A variedade carioca intitulada BRS FC 401 RMD está sendo desenvolvida há muito tempo, com a multiplicação de sementes acontecendo agora por parceiros da instituição
A variedade carioca intitulada BRS FC 401 RMD está sendo desenvolvida há muito tempo, com a multiplicação de sementes acontecendo agora por parceiros da instituição | Foto: Sebastião Araújo/Embrapa
O controle do mosaico-dourado exige muitas aplicações de defensivos inviabilizando economicamente a cultura
O controle do mosaico-dourado exige muitas aplicações de defensivos inviabilizando economicamente a cultura | Foto: Sebastião Araújo/Embrapa

No Norte do Paraná e, sobretudo, no Brasil Central, o mosaico-dourado é uma doença devastadora na produção de feijão. Nos meses mais quentes do ano – já que a temperatura regula a multiplicação da mosca-branca, transmissora da doença – a população do inseto dispara, inclusive porque a soja também é hospedeira e assim a mosca acaba migrando para o feijoeiro. Em outros estados importantes para a produção (Paraná é líder do ranking), como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Distrito Federal, chegam a 15 e 20 aplicações de inseticidas para o controle do vetor, que, além dos prejuízos agronômicos, também destrói a viabilidade econômica da cultura.

Instituições de pesquisa trabalham há anos com o melhoramento genético convencional em busca do controle total da virose, mas nunca foi encontrado uma fonte natural de resistência. Existem cultivares lançadas de controle moderado, inclusive com resultados bem eficientes no Estado, caso da IPR Celeiro, lançado pelo Iapar (Instituto Agronômico do Paraná) em 2016. Entretanto, em algumas regiões do País, este tipo de controle não é o suficiente.

Para tais casos, o status de produção pode atingir outro nível com a chegada ao mercado do primeiro feijão transgênico produzido em todo o mundo com controle total do mosaico. A variedade carioca intitulada BRS FC 401 RMD (só para consumo interno) está sendo desenvolvida pela Embrapa Arroz e Feijão, de Santo Antônio de Goiás (GO), há muito tempo, com a multiplicação de sementes acontecendo agora por parceiros da instituição e uma expectativa de chegada aos produtores na safra 2019/20. Entretanto, como se trata de um assunto delicado por se tratar da primeira cultivar transgênica de feijão, as discussões com a cadeia produtiva estão quentes, o que pode alterar o cronograma.

Thiago Livio é pesquisador da área de genética e melhoramento de feijão da Embrapa Arroz e Feijão. Ele explica que em 40 anos buscou-se fontes de resistência efetiva no melhoramento convencional e nada foi encontrado. Inclusive, instituições de outros países indicaram fontes que não sustentavam o controle do mosaico no Brasil. “Realizamos o sequenciamento do genoma do vírus na década 1990. A liberação comercial do evento RMD veio em 2011 pela CTNbio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) e, em 2015, houve o registro da primeira cultivar pelo Mapa.”

Livio relata que as discussões têm sido acaloradas devido ao impacto que a cultivar vai trazer na cadeia. “A cadeia do feijão não é tão estruturada, existe muita especulação, há muitas pessoas se posicionando contra, mas quando vamos conversar percebemos que há interesse pessoal. Tem um viés especulativo comercial. Com quem representa seriamente a cadeia estamos conversando de forma sensível. Essa é a primeira cultivar de outras tantas que virão. A Embrapa não é aventureira nesse tipo de trabalho.”

Com a chega do feijão transgênico às prateleiras, existe uma tendência natural de uma produção mais estável – já que o mosaico está fora da jogada – o que pode gerar uma maior oferta e, portanto, preços mais baixos e com menor oscilação. “O produtor vai poder escolher se quer plantar variedades convencionais ou o transgênico. O consumidor também vai optar, até porque no Brasil existe uma lei de rotulagem para apontar na gôndola se o produto é transgênico. Somos o segundo maior produtor de transgênico no mundo e não temos histórico de segregação de produtos na gôndola. Produzimos soja e milho transgênico, que é base alimentar de um grande número de alimentos”, destaca.

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