Basta ir à farmácia ou uma loja de produtos naturais e escolher. De comprimido em comprimido, a população vai se abastecendo com a ideia de que tomar vitaminas aleatoriamente garantirá uma maior imunidade e nutrição para o corpo. Um estudo encomendado pelos conselhos de Farmácia e realizado pela consultoria IQVIA mostrou que a procura por colecalciferol (a vitamina D) aumentou 48,22% no primeiro quadrimestre de 2020, em comparação com o mesmo período do ano passado. Já o ácido ascórbico (vitamina C) aumentou 152,73%, segundo o mesmo levantamento. Os dados levam em conta a procura por todo o país.

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Mas a expressão “quanto mais, melhor" não funciona quando o assunto é vitamina. É preciso ter doses certas para cada indivíduo. Sergio Maeda, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia - Regional São Paulo, explica que a maioria das pessoas não precisa de suplementos por já conseguirem parte das vitaminas em uma alimentação balanceada.

Isso significa que ingerir vitaminas em excesso não vai levar a uma maior imunidade do indivíduo. “As vitaminas e minerais melhoram a resposta imune. Ou seja, quando um indivíduo se indispor, ele poderá responder melhor à determinada doença, o que não quer dizer que ele não será afetado por ela”, afirma a nutricionista Maria Aparecida Ferreira Bonfim, de Londrina.

Ela trabalha com comportamento alimentar em Londrina há 17 anos e destaca que a suplementação é um aporte para que as pessoas atinjam um nível adequado de determinada vitamina, uma vez que isso não está acontecendo por meio da alimentação.

De acordo com a nutricionista, a necessidade de recorrer aos suplementos será justificada somente a partir de exames de sangue. “Com os resultados, podemos constatar se há uma deficiência. Não é todo mundo que está nesse momento precisando de suplementação. O que promove saúde no indivíduo é o equilíbrio na alimentação, a prática de exercício físico e uma boa noite de sono”, afirma.

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NADA DE EXCESSOS

Marise Lazaretti Castro, endocrinologista e professora adjunta na Unifesp (Universidade Federal de SP), comenta que, para quem precisa, ingerir suplementos não faz mal desde que seja na dose correta. "Na internet há recomendações de doses perigosas que podem levar a intoxicação", diz.

O excesso de vitamina pode causar diarreia, sangue na urina, pedra no rim, sobrecarga de ferro nas hemácias, que consequentemente causa fraqueza e indisposição, além da não absorção de outras vitaminas e minerais.

“Temos que entender que a falta de vitaminas é ruim, mas o excesso também. Portanto, é preciso sempre buscar ajuda profissional. Grande parte do que a gente absorve de vitaminas e nutrientes ocorre em nível intestinal e diante de um quadro de diarreia, por exemplo, o estado de saúde em geral pode se agravar, evoluindo para uma desidratação ou desnutrição, especialmente em idosos e grupos de risco”, completa.

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Os endocrinologistas explicam que, diferente dos outros grupos, a vitamina D é obtida principalmente pela exposição solar e diante do isolamento social e do inverno (época em que os raios solares são menos intensos no decorrer do dia), a chance das pessoas terem deficiência deste nutriente é grande.

Assim, caso as pessoas não possam expor braços e pernas ao sol por 10 minutos ao menos três vezes na semana, os suplementos podem ser eficazes para normalizar a quantidade de vitamina no corpo. Segundo Bonfim, a carência dessa vitamina pode comprometer a saúde óssea, pois é ela que ‘carrega’ o cálcio para dentro do osso, e até para a saúde emocional.

“Na depressão, por exemplo, essa vitamina ajuda na resposta do sistema imune, pois a gente sabe que a depressão está muitas vezes relacionada a marcadores inflamatórios altos”, comenta a nutricionista, lembrando que a partir de determinadas concentrações, a vitamina D ganha status de medicamento e por isso, deve ser prescrita apenas por um profissional.

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Em relação à vitamina C ela fala destaca a melhora na reposta imune e cita o papel fundamental na absorção do ferro. “Ela também é responsável pela respiração celular e resistência a infecções. E o nosso organismo precisa de um nível bem menor dela, se comparada à vitamina D, o que justifica ser mais fácil de ser adequada pela alimentação”, afirma

Como exemplo, Bonfim comenta que uma mulher adulta precisa de no mínimo 75 miligramas por dia e uma laranja (100 gramas) oferece cerca de 73 miligramas de vitamina C. “Se a gente pensar que vamos consumir esse tipo de alimento, muito provável que não vamos necessitar de suplementação”.

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COZINHAR EM CASA

Com o isolamento, a população tem encarado velhos hábitos como o de cozinhar em casa. “Estávamos sendo uma geração que assistia programas de culinária, mas consumia alimentos industrializados. Agora as pessoas não só assistem como cozinham. E isso é muito bom. Quando a gente cozinha, vamos colocando o nosso sabor e o cheiro vai despertando respostas fisiológicas no corpo, que vai se preparando para a digestão daquele alimento”, diz a nutricionista Maria Aparecida Ferreira Bonfim, de Londrina.

Para o dia a dia, considerando alimentos ricos em vitamina D, a nutricionista indica o consumo de leites, ovos, peixes com bastante gordura como o salmão e alimentos enriquecidos como manteiga e iogurte. Já a vitamina C está presente em alimentos como mamão, goiaba, agrião, salsa, couve, pimentão, entre outros.

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“Não existe o alimento bom e o mau, mas o quanto comemos e com qual frequência. Vamos olhar esse tempo em casa de forma a valorizar o autocuidado, a nossa família e nossas preferências alimentares. Comida é muito maior que nutriente”, diz. (Com Folhapress)