Imagem ilustrativa da imagem Com início em Londrina, Lava Jato completa cinco anos
| Foto: Alf Ribeiro/Shuttersock.com

Quase nove anos após a morte de José Janene, o seu legado em grandes esquemas de corrupção no País permanece ativo. Foram as apurações acerca de uma estrutura para lavagem de dinheiro envolvendo o ex-deputado federal que deram origem à Operação Lava Jato, a maior investigação de corrupção e lavagem de dinheiro do Brasil, deflagrada em 17 de março de 2014 e que em cinco anos se desdobrou em 60 fases.

As primeiras investigações da Lava Jato começaram em Londrina, conduzidas pelo ex-delegado da Polícia Federal Gerson Machado. Ele apurava delitos praticados por quatro organizações criminosas lideradas por doleiros. O início da operação se deu com o surgimento do nome de Janene vinculado a duas empresas londrinenses e ao doleiro brasiliense Carlos Habib Chater, além de pessoas físicas e jurídicas ligadas a ele. Com o aprofundamento das apurações, um outro nome bastante conhecido dos londrinenses despontou, o do ex-doleiro Alberto Youssef.

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A dupla Janene/Youssef já havia estado em evidência em 1999, nas investigações do Caso AMA/Comurb, em Londrina, e nas investigações do esquema do mensalão, revelado em 2005, durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e que consistia na compra de apoio político de deputados para aprovação de projetos de interesse do Executivo. Youssef aparece ainda nas apurações do Caso Banestado, em 2003, relacionadas às contas CC5 e a movimentações financeiras no exterior. O escândalo envolvendo o banco estatal foi descoberto a partir das investigações do Caso AMA/Comurb, quando foi identificado que o ex-doleiro utilizava a instituição financeira na lavagem de dinheiro.

A cada fase deflagrada da Lava Jato, outros desdobramentos de um enorme propinoduto foram sendo revelados, apontando que a cada novo esquema de corrupção envolvendo Janene e Youssef, a dupla parecia aprimorar o know-how em desvio e lavagem de dinheiro, ampliando suas ramificações e aumentando o seu poder, assim como a complexidade da estrutura criminosa. Os crimes investigados atingiram não só a Petrobras, alvo principal da Lava Jato e que sofreu influência de Janene durante os mandatos do presidente Lula, mas alcançaram outros órgãos federais e as várias forças-tarefas criadas dentro da operação mostraram a existência de braços do esquema nos âmbitos estadual e municipal. No Paraná, por exemplo, um desmembramento da operação identificou irregularidades praticadas na concessão de pedágio nas rodovias federais, responsáveis por levar à cadeia o ex-governador Beto Richa (PSDB).

ASCENSÃO

Na década de 1980, José Janene era apenas um empresário do setor de iluminação pública que mantinha contratos com a Prefeitura de Londrina e de outros municípios da região. O empresário elegeu-se deputado federal em 1994 e, em 1999, foi apontado como uma das figuras centrais no Caso AMA/Comurb, esquema que desviou milhões de reais dos cofres municipais por meio de licitações fraudulentas, descoberto durante o terceiro mandato do prefeito Antonio Belinati e que culminou na sua cassação, em 2000.

As investigações do primeiro grande caso de corrupção em Londrina também trouxeram à tona o nome de Alberto Youssef, o ex-sacoleiro de produtos paraguaios que se transformou em um dos maiores doleiros do País, além de braço direito e homem de confiança de Janene.

Youssef, preso por participação no caso AMA/Comurb, preso no Caso Banestado e condenado por lavagem de dinheiro desviado do mensalão, ressurge na Lava Jato associado ao ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, indicado ao cargo por Janene, em 2004. O ex-doleiro foi um dos 17 presos em março de 2014, no primeiro dia da operação, suspeito de comandar a estrutura criminosa. Os investigadores identificaram que Youssef havia comprado um veículo de luxo para o então diretor da petrolífera dentro do esquema de lavagem de dinheiro. O “presente” do ex-doleiro a Costa foi o fio condutor que levou à comprovação de um enorme esquema de corrupção dentro da estatal, revelando a participação de diversos diretores que atuavam a mando de políticos e mantinham relações espúrias com executivos de empreiteiras.

