Justiça Criminal de Londrina condena Boca Aberta a 16 anos de prisão
Ex-vereador e ex-deputado federal foi condenado pelos crimes de desacato, injúria e calúnia contra servidores públicos e o vereador Santão (PL); defesa vai recorrer da sentença
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de setembro de 2026
Ex-vereador e ex-deputado federal foi condenado pelos crimes de desacato, injúria e calúnia contra servidores públicos e o vereador Santão (PL); defesa vai recorrer da sentença

Curitiba - A Justiça condenou o ex-vereador e ex-deputado federal Emerson Miguel Pietriv, o Boca Aberta, a 16 anos, 7 meses e 15 dias de prisão em regime aberto pela prática dos crimes de desacato, injúria e calúnia contra servidores públicos durante discussão com o vereador Santão (PL), em maio do ano passado. A mulher dele, Marly de Fátima Ribeiro, conhecida como Mara Boca Aberta, foi condenada a 6 meses de prisão. Os dois são candidatos na eleição deste ano pelo Republicanos e a defesa afirmou que vai recorrer da sentença.
A sentença da 3ª Vara Criminal de Londrina reconheceu a prática dos crimes contra Santão, uma assessora do vereador e o procurador-geral da CML (Câmara Municipal de Londrina), Miguel Angelo Aranega Garcia. Boca Aberta teria ofendido e ameaçado Garcia no estacionamento da Câmara, chamando-o de “bandido” e “vagabundo” e dizendo que “a hora” dele chegaria.
Depois disso, Boca Aberta passou a discutir com Santão na entrada da Câmara. Ele chamou o parlamentar de “vereador de bosta” e recebeu voz de prisão de Santão, que é policial rodoviário. A discussão continuou em uma agência da Caixa Econômica Federal, quando Pietriv teria dado continuidade às ofensas. Ele alegou que Mara Boca Aberta foi agredida por Santão. O caso foi parar na Central de Flagrantes da Polícia Civil.
De acordo com a sentença do juiz Juliano Nanuncio, entre os dias 16 de maio e 2 de junho de 2025, Boca Aberta fez 24 postagens no Facebook e no Instagram para atacar Santão, chamando-o de “drogado”, “vagabundo”, “covarde”, “ditador”, “policial fake” e “agressor de mulher”. Para o juiz, Boca Aberta imputou ao vereador falsamente os crimes de apropriação indébita eleitoral, dano qualificado, usurpação de função pública, peculato, corrupção passiva, lesão corporal e constrangimento ilegal.
O QUE DIZ A DEFESA
O advogado de Boca Aberta e Mara Boca Aberta, Benedito Silva Júnior, disse considerar a sentença desproporcional. "Superior, inclusive, ao patamar máximo abstratamente previsto para o crime de tráfico de drogas em sua forma simples, de até 15 anos", afirmou o defensor, que alegou que seu cliente exerceu a liberdade de expressão.
“Para a defesa, o caso reflete um cenário mais amplo, em que a liberdade de expressão - sobretudo no debate político - vem sendo cada vez mais restringida no país. Criminalizar manifestações verbais e publicações feitas no contexto de uma disputa política, com penas dessa magnitude, é um episódio lamentável para o exercício democrático e para a saúde do debate público”, afirmou o advogado em nota.
Silva Júnior lembrou que Santão foi condenado a indenizar Mara Boca Aberta em R$ 20 mil e Boca Aberta em R$ 10 mil pelas agressões na agência da Caixa Econômica Federal, em sentenças transitadas em julgado (sem possibilidade de apelação). Além disso, Claudinei Pereira dos Santos (Santão), de acordo com o advogado, responde criminalmente por abuso de autoridade e lesão corporal praticada contra Mara Boca Aberta.
“Um dos principais pontos questionados no recurso é a forma como a sentença tratou o concurso de crimes: em vez de reconhecer a continuidade delitiva entre condutas praticadas no mesmo contexto e sequência temporal, o Juízo optou por somar as penas de forma material, técnica que, segundo a defesa, multiplicou artificialmente a sanção final”, afirmou o advogado. “Vamos recorrer até o fim em favor de Emerson e de Marly, e não vamos medir esforços nem recursos para reverter essa decisão.”
HISTÓRICO
Boca Aberta teve o mandato de vereador de Londrina cassado em 2017, por quebra de decoro parlamentar – ele fez uma “vaquinha” para pagar uma multa eleitoral. Eleito deputado federal em 2021, teve o registro de sua candidatura cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que entendeu que ele estava inelegível em função da cassação anterior. Mara Boca Aberta foi vereadora de 2021 a 2024. Ela também foi julgada pela Câmara por quebra do decoro parlamentar no último ano de seu mandato, mas acabou absolvida pela maioria dos vereadores.


José Marcos Lopes
Repórter colaborador baseado em Curitiba, com foco em política estadual.


