Série se tornou alvo de análise de especialistas que lidam diariamente com o adolescente
Série se tornou alvo de análise de especialistas que lidam diariamente com o adolescente | Foto: Divulgação



Mais de 49 milhões de resultados em menos de 40 segundos. Essa é a dimensão da série americana "13 Reasons Why" (os 13 porquês, em tradução livre) no mecanismo de busca do Google. Mas a produção está além dos números e de ser apenas mais um seriado. Desde a estreia na plataforma de streamming Netflix, no dia 31 de março, as redes sociais evidenciaram uma série de discussões a respeito dos dilemas que cercam os adolescentes, especialmente sobre bullying, depressão, estupro e suicídio. Em paralelo, o "jogo" Baleia-Azul vem mobilizando autoridades em todo o mundo na investigação de tentativas de suicídios e suicídios que podem estar relacionados ao viral. Quem entra nessa "jogada" deve cumprir 50 desafios, tendo o suicídio como última etapa.

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Tanto o "13 Reasons Why" quanto o "Blue Whale" se tornaram então alvos de análise de especialistas que lidam diariamente com o público-alvo, isto é, os adolescentes. Mas tão importante quanto o acolhimento deles, é situar e orientar os pais e responsáveis a respeito desses fatos.

Afinal de contas, bullying, jogos de desafios, depressão, estupro e suicídio não estão só na ficção. No mundo real, o tempo (40 segundos) que o Google utiliza para buscar resultados sobre o seriado é o mesmo que se registra uma morte no mundo em decorrência do suicídio, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Dados da agência da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que o suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos. No drama produzido por Selena Gomez, a personagem Hannah Baker, de 17 anos, comete suicídio, mas antes grava mensagens em fitas cassetes envolvendo estudantes do colégio. Esses personagens supostamente têm a ver com a morte da garota. Isto é, ela apresenta 13 motivos que justificam o ato.

Keylla Garbuio, psicóloga: pessoas com vulnerabilidade psíquica sempre foram excluídas
Keylla Garbuio, psicóloga: pessoas com vulnerabilidade psíquica sempre foram excluídas | Foto: Gina Mardones



Mas ao longo dos 13 episódios são exploradas também questões como os desejos, mentiras, culpa, relações familiares e o silêncio. No último capítulo, Hannah pede ajuda para o conselheiro escolar, mas é negligenciada.

"A sociedade ocasionalmente não percebe que os adolescentes estão deprimidos, isolados, com a produtividade bastante diminuída ou se alimentando de forma inadequada, pois tudo isso passa como algo natural da idade e, às vezes, só se descobre isso quando a situação complica, como uma autoagressão deliberada ou através de acidentes pelo abuso de álcool", afirma a psiquiatra Carmita Abdo, professora da Faculdade de Medicina da USP e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

O risco de suicídio em crianças e adolescentes deprimidos, segundo ela, é três vezes maior que na população em geral porque eles se sentem muitos desassistidos, vulneráveis e desesperados, a ponto de se exporem a situações de risco cada vez maiores.

Imagem ilustrativa da imagem OS DOIS LADOS - Entre a ficção e a realidade



Keylla Garbuio, psicóloga com atuação há três anos no Centro de Atendimento Psicossocial à Criança e ao Adolescente (Caps) em Londrina, comenta que entre os atendimentos, quando há situações de automutilação, a justificativa é a de que "a dor física sobrepõe à dor da alma. A ideia é de que se eu me corto, eu diminuo um pouco a angústia. É uma fuga, um jeito de, momentaneamente, não lidar com a dor", ressalta.

Mas por que é tão difícil compartilhar a dor? Carmita responde que essa dificuldade pode ser mais um dos sintomas da própria depressão. "Não dá nem para pedir socorro porque a indisposição, a falta de interesse, o humor deprimido vão levando a esse estado de total desapego, a ponto de muitas vezes se atentar contra a própria vida porque é uma necessidade que a pessoa acaba tendo de se livrar de si mesma tal é a dor", completa.

A psicóloga Keylla diz ainda que há anos as pessoas com vulnerabilidade psíquica sempre foram excluídas e que, "apesar de haver um movimento atual de incluí-las, a sociedade ainda não sabe como fazer."

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