Herói de quatro patas, Bello visita escolas de Londrina

Em parceria com a PF, crianças e adolescentes aprendem sobre crimes cibernéticos sexuais; Bello é o primeiro cão de tribunal do Brasil

Publicado segunda-feira, 29 de setembro de 2025 | Autor: Heloísa Gonçalves às 06:20 h

Aos dois anos e meio de idade e pesando 53 kg, Bello é o primeiro cão de tribunal do Brasil e “funcionário” do TJPR (Tribunal de Justiça do Estado do Paraná). Ele é pioneiro no país na atuação como assistente judiciário, incorporado à equipe do Fórum de Londrina como instrumento terapêutico na rede de proteção às crianças e adolescentes vítimas de violência, como a física, psicológica, o abuso sexual e abandono. Além disso, Bello visita escolas municipais, por meio de uma parceria com os Guardiões da Infância da Polícia Federal.

O trabalho foi iniciado em 2023 em parceria com o Ibetaa (Instituto Brasileiro de Educação e Terapia Assistida por Animais), que treinou Bello, da raça bernese mountain, e os cães de apoio que complementam o seu trabalho pontualmente.

Suporte emocional

A equipe do NAE (Núcleo de Apoio Especializado à Criança e ao Adolescente) atende a Comarca de Londrina em processos envolvendo menores de idade, encaminhados das Varas de Família, dos Juizados Especiais Criminais e da 1° Vara da Infância e Juventude.

Os profissionais avaliam a situação em que os jovens se encontram, como disputas de guarda, alienação parental e violência, para apresentar um documento técnico - como um estudo social ou parecer psicológico - que ajude a subsidiar uma decisão judicial.

Na maioria das vezes, a avaliação é requisitada em situações tensas, explicou Aline Fioravante, psicóloga judiciária do TJPR. “Imagina uma criança que tenha que fazer o depoimento em um processo criminal relacionado ao abuso sexual que sofreu. Há uma tensão muito grande e uma dificuldade de estar no ambiente jurídico, então temos a possibilidade de chamar o Bello para proporcionar acolhimento, segurança, alívio de estresse e ansiedade”.

Com Bello ao lado, “a criança entende que não existe uma ameaça a ela no ambiente, porque se ela está trocando carícias e brincando com o animal, consegue sentir uma outra estimulação que concorre com a tensão inicial”, completou Fioravante.

Promovida pelo Ibetaa em 2023, a equipe do Fórum passou por uma formação técnica em Serviços Assistidos por Animais para trabalhar com o Bello. A capacitação incluiu uma preparação teórica e acompanhamento prático para o manejo do cachorro. Quando ainda era filhote, o cão também passou por um treinamento e testes, após ter sido selecionado em sua ninhada por um especialista em comportamento animal.

Bello com sua tutora, Luciana Issa, que é fundadora do Ibetaa: 70 atendimentos na Justiça tiveram a participação do animal
Bello com sua tutora, Luciana Issa, que é fundadora do Ibetaa: 70 atendimentos na Justiça tiveram a participação do animal | Foto: Heloísa Gonçalves

‘Estou aqui com você’

Tutora do cão e fundadora do Ibetaa, Luciana Issa acompanha Bello até a porta da sala em que o depoimento será ouvido, mas ele dá conta dos “atendimentos” sozinho. “Ele acolhe a criança na entrada do Fórum e conduz para a sala que ela precisa fazer a perícia, o depoimento. Às vezes, ela chora em cima do cachorro e aperta ele, mas ela não volta atrás, ela sente uma segurança maior, é como se ele estivesse falando ‘eu estou aqui com você’”, considerou.

A profissional disse que os resultados da parceria com o TJPR têm sido cada vez mais promissores, se baseando nos estudos realizados sobre cada caso em que Bello atua. Crianças que hesitavam em conversar por 15 minutos com o perito “conseguem se expressar mais através” do cachorro e falam por uma hora em reescutas, com mais informações sendo colhidas.

Leia mais:

Belle

Cerca de 70 atendimentos tiveram a participação do animal, que “bate o ponto” uma vez por semana, geralmente. Por conta da demanda, o primeiro cão de apoio a vítimas especiais está sendo treinado pelo Ibetaa. Para combinar com o “primogênito”, a golden retriever se chama Belle.

