O futuro do transporte público em tempos de aplicativos
Meio de transporte mais popular, ônibus vêm perdendo usuários a cada ano; gestores debatem meio de torná-los mais atrativos
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de agosto de 2019
Meio de transporte mais popular, ônibus vêm perdendo usuários a cada ano; gestores debatem meio de torná-los mais atrativos
Simoni Saris - Grupo Folha 
A frota de veículos no País superou a marca de 100,7 milhões de unidades, somando todas as categorias. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) referentes ao ano de 2018 apontam um crescimento contínuo desde 2010, quando o número era de 64,8 milhões. Embora o instituto federal apenas contabilize as unidades existentes, sem especificar se estão ou não em circulação, em oito anos a quantidade de automóveis nas cidades brasileiras passou de 37,1 milhões para 54,7 milhões, um crescimento de mais de 47%.

Resultado de uma maior concentração populacional, da crescente necessidade de deslocamento, do desenvolvimento econômico e da ampliação do uso dos aplicativos de transporte, o aumento do número de veículos torna urgente a criação de soluções de mobilidade e projetos de infraestrutura que tornem as cidades mais inteligentes e facilitem as idas e vindas de seus habitantes. Oferecer aos cidadãos um sistema de modos de transporte com qualidade representa hoje um dos maiores desafios para gestores de médios e grandes municípios.
Os ônibus urbanos, meio de transporte mais popular, vêm perdendo passageiros. Levantamento da NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos) mostra uma redução de 420 mil usuários a cada dia, em média, no Brasil. No último mês de abril, foram transportadas 280,9 milhões de pessoas contra 293,4 milhões no mesmo mês de 2018. O menor número da série histórica, iniciada em 1994, foi em 2017, com 270 milhões de viagens.
Quando comparada com 2013, a queda de usuários foi de 25%. É como se um em cada quatro passageiros tivesse deixado de andar de ônibus nos últimos seis anos. Os dados apurados pela NTU reúnem os números de nove capitais: Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.
A capital paranaense, que sempre atraiu a atenção de outras cidades do País e do mundo em razão das inovações implementadas no transporte público e já foi apontada como modelo a ser seguido, tem registrado queda no número de usuários nos últimos anos. Segundo a Urbs (Urbanização de Curitiba), órgão responsável pela gestão do sistema no município, a redução começou a acontecer há cinco anos. Observando-se os balanços anuais a partir de 2015, quando passaram a ser tabelados apenas os dados do transporte coletivo da cidade de Curitiba, mais de 250 mil passageiros deixaram de usar os ônibus para deslocamento. Há quatro anos, a Urbs contabilizava 1.619.647 passageiros. No ano passado, foram 1.365.615. “Tivemos uma perda forte nos últimos cinco anos. No ano passado nós estabilizamos e estamos estabilizados. Não estamos mais perdendo passageiros. Chegamos a um ponto de equilíbrio e daqui para frente temos que fazer alguma coisa para melhorar o sistema e trazer mais atratividade”, disse o presidente da Urbs, Ogeny Pedro Maia Neto.
Em todo o País, a queda no número de passageiros de ônibus coincide com a popularização dos serviços de aplicativo, os maiores concorrentes do transporte público atualmente. São 5,5 milhões de motoristas cadastrados em aplicativos como Uber e 99. O Brasil é o segundo maior mercado de Uber do mundo, com mais de 22 milhões de usuários. Mesmo com a forte concorrência, o presidente da Urbs afirma que o transporte coletivo é o mais benéfico para as cidades. Além de menos poluente, destaca, permite transportar um grande número de pessoas a cada viagem. “Se a gente não priorizar o transporte coletivo, a cidade vira um inferno, ninguém anda e tudo demora”, destacou Maia Neto.
Para tentar reverter o quadro, gestores e especialistas concordam que é preciso deixar o transporte coletivo mais atrativo de forma que ele se torne a primeira opção dos usuários. Ampliar a quantidade de canaletas e faixas exclusivas para o tráfego dos ônibus, aumentar a segurança e o número de veículos nas linhas, baixar o preço da tarifa fora dos horários de pico e integrar os modais são medidas que podem contribuir para cativar os passageiros, reduzir os custos do serviço e manter o sistema viável.
“Tem a possibilidade de integração dos meios, mas é um desafio. Também é uma possibilidade e um desafio fazer o transporte público por demanda, como nos aplicativos”, avalia Maia Neto. Fomentar o comércio nos bairros e aumentar e descentralizar a oferta de serviços seria uma outra maneira de aliviar o trânsito nas grandes cidades, uma vez que evita longos deslocamentos. Algumas ações dependem de recursos financeiros e outras, de mudanças na legislação.
Diretor de Transportes da CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização), Wilson de Jesus frisa que a ideia de um único meio de transporte não é mais realidade, assim como não existe mais o monopólio. “Hoje as pessoas têm opção e a opção nesse momento tem sido o aplicativo. Os modais estão ampliando, mas um não vai acabar com o outro. Um novo desenho está surgindo.”
Em Londrina, há quase 300 mil veículos cadastrados no Detran e a frota de ônibus no sistema de transporte público não chega a 380 veículos. A CMTU não tem uma estimativa do número de motoristas de aplicativos, mas entende que o município não é capaz de ter uma frota de ônibus que se compare a esse serviço. A alternativa, acredita Jesus, é aliar o transporte público à tecnologia, com recursos que facilitem desde a compra de créditos por meio eletrônico até o planejamento da viagem. “O novo modelo de edital (de licitação do serviço de transporte público) visa agregar a esse modelo tradicional instrumentos de tecnologia e inovação. Modernizar um serviço tradicional visto como tão conservador.”

Coordenador dos cursos de tecnologia de informação da Unifil, doutorando na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) em cidades inteligentes e integrante do Projeto de Arquitetura Corporativa do governo federal, Sergio Tanaka afirma que melhorar a acessibilidade sem um modelo de governança e arquitetura não funciona. “Não adianta trabalhar no planejamento se não houve modernização e integração entre todos os setores. O maior problema de Londrina é a governança”, apontou.
O Urban Systems, órgão brasileiro classificador das melhores cidades para investimento, ranqueou no ano passado 700 cidades em todo o País. Curitiba aparece em primeiro lugar, Maringá está na 20ª colocação e Londrina um pouco abaixo, na 25ª posição. No quesito mobilidade, entre as 50 melhores cidades, o ranking coloca Curitiba na sétima posição. Maringá surge em 44º lugar e Londrina ficou de fora da lista. “Londrina tem ações isoladas de uma cidade inteligente. Seria necessária a formação de um comitê de arquitetura corporativa com a participação do prefeito, da Câmara Municipal, Sebrae e Acil para aprovar ou não todas as decisões em relação à cidade inteligente”, sugeriu Tanaka.
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