Indecisos e abstenção podem decidir eleição mais acirrada do país
Presidente Lula (PT) tenta uma virada inédita contra Flávio Bolsonaro (PL), que largou na frente no 1º turno e busca sustentar a vantagem
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sábado, 24 de outubro de 2026
Presidente Lula (PT) tenta uma virada inédita contra Flávio Bolsonaro (PL), que largou na frente no 1º turno e busca sustentar a vantagem

O Brasil chega, neste domingo (25), ao segundo turno de uma eleição que pode se tornar a mais acirrada desde a redemocratização, em mais um confronto entre lulismo e bolsonarismo. Separados por menos de dois pontos percentuais no primeiro turno, o presidente Lula (PT), que tenta a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL) entram na reta final em uma disputa voto a voto, na qual a mobilização de quem não foi às urnas e a conquista dos poucos indecisos podem definir o vencedor.
Vitorioso no primeiro turno, Flávio teve 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% de Lula, que tenta um feito inédito: nunca o segundo colocado na primeira etapa conseguiu reverter a desvantagem no segundo turno de uma eleição presidencial desde a redemocratização. No Paraná, Flávio ficou com 59,91% dos votos válidos, quase o dobro dos 31,20% obtidos por Lula.
O resultado de 4 de outubro levou a campanha petista a promover mudanças na comunicação com o eleitor, sobretudo com uma atuação mais intensa nas redes sociais. Flávio, por sua vez, reuniu no segundo turno o apoio dos principais candidatos de direita derrotados.
FORÇA DAS REDES SOCIAIS
Para o professor de ética e filosofia política da UEL (Universidade Estadual de Londrina) Elve Cenci, a campanha petista no primeiro turno foi “bastante errática”. Segundo ele, Lula acreditava que terminaria a primeira etapa na liderança e que teria mais facilidade para enfraquecer a candidatura de Flávio, mas encontrou nas urnas um adversário mais forte do que esperava.
“O segundo turno começou com ajustes na condução da campanha e com a percepção dos erros cometidos. Foi quando entrou em cena [o deputado federal André] Janones. Utilizando as mesmas ferramentas virtuais usadas pelo bolsonarismo, ele criou uma rede centralizada de ‘soldados’ a serviço da candidatura de Lula. Com isso, se mostrou mais eficiente nas redes do que o adversário”, avalia Cenci.
Outro aspecto apontado pelo professor foi a mobilização de eleitores de esquerda e de centro nas ruas, mesmo sem uma organização direta da campanha do PT. Para ele, a presença forte nas redes sociais e a ocupação das ruas “mudaram o rumo das coisas e levaram Lula ao empate técnico”. A pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (22) mostrou ambos com 50% dos votos válidos, o que a Justiça Eleitoral utiliza para determinar o resultado das eleições.
Na reta final, Cenci considera que os apoios obtidos por Flávio Bolsonaro entre candidatos derrotados de direita têm alcance limitado, pois parte significativa desse eleitorado já havia migrado para o senador no primeiro turno. O grupo que ainda não fez essa transferência permanece entre os poucos segmentos em disputa. “Muitos ainda estão entre os indecisos, esperando o último momento para decidir em quem votar. Esses indecisos decidirão a eleição”, frisa.
A professora de ciência política Andressa Kniess, também da UEL, concorda que uma mudança marcante no segundo turno foi o engajamento de parte do eleitorado mais à esquerda. “Com a vantagem de Flávio sobre Lula, a campanha do PT foi oxigenada pela juventude, pelos militantes e por líderes de opinião que têm grande rejeição ao Flávio e à família Bolsonaro. A campanha petista, que parecia até um pouco apática no primeiro turno, ganhou um fôlego com a atuação espontânea dos cidadãos”, aponta.
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FOCO NA ABSTENÇÃO
Com um eleitorado já bastante consolidado em torno dos dois candidatos, Kniess avalia que a disputa dos últimos dias não se limita à pequena parcela de indecisos. As campanhas também precisam garantir que seus apoiadores compareçam às urnas e tentar mobilizar aqueles que se abstiveram em 4 de outubro. Mais de 33 milhões deixaram de votar no primeiro turno, pouco mais de 21% do eleitorado brasileiro.
O impacto dessa abstenção, porém, não é necessariamente igual para as duas candidaturas. Kniess lembra que o índice foi maior no Sudeste, cenário que pode ter prejudicado Flávio, e também entre os eleitores de baixa renda, segmento em que Lula tem melhor desempenho.
Além disso, a professora destaca que a rejeição elevada aos dois candidatos se tornou uma variável central para a compreensão da decisão de voto, assim como ocorreu em 2022.
“Inclusive, podemos perceber que as campanhas do segundo turno acabam privilegiando ataques ao adversário justamente para engajar o eleitor. Ou seja, nessa reta final, as campanhas estão apelando mais para a rejeição, tanto para conquistar quem decidiu por não votar quanto para conquistar quem votou em outro candidato no primeiro turno”, pontua.
Cenci também aponta que a estratégia das candidaturas foi aumentar a rejeição do oponente e classifica a campanha de 2026 como “pobre em propostas”. Na avaliação do professor, Lula explorou realizações do atual governo e sinalizou correções de rumo em alguns setores, enquanto a campanha de Flávio foi menos explícita sobre parte das mudanças que pretende promover. “A campanha se pautou pela ideia de mudança, porém sem explicitar que mudança seria essa. Como muitas dessas propostas são altamente impopulares, tais medidas não foram apresentadas para evitar a perda de votos”, afirma.
DESAFIOS DA RETA FINAL
Kniess avalia que Lula e Flávio enfrentam desafios diferentes nos últimos dias de campanha. No caso do candidato do PL, a cientista política cita a necessidade de se aproximar dos eleitores moderados e daqueles que dependem de políticas sociais e trabalhistas. “Flávio tem tentado, inclusive, mostrar para o eleitorado que ele é favorável a políticas públicas que já foram criticadas por ele e por seus correligionários, como o Bolsa Família e o fim da escala 6 x 1”, exemplifica.
No caso de Lula, a professora aponta como obstáculos a insatisfação de parte da população com as instituições políticas e, principalmente, a percepção sobre a economia. Mesmo diante de indicadores positivos, como a baixa taxa de desemprego, ela pondera que a inflação acumulada nos últimos anos corroeu o poder de compra, enquanto o endividamento das famílias dificulta a percepção de melhora econômica.
PÓS-ELEIÇÃO
Independentemente do vencedor, Cenci entende que o presidente eleito terá de fazer acenos à sociedade como um todo e buscar diálogo com os segmentos que apoiaram o candidato derrotado.
“Não se governa apenas com os partidários. A primeira etapa é descer do palanque o quanto antes. Em seguida, deve apresentar pautas importantes para a sociedade e buscar apoios além da política para sua efetividade. Por fim, é preciso dialogar”, destaca.
Para além do resultado presidencial, Kniess vê na eleição de 2026 um movimento mais duradouro de reorganização da direita brasileira. “O grande vencedor dessa eleição foi o bolsonarismo”, afirma. Segundo ela, esse avanço ocorreu menos pela redução do espaço da esquerda do que pela perda de força da direita tradicional, atingindo partidos como União Brasil, PP e MDB.
“O caso do Paraná é emblemático porque o PSD, que tinha um governador muito bem avaliado, perdeu para o bolsonarismo ainda no primeiro turno”, conclui.


Douglas Kuspiosz
Repórter com foco em Política e Cidades.





