Foi no dia 30 de dezembro de 2025 que a Prefeitura de Londrina anunciou que havia chegado a um acordo, após dez anos de impasse, para resolver a situação do residencial Flores do Campo, ocupação que hoje abriga mais de 700 famílias, a maioria de venezuelanos que encontraram refúgio no Norte do Paraná. De lá para cá, pouca coisa mudou, e os moradores querem ser ouvidos sobre o que o poder público pensa para o local.

A “solução” anunciada pela Prefeitura no final do ano passado foi antecipada pelo ex-prefeito Marcelo Belinati (PP) em entrevista à FOLHA nos últimos dias do seu mandato, em dezembro de 2024, quando citou que o Ministério das Cidades iria garantir 1.218 moradias para as famílias de baixa renda, com a área do Flores do Campo sendo doada ao município para a realização de um novo empreendimento. O acordo foi firmado um ano depois, na gestão do prefeito Tiago Amaral (PSD), num arranjo que envolveu a Cohab-Ld (Companhia de Habitação de Londrina), a Caixa Econômica Federal e o Ministério das Cidades. À época, a previsão era que a homologação do acordo ocorresse em janeiro de 2026, mas isso está travado na Justiça.

As obras do Flores do Campo começaram em 2013, no primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), com recursos do programa Minha Casa, Minha Vida, mas foram abandonadas em 2016 pela construtora, que alegou não ter condições financeiras de continuar com os trabalhos. O residencial, localizado na zona norte de Londrina, foi ocupado por famílias sem moradia no final de setembro de 2016.

Durante uma entrevista coletiva na última quarta-feira (13), o presidente da Cohab-Ld, Luciano Godoi, foi questionado sobre a demora para o acordo sair do papel. Ele afirmou que a administração está caminhando “a passos largos” para resolver a situação e criticou os “entraves” que têm adiado a homologação do acordo.

“Houve entraves em que terceiros querem buscar um formato que não privilegia a cidade e a solução definitiva dessa situação. Estamos tomando as providências e fazendo o apelo, sensibilizando para que seja feita a homologação do acordo assinado com a Caixa Econômica, a Cohab, para que possamos ir em busca das 1.218 unidades que virão para Londrina como compensação desse grande acordo que foi feito”, disse Godoi.

Questionado sobre quem seriam esses terceiros, o presidente da Cohab-Ld citou “associações sem legitimidade” e “terceiros, pessoas físicas, que buscam soluções que não nos ajudam”. Foi nessa coletiva que Godoi ressaltou que a estrutura inacabada do residencial precisa ser demolida e que o município tem planos para o imóvel.

O prefeito Tiago Amaral se manifestou no mesmo sentido, citando uma pendência judicial para o acordo e a preocupação de evitar que “alguém que está de fora do processo possa interferir de fato nessa solução”.

SEM CONSULTA

A FOLHA conversou com a presidente da Associação dos Moradores do Flores do Campo, Simone de Oliveira, que não concorda com a forma como o caso vem sendo conduzido. Ela garante que os moradores não foram consultados até o momento.

“O Luciano [Godoi] falou que tem a intenção de demolir o local, mas não veio nenhuma proposta para nós. Em nenhum momento chamaram a gente para algum tipo de reunião. Enfim, está tendo esse boato de demolição do Flores do Campo”, afirmou. “Isso que ele disse, que envolve terceiros, é sobre a associação de moradores, que somos nós.”

Segundo Oliveira, a preocupação de quem vive no Flores do Campo é que, com a solução apresentada pela Prefeitura, nem todas as famílias da ocupação sejam atendidas com novas moradias.

“A gente quer a regularização da comunidade toda, a gente é a voz da comunidade”, reforça a presidente, que reitera ser contra a demolição. “Queremos pagar prestação, não queremos nada de graça, mas, sim, uma moradia digna.”

A reportagem também conversou com a advogada Jesiê Reinert, especialista em Reurb (Regularização Fundiária Urbana). Ela foi contratada pela entidade que representa os moradores do Flores do Campo e garante que a associação tem legitimidade.

“Ela está habilitada nos autos de um processo de interdito proibitório [para defesa da posse do imóvel] na época, que acabou se tornando uma reintegração de posse. Desde o final do ano passado, a associação se habilitou no processo e é parte legítima”, explica a advogada, rebatendo a fala do presidente da Cohab-Ld.

Reinert pontua que a associação não participou da construção do acordo celebrado pela Prefeitura de Londrina e alega que a análise da Cohab-Ld identificou que apenas 300 famílias poderiam ser beneficiadas com uma nova unidade habitacional.

“Se você considerar que temos pelo menos 700 famílias dentro do Flores do Campo, isso significa dizer que 400 famílias não vão estar amparadas por esse acordo, não vão receber uma unidade habitacional e vão ser despejadas. Esse é o principal ponto que faz com que a associação não aceite o acordo da forma como está proposto”, pontua a advogada.


“A ideia inicial dos moradores é ficar no Flores, mas infelizmente a Cohab-Ld tem outro entendimento, que é varrer as famílias da ocupação para construir novos empreendimentos habitacionais destinados a famílias que não sejam consideradas de baixa renda. Então, o espaço do Flores vai acabar se transformando, sim, em moradia, mas não em moradia para aquelas pessoas que estão lá”, diz Reinert. “A proposta de sair do espaço do Flores do Campo pode até ser considerada, não é essa a questão; a questão é que todas as famílias precisam ser atendidas.”

A advogada também garante que a associação não está tumultuando ou impedindo o acordo, mas explica que está atuando na Comissão de Soluções Fundiárias do TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), onde o processo está tramitando.

“Não é nenhuma tentativa de tumultuar, pelo contrário. Esse processo vem sendo acompanhado pelo desembargador Fernando Prazeres, que é responsável pela Comissão de Soluções Fundiárias do TJ-PR, e pela juíza do caso. A construção da solução está acontecendo de forma conjunta para atender o maior número de famílias possível”, afirma Reinert. “Estamos contribuindo para encontrar uma solução que seja justa para todos os moradores e para que o direito constitucional à moradia digna seja garantido.”

COHAB-LD RESPONDE

Questionada pela FOLHA se o acordo prevê atender todas as famílias, uma vez que a associação alega que apenas cerca de 300 seriam beneficiadas, a Cohab-Ld disse, em nota, que “os autos e estudos sociais foram devidamente realizados, em estrita observância às determinações judiciais, constando integralmente nos autos do processo”.

“Dessa forma, a Cohab não apresentará manifestação adicional sobre a matéria, considerando que todas as providências solicitadas pela Justiça já foram cumpridas e devidamente juntadas aos autos”, afirmou a companhia.

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