, com 96% de certeza de que ele permaneça ativo até fevereiro.

“O fenômeno é um acoplamento entre a atmosfera e o oceano. A confirmação do fenômeno não depende apenas da temperatura da água, mas de uma combinação de fatores. No caso do El Niño, o acoplamento se manifesta por meio de uma anomalia positiva da temperatura oceânica com a anomalia negativa da pressão atmosférica”, explica a professora da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Deise Ely, responsável pelo LabCLIMA (Laboratório de Pesquisas em Climatologia Geográfica), do Departamento de Geografia, do CCE/UEL (Centro de Ciências Exatas). “Por enquanto, há uma especulação sobre a ocorrência, mas ainda não é possível afirmar que de fato ela vai acontecer. Dizer que será um El Niño forte ainda é alarmismo, talvez seja porque o monitoramento foi antecipado para maio. Para afirmar isso, é preciso continuar monitorando as condições no Pacífico”, adverte. A professora afirma que se o El Niño de fato se instalar, as regiões Oeste e Sudoeste do estado serão mais afetadas. “As chuvas mais intensas e extensas já na primavera podem atrapalhar o plantio da soja e, no verão, a colheita. Com o atraso na colheita da soja, o plantio do milho safrinha também pode atrasar”, lembra.
Aline Santos, engenheira agrônoma e analista da Gerência Técnica e Econômica do Sistema Ocepar, órgão máximo do cooperativismo do Estado, acredita que a garantia de um regime de chuvas robusto é uma previsão que tranquiliza a agricultura, mas lembra que a instalação do El Niño, por outro lado, pode ajudar na proliferação de fungos nas lavouras. “Na parte de granação pode ser um problema, então é preciso monitorar, ficar atento para a janela de pulverização do defensivo, porque a chuva pode obrigar a fazer uma reaplicação”, alerta.


