Parajiu-jítsu muda a ‘maneira de ver a vida’ em crianças com deficiência
Academia na zona oeste de Londrina oferece aulas do esporte adaptado para todas as idades; Matheus e Enzo, de 6 e 7 anos, são alunos de professor que também usa cadeira de rodas
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sábado, 27 de setembro de 2025
Academia na zona oeste de Londrina oferece aulas do esporte adaptado para todas as idades; Matheus e Enzo, de 6 e 7 anos, são alunos de professor que também usa cadeira de rodas

Parajiu-jítsu, ou jiu-jítsu Paradesportivo, é a modalidade adaptada do esporte para quem possui algum tipo de deficiência, seja física, motora ou cognitiva. Diego Silva, lutador e professor que usa cadeira de rodas, oferta aulas de parajiu-jítsu semanalmente no Jardim Bandeirantes, na zona oeste de Londrina.
O profissional começou a praticar a luta após uma lesão medular, em decorrência de uma emboscada quando era agente penitenciário, há 10 anos. “Eu sofri a lesão por ferimento de arma de fogo. Sofri um atentado e levei sete tiros, foi o momento em que eu fiquei em cadeira de rodas. Eu já gostava de luta mesmo antes da lesão, tinha treinado taekwondo e muay thai, mas nunca jiu-jítsu”, relembrou.
Silva contou que foi difícil se adaptar às posições quando se interessou pelo esporte e começou a prática, porém, que seu esforço e persistência valeram a pena. “Tinham muito poucos paratletas, hoje já tem uma quantidade maior. Eu decidi continuar, e hoje já faz três anos que estou na faixa preta. A luta foi a minha psicóloga.”
Público-alvo
No momento, Silva atende duas crianças que utilizam cadeira de rodas para a locomoção, Matheus, de 6 anos, e Enzo, de 7. Ele explicou que as aulas são abertas para todas as idades, não somente crianças, e para pessoas com deficiência intelectual também, mediante avaliação.
“O objetivo é ensinar jiu-jítsu para pessoas com deficiência. Mostrar para elas o que elas podem fazer, que conseguimos adaptar esse esporte para a deficiência delas. Eu já tive alunos com paralisia cerebral, aí tem que ser avaliado como é o nível dessa lesão, se eles vão conseguir realmente fazer alguma coisa”, informou.

‘Tirando o mato’ e abrindo o caminho
A acessibilidade nos treinos é garantida pela análise da limitação do aluno, atestando “o que ele pode fazer que será efetivo nas lutas” e mostrando que ele tem capacidade para se defender.
Silva pontuou que é importante ofertar treinos especializados para beneficiar a adaptação de quem está aprendendo, lembrando que quando iniciou na luta pós-lesão, não teve a mesma oportunidade. “Eu nunca tive uma aula só para pessoas com deficiência, tanto que eu treino só no convencional. Tive que me adaptar, tive todo esse processo, então para eles vamos facilitar, estou tirando o mato que a gente teve que abrir.”

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Melhorias na saúde
O que Matheus, 6, mais gosta no jiu-jítsu são os golpes que pratica em todas as aulas e a brincadeira rabinho, que funciona como um pega-pega entre dois lutadores. Cada um tem um elástico amarrado na parte de trás de sua faixa, sendo que vence quem conseguir arrancar a peça do outro primeiro.
Esse é o primeiro contato do menino com qualquer tipo de luta. Ele é acompanhado de seus pais, Leandro e Drielly dos Santos, em todos os treinos na academia Black Belt.

O pai, vendedor de carros, contou que a prática traz benefícios significativos ao Matheus em diversas áreas. “Tem ajudado ele com a questão de respeito, saber respeitar o corpo, controlar a ansiedade, que é um problema que ele tinha bastante e está conseguindo controlar por causa da luta. O melhoramento físico também, não tinha muito equilíbrio e isso melhorou bastante. A gente vê ele alegre, gostando do esporte, é uma maravilha”, pontuou.
Lutas futuras
Recentemente, Matheus e Enzo participaram de uma demonstração de luta no Open Five Jiu-Jítsu, campeonato estadual realizado no Moringão. Matheus superou o amigo e levou o primeiro lugar. Santos contou que de tão feliz, “só faltou o Matheus dormir com a medalha”.

O menino disse que teve “um pouquinho de vergonha, porque tinha um monte de gente” assistindo e ele nunca tinha lutado perante uma plateia tão grande, mas garantiu que gostou da experiência e pretender disputar em competições.
Se defender quando precisar
Já a parte favorita dos treinos para Enzo, 7, é “virar cambalhota”. Sobre a demonstração em que ficou com o segundo lugar, contou que foi pego de surpresa pelo amigo, tentando “subir em cima dele, pelo golpe”, mas que não foi desta vez.
Seu pai, Junior Rosenfeld, considerou que foi uma ótima experiência de aprendizado para o filho. “O Enzo teve oportunidade de finalizar o Matheus, mas por indisciplina não soube aproveitar o momento, levou na brincadeira, o Matheus levou mais a sério e finalizou. Isso foi bom para ele aprender que na vida tem momentos de brincadeira e momentos sérios, então temos que saber equilibrar os dois”, pontuou.

O autônomo disse que o jiu-jítsu tem auxiliado Enzo a manter a disciplina, impulsionando um “interesse em aprender uma coisa nova e desenvolver”. Também funciona como prática de defesa pessoal para o menino, para possíveis casos de necessidade. “Para ele saber se defender sozinho de alguma coisa, de golpes. Aconteceram alguns episódios na escola, então até mesmo para ele poder se defender contra isso. Maldade de alguma criança ou futuramente de algum adolescente ou adulto”, relatou.
‘Antes e depois do esporte’
Na aula de sábado (20), Enzo e Matheus foram acompanhados de Pedro, 12, que utiliza cadeira de rodas, e Maria Flor, 9. Ambos possuem mielomeningocele, malformação congênita da coluna vertebral e uma das formas mais graves de espinha bífida. “Com o Pedro foi de nascença. A Maria também tem, fez uma cirurgia intrauterina e foi corrigido, então ela anda”, contou a mãe dos irmãos, Priscila Guedes.
Atualmente, a família vive em Guarapuava, na região central do Paraná, porém, Guedes pretende voltar a Londrina para que os filhos retomem a relação com o esporte. Para a mulher, os benefícios vão desde a estimulação cognitiva até a social, visto que seus filhos estão em contato com um professor e outras crianças que também possuem deficiências.

“Depois que o Pedro conheceu o Diego, ele começou a ver de outra maneira a vida dele, a lesão dele, as dificuldades que ele tem. A parte de desenvolvimento motor, o desenvolvimento do corpo mesmo, não tem igual. O esporte para ele é essencial”, informou Guedes.
Ela contou que é uma “oportunidade de ouro” seus filhos aprenderem com Silva, levando em conta a experiência pessoal e aptidão que o professor apresenta, visto que “são poucos os que querem atender a criança especial”. “É um desenvolvimento muito grande, o antes e o depois do esporte. O antes é uma criança, depois do esporte é outra. É igual a cadeira de rodas, depois que você coloca na cadeira, ela já começa a ver as coisas de outra maneira”, relatou a mãe.
Serviço
As aulas de parajiu-jítsu são realizadas aos sábados, às 14h, na academia Black Belt. O endereço é Rua Serra da Graciosa, 693, no Jardim Bandeirantes.
Os interessados nas aulas, de qualquer idade, podem entrar em contato com Diego Silva pelo seu perfil no Instagram - @diegosilvapjj - ou telefone da academia, (43) 98404-5815.



Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.




