“Viver um dia de cada vez faz bem. A gente acaba lidando com a dor sem querer nos machucar”. É assim que a fonte desta reportagem enxerga o mundo aos 22 anos de idade, aceitando que nem tudo está sob o seu controle e, o mais importante, que tudo bem não estar.
Antes da jovem abraçar essa visão, enfrentou “altos e baixos” ainda na adolescência, contando que sua depressão, diagnosticada por psiquiatras, a levou a um estopim que quase tirou sua vida. “Existem vários tipos de pessoas depressivas e nem todas são suicidas, mas acho que no momento do desespero queremos acabar com a dor de qualquer forma e partimos sempre para o pior, que é o suicídio. É só um jeito de tentar acabar com a dor”, considerou.
Ela não lembra exatamente o que passava pela sua cabeça no momento em que tentou suicídio, mas disse que enfrentou “um misto de desespero para querer acabar com tudo logo e sumir”, em uma maneira de evitar o problema ao invés de lutar contra ele, em suas palavras.
Na época, pôde receber ajuda de sua mãe, que sempre a incentivou a buscar ajuda e é seu porto seguro em momentos de crise no presente, “para isso não acontecer novamente”. Olhando para trás e pensando em tudo que passou, a jovem diz não negar “a culpa de ter dito várias vezes que deveria ter feito isso (seguido em frente com a tentativa) quando tinha 15 anos”. “São momentos bem raros de tristeza, não tenho isso faz alguns meses, só em momentos que tudo está desmoronando. Hoje em dia me sinto feliz”, contou.
Passados sete anos, ela pôde se formar no ensino médio, iniciar e finalizar a faculdade de Medicina Veterinária e praticar a profissão que tanto ama. Ela faz terapia quando a agenda ocupada permite, o que a levou a “ver o mundo de forma mais leve” e a ajuda a lidar com as dores sem considerar o último recurso como o fim de sua história.
Se precisar, peça ajuda
A jovem não hesitou em buscar auxílio familiar e profissional, escolha que salva vidas todos os dias país adentro e afora. A campanha 2025 do Setembro Amarelo, que conscientiza sobre a prevenção ao suicídio, tem justamente este tema: “Se precisar, peça ajuda!”. A iniciativa é promovida pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), em parceria com o CFM (Conselho Federal de Medicina).
Conforme dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), mais de 700 mil pessoas morrem anualmente por suicídio, influenciadas não somente por fatores psicológicos, mas também sociais, culturais e biológicos. Ele mata mais que HIV, câncer de mama, homicídio e guerras. Já no Brasil, são cerca de 14 mil notificações por ano, ou seja, em média, 38 pessoas cometem suicídio por dia em solo brasileiro.

‘A vida é bela’ é clichê
Dentre o leque de pacientes atendidos por Sylvio Schreiner, psicanalista clínico e professor de psicanálise em Londrina, estão pessoas que apresentam comportamentos suicidas e até sobreviventes. Ter uma escuta ativa, imparcial e, principalmente, humana, é vital para quem se encontra nesta situação.
“Quando a pessoa está em um estado de desespero muito grande, de uma angústia que nem mesmo consegue nomear, ela precisa de um acompanhamento, porque não tem como pensar nessas questões sozinha. Seria assustador alguém ir para dentro de si mesmo e ver as coisas mais assustadoras, as dores que sofre, e não estar acompanhado”, considerou Schreiner.
O psicanalista traçou uma comparação com "A Divina Comédia", do escritor Dante Alighieri, na qual Dante passa por todos os ciclos do inferno, porém, não está sozinho. “É assustador, mas ele vai acompanhado de Virgílio, que está lá conversando com ele, sendo um interlocutor, que permite a ele lidar melhor com a situação”.
Completou afirmando que a companhia é importante quando consegue entender a dor que o próximo está passando, que não apele para clichês falando “não se mate, não vale a pena, a vida é bela”. “Tem que saber que a pessoa não tem uma reclamação vã, mas é uma reclamação de uma dor muito grande existencial. Às vezes, a pessoa não está conseguindo encontrar vida nela mesma”.