A golden retriever Belle é treinada para ser animal de apoio a vítimas especiais
A golden retriever Belle é treinada para ser animal de apoio a vítimas especiais | Foto: Luciana Issa

Atuação em campo

O trabalho do Bello ultrapassou as quatro paredes do judiciário e chegou à escolas municipais de Londrina, por meio de uma parceria com os Guardiões da Infância da PF (Polícia Federal). O programa busca prevenir situações de exploração e abuso sexual contra crianças e adolescentes no ambiente virtual. Palestras são realizadas em colégios por todo o Brasil para alertar o público-alvo, professores e pais sobre como navegar em uma internet segura e agir em situações suspeitas.

A delegacia da PF em Londrina foi a primeira do país a promover as visitas, com os temas variando entre segurança digital, cyberbullying, saúde mental e desinformação nas redes sociais, crimes de ódio e prevenção ao abuso sexual infantojuvenil.

Visita de Bello à Escola Municipal Carlos da Costa Branco: ação alerta e conscientiza comunidade escolar
Visita de Bello à Escola Municipal Carlos da Costa Branco: ação alerta e conscientiza comunidade escolar | Foto: Heloísa Gonçalves

Alvos em jogos online

Na terça-feira (23), Guardiões estiveram com representantes do Ibetaa na Escola Municipal Carlos da Costa Branco, no Jardim Piza, zona sul. Os alunos do 5º ano tiveram a chance de conhecer e acariciar Bello, mas, antes, aprenderam sobre o cuidado que devem ter ao navegar na internet para não se tornarem vítimas de crimes.

Guardiã da Infância da PF conversa com alunos da Escola Carlos da Costa Branco sobre como navegar na internet e agir em situações suspeitas
Guardiã da Infância da PF conversa com alunos da Escola Carlos da Costa Branco sobre como navegar na internet e agir em situações suspeitas | Foto: Heloísa Gonçalves

Verônica Carvalho atua na URCOPI (Unidade de Repressão a Crimes de Ódio e Abuso Sexual Infantil) da PF. Com foco na atuação de criminosos em jogos online - como Roblox, Free Fire, Minecraft e Fortnite -, relatou aos estudantes, de 10 a 11 anos, a importância de não expor informações pessoais para “amigos” que conhecerem na internet. É primordial não divulgar onde estudam, moram e onde os pais trabalham, além dos horários que ficam sozinhos em casa.

Desafios sexuais

No caso do colega virtual, que também se apresenta como criança, propor ações sexuais como desafios, a ação imediata necessária é contar para um adulto de confiança e à polícia, com o Bello também como opção via WhatsApp.

Carvalho relatou crimes reais ocorridos em Londrina em que jovens foram vítimas, afirmando que um modus operandi comum é o perpetrador pedir que o menor de idade ligue a câmera do celular/computador e fique nu, ou que tire fotos íntimas dele e dos irmãos ainda mais novos.

'Ninguém gosta de mim'

Outra estratégia é apelar para a empatia da criança. A agente exemplificou: na tentativa de forjar uma conexão, o adulto, se passando por uma menina, fala para a vítima “ninguém gosta de mim, me sinto mal porque o meu peito (seios) não está crescendo, posso ver os seus?”. Segundo Carvalho, “eles vão atrás de crianças que têm baixa autoestima, que também se sentem de lado, e aí ela se sente empática e acaba mandando fotos. Já tivemos casos de crianças que foram vítimas por mais de um mês enviando e não se tocaram que estavam sendo enganadas”.

A partir daí, é comum o pedófilo partir para a sextorsão, a chantagem sexual online. Quando o criminoso está em posse de uma foto íntima da vítima, ameaça divulgar o material para seus pais e amigos se ela não enviar mais registros. O crime é tipificado como extorsão no Código Penal, com reclusão de quatro a dez anos e multa.

A policial reforçou que os jovens não devem ter vergonha de pedir ajuda ou se sentirem culpados, já que foram manipulados por infratores ardilosos. Uma dica dada foi: “se você não quer que seus pais, professores e amigos saibam o que está fazendo na internet, não faça”.

