Participação de Roldo em campanha de Richa justificou prisão, diz Moro
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terça-feira, 11 de setembro de 2018
Mariana Franco Ramos - Reportagem Local 

Curitiba - A participação de Deonilson Roldo, ex-chefe de gabinete do ex-governador do Paraná Beto Richa (PSDB), na campanha que busca eleger o tucano ao Senado foi um dos motivos da deflagração da 53ª fase da Lava Jato, batizada de "Piloto", nessa terça-feira (11). A afirmação é do procurador da República Diogo Castor de Mattos, membro da força-tarefa da Operação, que falou durante coletiva de imprensa na Superintendência da PF (Polícia Federal) em Curitiba. "Piloto" era o codinome atribuído a Richa na planilha de propinas do Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht.
Além de Roldo, foram presos Jorge Theodócio Atherino, empresário apontado como operador financeiro do ex-governador, e Tiago Correia Adriano Rocha, indicado como braço-direito de Atherino. Os dois primeiros já eram réus por corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e fraude em licitação. Todos foram levados ontem mesmo à carceragem da PF. Conforme o MPF (Ministério Público Federal), a empreiteira pagou propina para obter vantagens ilícitas durante a exploração e duplicação da PR-323, entre os municípios de Francisco Alves (Noroeste) e Maringá (Norte), no primeiro semestre de 2014.
"Evidências novas demonstraram que esses investigados continuavam atuando em atividades suspeitas, sendo um deles [Roldo] de forma oculta na coordenação da campanha ao Senado do ex-governador e outro [Atherino] continuando a movimentar valores expressivos em nome de diversas pessoas jurídicas. Então, houve a necessidade de acautelamento da ordem pública, pela evidência da continuidade dessas atividades ilícitas", afirmou o procurador.
Para o MPF, ficou evidenciado o emprego de sofisticados métodos de lavagem de dinheiro, envolvendo contas no Brasil e no exterior. "A liberdade dos réus coloca em risco a ordem pública". No despacho, o juiz federal Sérgio Moro, responsável pelo julgamento das ações da Lava Jato em primeira instância, escreveu que Roldo participava da articulação política, o que englobava definição de material de campanha, como músicas e jinges, sessões de fotos, agendamento de eventos e aconselhamento de modo geral.
Richa também foi detido ontem, entretanto, em outra operação, realizada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do MP (Ministério Público) Estadual, e relacionada ao programa Patrulha do Campo. Os dois órgãos asseguraram que o fato das duas operações terem sido desencadeadas no mesmo dia foi mera coincidência. "Realmente as investigações aconteceram de forma independente. Fomos surpreendidos hoje [ontem] com esse cumprimento", comentou o procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima.
No caso da Lava Jato, a PF apenas cumpriu mandados de busca e apreensão no apartamento do ex-governador. Moro autorizou, ainda, buscas e apreensões no Palácio Iguaçu e na Celepar (Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná). O MPF chegou a solicitar as prisões de José Richa Filho, o Pepe Richa, e Ezequias Moreira Rodrigues, ex-secretário de cerimonial do tucano, no âmbito da 53ª fase, contudo, o juiz federal negou ambos os pedidos. "O juiz entendeu que ainda não seria o momento. Achou mais prudente decretar medidas menos invasivas", ponderou Mattos.
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A DENÚNCIA
Conforme o MPF, executivos da Odebrecht procuraram Deonilson Roldo em janeiro de 2014 e solicitaram apoio para afastar concorrentes interessados na licitação da PPP (Parceria Público Privada). O braço-direito de Richa teria chamado o executivo da Contern, Pedro Rache, para uma conversa. O encontro foi gravado por Rache e o áudio transcrito na denúncia.
"Houve suposto direcionamento da licitação, por conta desse direcionamento, uma espécie de 'toma lá dá cá'", resumiu o delegado Felipe Eduardo Hideo Hayashi, chefe da Delecor (Delegacia de Repressão a Corrupção e Crimes Financeiros). De acordo com ele, a perícia apontou elementos conclusivos muito fortes de que a voz da gravação é do ex-chefe de gabinete. "São indicativos concretos de favorecimento mediante fraude", completou.
LAVA JATO NO PSDB
Questionados se essa foi a primeira vez que a Operação Lava Jato chegou ao PSDB, os procuradores garantiram não "escolher alvos". "Não temos essa preocupação. A Lava Jato é apartidária; sempre foi. Já tínhamos chegado a pessoas de diversos partidos. Infelizmente o foro privilegiado é um obstáculo às investigações. Mas o ex-governador perdeu o foro e pudemos dar continuidade no primeiro grau. É a prova de que a leniência dos acordos da Odebrecht e uma investigação bem feita podem dar resultado", justificou Carlos Fernando dos Santos Lima.
A investigação sobre a PR-323 tramitava no STJ (Superior Tribunal de Justiça) até 2016, pelo fato de Richa então ocupar o cargo de governado do Estado - deixou o Palácio Iguaçu em abril, para se candidatar ao Senado. Com a renúncia, os autos foram inicialmente remetidos para Moro. A defesa do ex-governador recorreu contra a decisão e o STJ decidiu remeter o caso para a Justiça Eleitoral. O juízo eleitoral, em seguida, devolveu a investigação à 13ª Vara Federal de Curitiba, justificando que havia evidências de crime de corrupção e lavagem de dinheiro transnacional.
OUTRO LADO
O advogado Roberto Brzezinski Neto, que representa Deonilson Roldo, disse considerar a prisão desnecessária. "O que me chama a atenção é que, logo depois da imprensa divulgar o pretenso áudio entre ele e o empresário, nós fizemos uma petição ao juízo nos colocando à disposição para prestar esclarecimentos tanto ao juiz quanto ao MP e ele jamais foi intimado". Segundo o advogado, seu cliente está muito abalado com tudo. "Essa obra não foi realizada, nenhum centavo de dinheiro público foi gasto nessa obra. Outros detalhes sobre isso vou me manifestar nos autos do processo".
O advogado Carlos Alberto Farracha de Castro, defensor de Jorge Theodócio Atherino, foi na mesma linha. "Por enquanto, ainda estamos analisando todo o processo. Porém, chama a atenção uma medida tão drástica de suposta situação ocorrida em 2014, principalmente pelo fato de que meu cliente é primário, possui residência fixa e sempre atendeu todas as intimações do Poder Judiciário. Minha preocupação é a inversão da ordem constitucional, ou seja, primeiro condena e prende, para depois julgá-lo. De qualquer sorte, acredito em todas as instituições.
A reportagem da FOLHA ainda tenta contato com a defesa de Tiago Correia Adriano Rocha.


