'Requintes de detalhes podem interferir de forma negativa'
Com o lançamento do seriado "13 Reasons Why", o Centro de Valorização da Vida (CVV) registrou um aumento de mais de 400% na demanda, considerando mensagens via e-mails, chats e acessos ao site. Em Londrina, a entidade tem uma média mensal de 700 chamadas telefônicas e contabiliza um aumento de cerca de 20% nas últimas semanas. No entanto, os registros de tentativas de suicídio e suicídios também aumentaram.
A psiquiatra Carmita Abdo, de São Paulo, comenta que quando um suicídio é divulgado, ele mobiliza as pessoas que já estão propensas. De acordo com ela, isso acaba funcionando como um "gatilho" para executarem o ato que talvez, de outra forma, teria sido protelado.
É o chamado efeito Werther, em que um evento divulgado tende a gerar outros do mesmo tipo, como um efeito dominó. Por outro lado, ela diz que é muito positivo que as pessoas conheçam mais sobre o suicídio, que pode impactar no sentido, por exemplo, de avaliar um conhecido que estiver deprimido, correndo risco.
"Esse é o lado que a notícia pode agregar positivamente, porém, temos que ponderar. Requintes de detalhes e apresentar a questão de forma explícita podem interferir de forma negativa", observa.
A Associação Paranaense de Psiquiatria (Appsiq) emitiu uma nota se posicionando quanto à polêmica. "A série peca por não abordar a questão do adoecimento mental da personagem, não provocar diálogos sobre como o desfecho dela poderia ser evitado e, principalmente, por dar a impressão de que buscar ajuda é inefetivo."
Carmita compartilha desse entendimento, ao afirmar que a entidade está se questionando se a produção não deveria ter uma condução mais no sentido de prevenir. "A série levanta polêmica, questiona a forma como a sociedade hoje vive muitas vezes suas relações, o abandono que as pessoas sentem. Tudo isso é muito importante de ser apresentado, mas acho que o contraponto deveria ser agregado. O que fazer? Como atender essas pessoas?"
CONFUSÃO
Considerando o comportamento em relação às redes sociais, a psiquiatra pensa que a criança que fica muitas vezes ligada na internet acaba confundindo o mundo real com o virtual. "E a confusão entre os limites do que é realidade e do que não é pode levar crianças e adolescentes a práticas que eles não suportariam, pois eles não são personagens imortais, ou seja, que no próximo capítulo estarão de volta. Então, é tudo muito irreal, fantasioso", analisa.
Sendo assim, a especialista avalia que muitos podem não saber mais diferenciar o que estão vivendo, levando ao não cuidado com a própria vida naqueles que já têm uma vulnerabilidade psíquica. "Isso faz com que eles não tenham, em relação à vida, um sentimento de apego tal que a preservaria. Há ainda, por vezes, a falta de uma outra vivência em paralelo, que seja minimamente explicativa e que se contrapõe àquilo que estão vendo", completa. (M.O.)
SERVIÇO:
O CVV de Londrina funciona 24 horas em todos os dias da semana. As ligações podem ser feitas pelo fone 141 ou (43) 3356-4111.




