Sono é uma das maiores causas de acidentes de trânsito
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sábado, 10 de novembro de 2018
Rafael Costa <br> Reportagem Local 

Curitiba - Pode ser só uma "pescada", dessas que acontecem em casa, na frente da TV. Ao volante, basta um cochilo de um ou dois segundos para que o veículo avance dezenas de metros e saia de controle, causando mais um acidente por sonolência - um dos mais comuns no trânsito brasileiro. No caso dos motoristas profissionais, o problema é particularmente grave. Até 60% dos acidentes envolvendo profissionais desta categoria ocorrem por sonolência e fadiga, segundo a Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego). Trata-se da terceira maior causa de acidentes, atrás apenas do uso de álcool e drogas e do excesso de velocidade.
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A origem do problema geralmente está na privação ou na má qualidade do sono, de acordo com a neurologista Patrícia Coral. A primeira ocorre quando dorme-se uma hora ou mais abaixo da necessidade diária. Já o sono de baixa qualidade pode ser consequência de distúrbios como a apneia, que consiste em paradas momentâneas da respiração.
Os reflexos no dia seguinte podem ser incontroláveis, segundo a especialista em medicina do sono. Em caso de privação grave, mesmo que a pessoa consiga manter os olhos abertos, o cérebro pode atuar de forma a "apagá-la", num mecanismo chamado "pressão do sono". É quando ondas de sono invadem a vigília. "Há pacientes que cochilam só quando estão parados no semáforo - o que, teoricamente, é menos problemático. Mas existem os que cochilam em vias mais lentas ou monótonas, que não exigem atenção", diz Coral.
É por isso que caminhoneiros, por exemplo, estão mais suscetíveis a esse tipo de episódio. São comuns os relatos de corridas contra o tempo na estrada para cumprir prazos de entrega, o que impede períodos de descanso adequados - muitas vezes por dias a fio. A privação do sono e a fadiga somam-se ao fato de a atenção exigida em estradas ser menor em determinados trechos. É por isso que tantos acidentes ocorrem em curvas precedidas por retas longas, por exemplo, sem outras causas aparentes. "O que caracteriza [o acidente por sonolência] é a ausência de reação", explica o presidente da Abramet no Paraná, Dirceu Silveira Junior.
O policial rodoviário federal Fernando Oliveira, chefe do núcleo de comunicação da PRF-PR (Polícia Rodoviária Federal no Paraná), conta que já atendeu a muitos casos com esses sinais, geralmente durante a madrugada. O período entre 2h e 4h, em que o nível do hormônio do sono aumenta, é o mais perigoso. "Quando se percebe que a reta terminou e o caminhão foi em direção à ribanceira, sem reação, ou que foi saindo da pista aos poucos, o policial pode presumir", conta. "Mas nem sempre ele tem segurança para determinar que foi sonolência - há casos que podem ser causados por mal súbito. E dificilmente um sobrevivente vai admitir que adormeceu ao volante. Com certeza há subnotificação."
Desde 2015, o Código de Trânsito Brasileiro veda ao motorista profissional passar mais de cinco horas e meia ininterruptas dirigindo veículos de transporte de carga ou passageiros. Motoristas de caminhão e de ônibus devem observar intervalos de descanso a cada seis e quatro horas, respectivamente. A mesma lei alterou a CLT, que determina que a jornada diária do motorista profissional deve ser de oito horas prorrogáveis por até quatro horas, dependendo do acordo.
A realidade nas estradas, no entanto, envolve jornadas de até 48h, segundo Dirceu Silveira Junior. Os períodos ao volante não são fiscalizados e a legislação "não pegou". Para suportar as jornadas exaustivas, muitos usam drogas como anfetaminas ("rebites") e cocaína. "Mas elas têm um efeito rebote. Na hora em que o sono vem, o motorista não consegue nem reagir. Não há aviso. Ele simplesmente apaga", diz o médico.
SINAIS DE ALERTA
É necessário consultar especialistas e fazer exames específicos para diagnosticar eventuais distúrbios do sono, mas há sinais que podem ser percebidos pela própria pessoa. Quem cochila em qualquer lugar, como salas de espera ou no cinema, pode estar dormindo mal. "Se a gente dorme bem, não é comum ficar cochilando durante o dia", diz Patrícia Coral. "O mesmo vale para os idosos. Há a ideia de que o idoso cochila muito por causa da idade. Mas geralmente ele cochila porque não dorme bem à noite", explica a neurologista.
Já problemas como a apneia do sono são mais facilmente identificados por familiares - especialmente pelos cônjuges, já que o distúrbio chama muito a atenção durante a noite. Quem já ouviu reclamações ou gozações por roncar muito intensamente ou parecer que "está morrendo", na verdade, precisa ser tratado. Não à toa, a renovação das categorias de habilitação profissional inclui exames médicos que procuram por sinais de doenças do sono. "Houve um caso em que um cidadão reclamou da exigência de uma polissonografia, mas que voltou alguns meses depois para agradecer, porque se submeteu ao tratamento e estava melhor", conta Silveira Junior.
A neurologista Patrícia Coral alerta para a necessidade de não negligenciar a questão. "Estados de sonolência durante o dia ou cochilos no trânsito definitivamente não são normais. É preciso correr atrás e investigar", orienta.
Caso sinais de fadiga ou sonolência sejam percebidos ao volante, é imprescindível parar para descansar. As consequências podem ser apenas a lentidão de reflexos ou a indução a pequenos erros que podem não parecer motivo para alarme. Um adormecimento, no entanto, pode causar um acidente fatal. "Ao primeiro sinal de sonolência, é fundamental parar o carro e não continuar", diz o policial rodoviário Fernando Oliveira. "Não adianta tentar lutar com o próprio sono. É uma briga que ninguém consegue vencer."