Dar palavras ao sofrimento
O acompanhamento psicológico é um passo essencial tomado em direção a compreender o sofrimento e suas causas, de forma que o paciente compreenda que ele quer acabar com a dor e não com a própria vida. É assim que a psicanálise entende o suicídio, informou Schreiner.
“Toda pessoa que tenta ou pensa em suicídio não quer, na verdade, se matar. Ela quer matar a dor que está sentindo, o sofrimento que não entende de onde vem e como pode lidar com ele. Às vezes, ela sente que não está vivendo de uma maneira verdadeira e quer buscar uma vida que seja realmente autêntica. Fica uma coisa vazia, muito assustadora para ela mesma, e ela não sabe como lidar. Mas nunca é porque a pessoa quer realmente morrer”, frisou.

Sinais de alerta
O profissional afirmou que pensar em suicídio não é incomum, porém, a idealização é preocupante quando deixa de ser efêmera e se torna persistente, ocorrendo não somente em momentos de dor, mas com constância. “Esses pensamentos passam a ser mais detalhados, a pessoa vai detalhando esse possível ato inimaginável, até colocando em palavras. Vai sendo acompanhado de um sentimento de desespero contínuo, parece que não tem saída e ela vai ficando cada vez mais desesperada”.
Schreiner disse que é comum quem está em volta não reconhecer este sinal de alerta, considerando-o como “frescura” e que “se trabalhar passa”. Amigos e familiares também devem se atentar quando a pessoa não fala diretamente que está contemplando o suicídio, mas quando começa a evitar o contato, se retrai e para de “fazer planos e sonhar com a própria vida”. Isto pode indicar que ela está entrando em depressão, que pode levar ao suicídio futuramente.
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Como e onde buscar ajuda
Quando sinais são reconhecidos, é importante que o próximo tenha empatia e não menospreze a condição de quem está sofrendo. O ideal é iniciar uma conversa franca e dar o direcionamento para a ajuda profissional. Para evitar que a pessoa se feche e rejeite o auxílio, a abordagem deve ser feita com cuidado e paciência.
“Tem que ir conversando para a pessoa que está sofrendo perceber que ela não precisa estar nesse estado. E que é mais do que natural que a gente se sinta perdido, não saiba o que fazer conosco mesmo, mas que existem meios muito mais eficientes para aprendermos a lidar com as nossas angústias e dores. Mostrar que ela não precisa ficar pagando tão caro pela vida”, elencou o psicanalista.
Em Londrina, assim como em todo o Paraná, a Rede de Atenção Psicossocial oferta, via SUS (Sistema Único de Saúde), acompanhamento e tratamento psicológico em diferentes serviços de saúde.
O atendimento direto aos munícipes é feito nas UBSs (Unidades Básicas de Saúde) e nas unidades do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) de Londrina, com foco nas pessoas com transtornos mentais em sofrimento psíquico e que podem, ou não, ter tentado suicídio. Já em emergências, como em uma tentativa de tirar a própria vida, o cuidado clínico pode ser feito pelo Samu (192) e nas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento).
Proteção e escuta
Renata Maciel, psicóloga do Ambulatório de Psicologia da Prefeitura de Londrina, explicou que o Caps 3 é referência no atendimento a pessoas que tentaram suicídio, após a assistência emergencial. “Feita a proteção à vida, passamos para a escuta e a questão da saúde mental no Caps, lugar de acolher as pessoas com esse nível de sofrimento”, pontuou.
A unidade tem como foco pacientes com sintomas mais intensos em seus transtornos mentais, com depressão, ansiedade, bipolaridade e esquizofrenia a nível debilitante, exemplificou.

