A frota de veículos no País superou a marca de 100,7 milhões de unidades, somando todas as categorias. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) referentes ao ano de 2018 apontam um crescimento contínuo desde 2010, quando o número era de 64,8 milhões. Embora o instituto federal apenas contabilize as unidades existentes, sem especificar se estão ou não em circulação, em oito anos a quantidade de automóveis nas cidades brasileiras passou de 37,1 milhões para 54,7 milhões, um crescimento de mais de 47%.

Sistema de transporte coletivo de Curitiba, que já foi considerado modelo no País, também registrou redução de passageiros. Administração procura maneiras de se reinventar para evitar caos no trânsito da cidade
Sistema de transporte coletivo de Curitiba, que já foi considerado modelo no País, também registrou redução de passageiros. Administração procura maneiras de se reinventar para evitar caos no trânsito da cidade | Foto: iStock

Resultado de uma maior concentração populacional, da crescente necessidade de deslocamento, do desenvolvimento econômico e da ampliação do uso dos aplicativos de transporte, o aumento do número de veículos torna urgente a criação de soluções de mobilidade e projetos de infraestrutura que tornem as cidades mais inteligentes e facilitem as idas e vindas de seus habitantes. Oferecer aos cidadãos um sistema de modos de transporte com qualidade representa hoje um dos maiores desafios para gestores de médios e grandes municípios.

Os ônibus urbanos, meio de transporte mais popular, vêm perdendo passageiros. Levantamento da NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos) mostra uma redução de 420 mil usuários a cada dia, em média, no Brasil. No último mês de abril, foram transportadas 280,9 milhões de pessoas contra 293,4 milhões no mesmo mês de 2018. O menor número da série histórica, iniciada em 1994, foi em 2017, com 270 milhões de viagens.

Quando comparada com 2013, a queda de usuários foi de 25%. É como se um em cada quatro passageiros tivesse deixado de andar de ônibus nos últimos seis anos. Os dados apurados pela NTU reúnem os números de nove capitais: Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

A capital paranaense, que sempre atraiu a atenção de outras cidades do País e do mundo em razão das inovações implementadas no transporte público e já foi apontada como modelo a ser seguido, tem registrado queda no número de usuários nos últimos anos. Segundo a Urbs (Urbanização de Curitiba), órgão responsável pela gestão do sistema no município, a redução começou a acontecer há cinco anos. Observando-se os balanços anuais a partir de 2015, quando passaram a ser tabelados apenas os dados do transporte coletivo da cidade de Curitiba, mais de 250 mil passageiros deixaram de usar os ônibus para deslocamento. Há quatro anos, a Urbs contabilizava 1.619.647 passageiros. No ano passado, foram 1.365.615. “Tivemos uma perda forte nos últimos cinco anos. No ano passado nós estabilizamos e estamos estabilizados. Não estamos mais perdendo passageiros. Chegamos a um ponto de equilíbrio e daqui para frente temos que fazer alguma coisa para melhorar o sistema e trazer mais atratividade”, disse o presidente da Urbs, Ogeny Pedro Maia Neto.

Em todo o País, a queda no número de passageiros de ônibus coincide com a popularização dos serviços de aplicativo, os maiores concorrentes do transporte público atualmente. São 5,5 milhões de motoristas cadastrados em aplicativos como Uber e 99. O Brasil é o segundo maior mercado de Uber do mundo, com mais de 22 milhões de usuários. Mesmo com a forte concorrência, o presidente da Urbs afirma que o transporte coletivo é o mais benéfico para as cidades. Além de menos poluente, destaca, permite transportar um grande número de pessoas a cada viagem. “Se a gente não priorizar o transporte coletivo, a cidade vira um inferno, ninguém anda e tudo demora”, destacou Maia Neto.

Para tentar reverter o quadro, gestores e especialistas concordam que é preciso deixar o transporte coletivo mais atrativo de forma que ele se torne a primeira opção dos usuários. Ampliar a quantidade de canaletas e faixas exclusivas para o tráfego dos ônibus, aumentar a segurança e o número de veículos nas linhas, baixar o preço da tarifa fora dos horários de pico e integrar os modais são medidas que podem contribuir para cativar os passageiros, reduzir os custos do serviço e manter o sistema viável.

“Tem a possibilidade de integração dos meios, mas é um desafio. Também é uma possibilidade e um desafio fazer o transporte público por demanda, como nos aplicativos”, avalia Maia Neto. Fomentar o comércio nos bairros e aumentar e descentralizar a oferta de serviços seria uma outra maneira de aliviar o trânsito nas grandes cidades, uma vez que evita longos deslocamentos. Algumas ações dependem de recursos financeiros e outras, de mudanças na legislação.

Diretor de Transportes da CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização), Wilson de Jesus frisa que a ideia de um único meio de transporte não é mais realidade, assim como não existe mais o monopólio. “Hoje as pessoas têm opção e a opção nesse momento tem sido o aplicativo. Os modais estão ampliando, mas um não vai acabar com o outro. Um novo desenho está surgindo.”

Em Londrina, há quase 300 mil veículos cadastrados no Detran e a frota de ônibus no sistema de transporte público não chega a 380 veículos. A CMTU não tem uma estimativa do número de motoristas de aplicativos, mas entende que o município não é capaz de ter uma frota de ônibus que se compare a esse serviço. A alternativa, acredita Jesus, é aliar o transporte público à tecnologia, com recursos que facilitem desde a compra de créditos por meio eletrônico até o planejamento da viagem. “O novo modelo de edital (de licitação do serviço de transporte público) visa agregar a esse modelo tradicional instrumentos de tecnologia e inovação. Modernizar um serviço tradicional visto como tão conservador.”

Imagem ilustrativa da imagem O futuro do transporte público em tempos de aplicativos
| Foto: Gustavo Carneiro/06-05-19

Coordenador dos cursos de tecnologia de informação da Unifil, doutorando na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) em cidades inteligentes e integrante do Projeto de Arquitetura Corporativa do governo federal, Sergio Tanaka afirma que melhorar a acessibilidade sem um modelo de governança e arquitetura não funciona. “Não adianta trabalhar no planejamento se não houve modernização e integração entre todos os setores. O maior problema de Londrina é a governança”, apontou.

O Urban Systems, órgão brasileiro classificador das melhores cidades para investimento, ranqueou no ano passado 700 cidades em todo o País. Curitiba aparece em primeiro lugar, Maringá está na 20ª colocação e Londrina um pouco abaixo, na 25ª posição. No quesito mobilidade, entre as 50 melhores cidades, o ranking coloca Curitiba na sétima posição. Maringá surge em 44º lugar e Londrina ficou de fora da lista. “Londrina tem ações isoladas de uma cidade inteligente. Seria necessária a formação de um comitê de arquitetura corporativa com a participação do prefeito, da Câmara Municipal, Sebrae e Acil para aprovar ou não todas as decisões em relação à cidade inteligente”, sugeriu Tanaka.

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