Imagem ilustrativa da imagem Herói de quatro patas, Bello visita escolas de Londrina
| Foto: Heloísa Gonçalves

Cartas para Bello

Após a apresentação de tipos de abuso e violência nas palestras, com linguagem adaptada para o público infantil, Luciana Issa conta como o trabalho de Bello funciona e lista suas habilidades. A tutora entrega um papel com uma ilustração do animal a cada estudante e convida os pequenos a “contar para o Bello” se foram ou são vítimas de qualquer tipo de crime, sendo que quem não tem nada para relatar, pode somente escrever sobre o cão. As crianças formam uma fila para depositar os papéis em uma bolsa que o animal carrega em seu colete, aproveitando para acariciá-lo.

Carvalho contou que o recebimento de denúncias ao final das apresentações é comum, o que é encorajado pela presença de Bello. “No começo a gente fazia sem ele e recebíamos em torno de duas, três revelações por palestra. Depois que ele começou a participar, chega a ter uma média de 15 cartas relevantes, não só de abuso, mas de violência doméstica, problemas de saúde mental, e podemos dar o devido encaminhamento na rede de proteção para essas crianças”, informou.

‘Não guarde segredos que te machucam’

Como “defensor das crianças e adolescentes que sofrem violência”, Bello pode ser contatado via e-mail, pelo endereço [email protected], ou por WhatsApp, pelo número (43) 99141-5836. O contato da URCOPI, unidade em que Carvalho atua, é (43) 98862-1207.

Antes da vítima ser ouvida por um profissional da rede de proteção, pode solicitar o acompanhamento do amigo de quatro patas. Exemplificando, a agente informou que “o Bello acompanha no IML (Instituto Médico Legal), na delegacia e no tribunal. Durante todo o processo ele ajuda a criança”.

Cuidado com gente mais velha

Isabella Martins, 10, é uma jogadora ávida de Roblox, contando com mais de 100 amizades em seu perfil. A plataforma é extremamente popular entre menores de idade, oferecendo ferramentas para que os usuários criem seus próprios jogos.

Isabella Martins tem cuidado ao conversar com estranhos em jogos online
Isabella Martins tem cuidado ao conversar com estranhos em jogos online | Foto: Heloísa Gonçalves

Mesmo com tantos amigos virtuais, a menina garantiu que é precavida ao interagir com outros jogadores. “Eu tenho a amizade do Arthur (colega de turma), de uma menina do outro 5º ano e algumas outras amizades que fui conhecendo no jogo. Têm algumas que não falo muito e tem umas que eu jogo bastante, todo dia, mas eu tomo bastante cuidado porque tem gente mais velha e pessoas que ficam usando hacks (trapaças para obter vantagens), fazendo coisas que não entendo muito bem”, relatou Martins.

O ideal é que os pais dos jogadores mirins desativem a permissão do chat da conta de seus filhos, para garantir que ninguém com más intenções entre em contato.

Conhecidos da vida real

Isabella achou “bem interessante saber sobre os perigos que a gente pode correr”, contando que adorou a visita de Bello. “Eu gostei que ele veio pra escola, achei ele muito carinhoso e bonito. No final, eu até desenhei ele na cartinha”.

Arthur Sobral: "Gostei muito de fazer carinho no Bello"
Arthur Sobral: "Gostei muito de fazer carinho no Bello" | Foto: Heloísa Gonçalves

Já seu amigo Arthur Sobral, 10, que joga Roblox com ela, contou que todas as amizades que mantém no jogo são conhecidos da vida real. “Gostei muito de escrever a carta e de fazer carinho no Bello, ele foi a atração”, completou.

Atento à palestra

Yudi Abe, 11, chamou atenção para o trabalho do animal e os ensinamentos das policiais federais. “É bem interessante, ele é o primeiro cachorro de tribunal do Brasil. Gostei do que elas falaram sobre os perigos da internet, sobre o que pode acontecer com você se não se cuidar bem”.

Yudi Abe, 11, se mostrou atento aos perigos dos perfis falsos na internet
Yudi Abe, 11, se mostrou atento aos perigos dos perfis falsos na internet | Foto: Heloísa Gonçalves

Antes de conhecer as funções de Bello, os alunos tentaram adivinhar o seu emprego. Cão de caça, farejador, identificador de pessoas, assistente da polícia e cão psicólogo foram alguns dos nomes gritados. Ao final, chegaram em uma resposta juntos: super-herói de quatro patas.

Logo da Folha de Londrina
Heloísa Gonçalves

Heloísa Gonçalves

Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.

Repórter de Educação, Saúde e Cidades, com foco em políticas públicas e cotidiano.