Sindicato alerta para risco de ‘colapso’ do transporte coletivo
Prefeitura vem atrasando repasses às concessionárias; mais de R$ 100 milhões já foram destinados ao sistema em 2026
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de outubro de 2026
Prefeitura vem atrasando repasses às concessionárias; mais de R$ 100 milhões já foram destinados ao sistema em 2026

O atraso nos repasses municipais para o sistema de transporte coletivo de Londrina pode levar a um “colapso” do serviço, alertou o SINTTROL (Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Londrina) em uma notificação encaminhada à CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) e à Prefeitura.
O alerta do sindicato, datado de 16 de setembro, teve como base uma comunicação enviada dois dias antes pela TCGL (Transportes Coletivos Grande Londrina) e pela Londrisul. No documento, as concessionárias informaram que havia R$ 11,4 milhões em repasses pendentes. Segundo José Faleiros, presidente do SINTTROL, o montante atualmente já supera R$ 21 milhões.
O subsídio do transporte está no centro da discussão sobre as dificuldades financeiras da Prefeitura de Londrina. Em 2025, foram destinados cerca de R$ 170 milhões às concessionárias. Neste ano, mais de R$ 100 milhões já foram repassados, mas a administração anunciou que pretende reduzir as despesas com o sistema. Em 2026, a estimativa de subsídio é de R$ 177 milhões.
A redução dos gastos com o transporte é uma das principais medidas do plano anunciado pela Prefeitura para enfrentar um déficit projetado de R$ 205 milhões neste ano. A CMTU pretende rever a quantidade de viagens e os intervalos em linhas de baixa ocupação para diminuir a quilometragem percorrida pelos ônibus.
Na última terça-feira (29), durante coletiva em que anunciou medidas de contingenciamento e corte de gastos, o prefeito Tiago Amaral (PSD) foi questionado sobre os atrasos nos pagamentos. Ele afirmou que o município já destinou um valor “muito significativo” ao transporte neste ano e considerou insustentável manter o atual patamar de gastos. “O que tem previsto no orçamento para este ano é R$ 120 milhões. Não é mais do que isso”, afirmou.
De acordo com o SINTTROL, diante dos atrasos, as empresas informaram que vêm recorrendo a empréstimos bancários para “honrar as obrigações trabalhistas e manter os ônibus em circulação”. Na notificação encaminhada ao poder público, o sindicato alertou que um eventual atraso no pagamento de salários e benefícios poderia provocar uma “provável e incontornável paralisação espontânea” dos trabalhadores.
Faleiros afirma que os trabalhadores estão apreensivos com a situação. “As empresas me disseram que vão fazer de tudo para isso não acontecer. Vão a banco, vão emprestar dinheiro, acreditando no poder público”, disse o presidente do sindicato, que entende que cabe ao município buscar uma solução para regularizar os débitos.
Segundo ele, não há neste momento uma greve organizada pelo sindicato. O risco seria de uma paralisação espontânea caso a crise financeira atinja salários ou benefícios. “Se acontecer de atrasar vale quinzenal, vale-alimentação, pagamento de salário ou 13º salário, o trabalhador não vai paralisar o transporte? Claro que vai”, afirmou.
Questionado sobre as medidas anunciadas pela Prefeitura para reduzir o custo do sistema, como a diminuição do número de viagens em linhas deficitárias, Faleiros avaliou que as mudanças são “paliativas” e não têm potencial para solucionar o problema financeiro.
“Eu diria para a população que o sindicato lamenta tudo isso, porque o poder público deveria estar cumprindo com a sua obrigação. Mas os serviços que estão sendo prestados pela categoria são os melhores possíveis”, completou.
A TCGL divulgou nota nesta quinta-feira (1º) afirmando que continuará cumprindo suas obrigações trabalhistas e que os salários referentes a setembro serão pagos normalmente. “A empresa reforça: o pagamento dos salários está assegurado aos trabalhadores do transporte”, diz o texto, que classificou como “notícias falsas” mensagens que anunciam greve por atraso de salários. “A informação é falsa. Os ônibus continuam circulando normalmente em todas as linhas.”
A Londrisul, em nota divulgada antes da coletiva do prefeito, confirmou que os atrasos nos repasses ocorrem desde agosto e afirmou que, até o momento, não houve comprometimento da folha de pagamento. A empresa, porém, ressaltou que a situação precisa ser resolvida no curto prazo.
“Os repasses do município representam 47% do custeio do serviço, respondendo por quase a metade da cobertura da despesa total. A folha de pagamento dos colaboradores equivale a 40% dos custos do sistema, com dependência direta da regularidade dos pagamentos pelo Poder Público”, escreveu a empresa na nota.
'PRIORIDADE ABSOLUTA'
Em nota à reportagem, o prefeito Tiago Amaral afirmou que, tanto para o município quanto para as empresas do transporte coletivo, “o pagamento dos salários dos funcionários é prioridade absoluta”.
“Nós já tivemos várias conversas tanto com as empresas quanto com o sindicato. Todos sabem das finanças da Prefeitura, e as empresas sabem que precisam ajustar o serviço”, escreveu Amaral.
O prefeito voltou a citar que o município já repassou cerca de R$ 100 milhões ao sistema neste ano e afirmou que, considerando também a arrecadação com as tarifas pagas pelos usuários, o transporte coletivo movimentou R$ 260 milhões.
“É um montante que deve ser suficiente para garantir o salário dos trabalhadores. Esperamos que as empresas estejam tomando suas medidas para arcar com suas responsabilidades”, completou.


Douglas Kuspiosz
Repórter com foco em Política e Cidades.