“É evidente que a gente percebe que são capítulos de uma história que se desenrolou ao longo do tempo. O Alberto Youssef apareceu em uma investigação da AMA/Comurb, como desdobramento, e esse achado do Youssef serviu bastante para o Caso Banestado”, comentou Cláudio Esteves, promotor que atuou no Caso AMA/Comurb e hoje é procurador do MP-PR (Ministério Público do Paraná).

Esteves é reticente ao analisar a participação de Janene e de Youssef em casos de corrupção visto que algumas ações originadas a partir de suas investigações no MP em Londrina ainda estão em curso. Mas se o histórico de atuação de Janene e de Youssef aponta uma evolução na condução dos esquemas irregulares, o procurador avalia que há imperfeições na montagem das estruturas criminosas engendradas por eles. “Não são perfeitos porque foi possível identificar.”

SEM CONEXÃO

Embora o nome de Janene frequentemente cruze com o de Youssef em casos de corrupção de grande notoriedade, o procurador faz uma ressalva. “Há uma questão aí que é a alta ligação entre Janene e Youssef no AMA/Comurb. Isso não ficou claro durante as investigações. Não há uma conexão que tenha sido comprovada entre eles naquele caso. É interessante porque o Alberto Youssef surge, é descoberto como um personagem importante no mundo da lavagem de dinheiro no esquema, mas não como uma conexão demonstrada entre ele e Janene. Os dois eram personagens de um grande enredo, mas para ser justo, a prova não evidenciou essa relação entre eles. A impressão que eu tenho é de que naquele caso ele (Janene) não estava conectado com o Alberto Youssef”, explicou o procurador. Em sua delação na Lava Jato, Youssef disse ao juiz Sergio Moro que se tornou amigo de Janene em 1997.

Imediatamente, no entanto, Esteves se recorda de mais um fato ligando o AMA/Comurb à Lava Jato: o vínculo entre Alberto Youssef e a doleira Nelma Kodama. José Janene virou réu em ação proposta no caso AMA/Comurb depois que o MP identificou a passagem do dinheiro do esquema por várias mãos, uma delas, da doleira. “Era uma quantidade expressiva de dinheiro que transitou por várias contas. Esse pode ter sido um elo entre os dois (Janene e Youssef)”, ressaltou o procurador. “A Nelma alegou que era uma espécie de investidora e que fez uma troca de dólares. Ela fez uma alegação que certamente tinha um conteúdo duvidoso. Nós provamos que o Janene era o destinatário daquele dinheiro desviado.”

Kodama ganhou os holofotes da mídia em 2015, ao depor na CPI da Petrobras, no Congresso. Ao ser questionada por parlamentares sobre sua relação com Youssef, a doleira respondeu cantando a música “Amada Amante”, de Roberto Carlos. Foi ela a primeira pessoa presa na Operação Lava Jato, em março de 2014, quando tentava embarcar para a Itália com 200 mil euros escondidos na calcinha. Deixou a prisão em junho de 2016 após firmar acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal e passou a cumprir prisão domiciliar. Sua condenação chegou a 18 anos de reclusão por lavagem de dinheiro, organização criminosa, evasão de divisas e corrupção ativa. Youssef foi condenado a mais de 121 anos de reclusão em vários processos decorrentes da Lava Jato, chegou a ser preso e, atualmente, cumpre pena em regime aberto.

ANDRÉ VARGAS

Além de Janene e de Youssef, o nome de outro londrinense teve destaque na Lava Jato. O do ex-deputado federal André Vargas, investigado e preso em abril de 2015, na 11ª fase da operação. Ele deixou o Complexo Médico Penal, em Pinhais (Região Metropolitana de Curitiba), em outubro do ano passado após cumprir mais de 30% da pena imposta pelo juiz Sergio Moro na primeira condenação. Atualmente, está em liberdade condicional, mas um dos requisitos para permanecer solto é cumprir com o pagamento parcelado da reparação de danos de R$ 1.103.950,12. A liberdade pode ser revogada caso uma das 72 parcelas de R$ 15.332,64 não seja paga. Vargas foi condenado a 14 anos e quatro meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

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