Centro de Valorização da Vida
Outra forma de buscar ajuda é por meio do CVV (Centro de Valorização da Vida), discando 188. A associação civil nacional, fundada em 1962, é filantrópica e sem fins lucrativos, impulsionada pelo trabalho dos mais de 3 mil voluntários que se dividem em turnos para ofertar atendimento 24h.
Somente no primeiro semestre deste ano, foram quase 130 mil horas de escuta ativa com um milhão de ligações atendidas. A região central de Londrina comporta um dos 90 postos de atendimento espalhados pelo país há 45 anos. Destes, o comerciante Aparecido Beltrami integra a equipe de voluntários há uma década.
Com formação em psicoterapia e psicopedagogia, contou que ajudar na causa traz uma sensação de realização própria, de contribuição para a melhora da sociedade, sendo que, “no fundo, quando você ajuda alguém está ajudando a si mesmo”.
O Centro oferece um curso de capacitação, padronizado nacionalmente. “Ser voluntário requer disponibilidade e habilidade. Se está falando de saúde mental, ele tem que passar por um treinamento em que se capacita para compreender e acolher a pessoa. Esse é o foco do CVV, fazer com que o voluntário, ao acolher uma pessoa em atendimento, propicie bem-estar e conforto para quem tem dificuldade em abrir o coração e falar”, pontuou Beltrami.
‘Pronto-Socorro emocional’
A sede em Londrina possui 39 voluntários, que recebem juntos uma média de 180 ligações por dia do Brasil todo. Quem entra em contato não precisa identificar seu nome ou de onde está falando, garantindo anonimidade para maior conforto no desabafo. O comerciante disse ainda que a maioria das ligações que recebem são motivadas pela solidão de quem está do outro lado da linha, e não somente quando a pessoa contempla o suicídio.
Traçando uma comparação, o comerciante se referiu ao CVV como um “Pronto-Socorro emocional”. “Se você está em casa e tem um mal físico súbito, você procura um hospital e vai receber o atendimento. Mas se você estiver em casa três horas da manhã e tiver uma crise emocional, está depressivo, como faz? Não vai encontrar um psiquiatra nesse horário, então, a pessoa pode ligar”, indicou.
Os voluntários estão disponíveis para atender a pessoa de forma empática, sendo que “não existe resposta pronta”, a conversa flui conforme as necessidades. Beltrami reforçou que o trabalho que fazem “funciona como uma terapia pontual, mas não é terapia”, e que o objetivo é fazer com que a pessoa procure a ajuda que cabe ao seu caso.
Nos dias 4 e 5 de outubro, o CVV Londrina vai promover um curso de seleção on-line para novos voluntários. Os interessados podem se inscrever gratuitamente via e-mail: cvv.org.br/voluntários/londrina/.

‘Negar o que não está vendo’
Estudos comprovam que transtornos mentais são a principal causa do suicídio. Um estigma quanto aos distúrbios recai sobre a psiquiatria quando não são atestados com a seriedade que necessitam, o que o psicanalista Sylvio Schreiner considera como mal compreensão de quem pensa desta forma.
A título de comparação, mencionou lesões físicas e problemas de saúde visíveis, que podem ser “medidos, pesados e vistos”. “Se uma pessoa quebra o braço, ela faz o raio-x, engessa e toma analgésico. Se está com apendicite, tem que fazer a cirurgia e tirar aquilo que não está mais bem. Tudo isso é fisiológico, tem como ser ‘provado’ de uma maneira nítida”, elencou.
Com a angústia psíquica é diferente. “Não tem exame de sangue, raio-x, tomografia, que consiga captar o sofrimento mental. Não tem instrumentos e máquinas que dêem conta disso, ele exige contato com outra pessoa para ser captado”, explicou Schreiner.
Mencionando a importância do alcance da campanha de Setembro Amarelo, disse que é neste ponto que os transtornos podem passar despercebidos ou serem menosprezados, visto que “esse sofrimento não tem cor, não tem cheiro, não tem peso. É mais fácil a gente negar o que não está vendo.”


