Há 50 anos, fotógrafa registrava o velório de Vladimir Herzog

À época com 19 anos, Elvira Alegre foi a única a fotografar a despedida do jornalista assassinado pela ditadura militar

Publicado segunda-feira, 27 de outubro de 2025 | Autor: Douglas Kuspiosz às 17:40 h

Era 27 de outubro de 1975 quando a repórter fotográfica Elvira Alegre, então com 19 anos, chegou ao Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, acompanhada de colegas do jornal Ex- e levando apenas uma câmera com lente de 50 milímetros pendurada no pescoço. O clima era tenso e refletia um dos momentos mais sombrios da ditadura militar, que já dominava o país havia mais de uma década. Dois dias antes, o jornalista Vladimir Herzog havia se apresentado espontaneamente à sede do DOI-Codi, onde foi torturado e assassinado. A versão forjada pelo Exército, de que Vlado — como era conhecido — teria cometido suicídio, nunca se sustentou e foi imediatamente contestada após sua morte.

Elvira havia trabalhado no ano anterior no jornal Panorama, em Londrina, mas em abril de 1975 já estava na capital paulista, ao lado de jornalistas como Hamilton Almeida Filho, Narciso Kalili, Mylton Severiano de Silva e Paulo Patarra. Eles integravam a equipe do Ex-, que acabou produzindo um registro histórico e cronológico da morte de Herzog.

A reportagem que denunciou o assassinato relata que, ainda na madrugada do dia 26 de outubro, um domingo, um funcionário da TV Cultura ligou para a casa onde moravam alguns jornalistas do Ex- para avisar que Herzog estava morto.

“Quando saímos para o velório no Albert Einstein, o Hamilton me falou: ‘Leva sua máquina’. Eu levei só a câmera pendurada e mais nada”, lembra Elvira em entrevista à FOLHA nesta segunda-feira (27). “Quando entrei, ele disse: ‘Coloca a máquina na cara e vai fotografando’. Era um clima muito pesado, todo mundo indignado, com aquela sensação de ‘eu posso ser o próximo’. A tensão era enorme.”

Foi pela lente da jovem fotógrafa que o único registro do velório de Vladimir Herzog foi feito. Um dos cliques mostra Audálio Dantas, então presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, diante do caixão. Outro retrata Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, com expressão grave. Também aparecem nas imagens Clarice, esposa do jornalista, e dona Zora, sua mãe, ambas profundamente abaladas. O desespero diante de uma morte provocada pelo Estado se refletia nos rostos de todos.

SOB MEDO

“Fiz as fotos que consegui. Se você reparar, elas são um pouco tremidas, porque eu fotografei com medo. Eu sabia que era algo muito grave — o assassinato de um jornalista —, mas não tinha noção do perigo que estava correndo”, relata Elvira.

Naquele dia, ela tampouco imaginava a importância histórica do registro. Mais tarde, no cemitério, agentes da repressão também acompanharam o sepultamento, mas ela seguiu fotografando.

Elvira Alegre registrou dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, com expressão grave diante do caixão de Vlado
Elvira Alegre registrou dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, com expressão grave diante do caixão de Vlado | Foto: Elvira Alegre/Arquivo Pessoal

Herzog, que era judeu, foi enterrado no centro do cemitério — um gesto simbólico de reconhecimento de que havia sido assassinado. Caso tivesse se suicidado, a tradição judaica determinaria o sepultamento nas áreas periféricas do cemitério.

A edição do Ex- que detalhava a morte do jornalista foi impressa sem as fotos de Elvira, devido à pressa em levar o jornal às bancas e ao medo de que a censura impedisse a circulação. Segundo a fotógrafa, foram mais de 30 mil exemplares na primeira tiragem, seguidos por uma segunda edição. Após o fechamento, os jornalistas deixaram a redação levando o que podiam. Elvira levou consigo os negativos das fotos do velório e do enterro; ficaram para trás dez ampliações que já havia feito.

No dia 31 de outubro de 1975, mais de oito mil pessoas participaram de um ato inter-religioso na Catedral da Sé em homenagem a Vladimir Herzog. Por orientação de Hamilton, Elvira decidiu não levar a câmera naquele dia. “Eu não levei porque a gente tinha certeza de que eu seria presa”, lembra.

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FOTOS PUBLICADAS

Somente em 25 de outubro de 1985, dez anos após o assassinato, as imagens foram finalmente publicadas, agora pela Folha de S.Paulo. Na época, Elvira já havia voltado a Londrina e trabalhava nesta FOLHA, quando recebeu a notícia de que suas fotos se tornaram públicas. As ampliações guardadas por Dácio Nitrini, que também trabalhou no Ex-, foram recuperadas e publicadas uma década depois.

“Eu vejo aquilo como um ato de coragem. Apesar de saber que o momento era grave, eu não tinha noção do risco que corria. Tive sorte, tive incentivo e me enchi de coragem”, conclui Elvira, que esteve em São Paulo nesta segunda-feira acompanhando a entrega do 47° Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog. No sábado (25), ela participou do tradicional ato inter-religioso na Sé em homenagem a Vlado.

Mesmo sob vigilância de agentes da repressão da ditadura militar que foram ao cemitério, a jovem londrinense seguiu fotografando o sepultamento de Herzog
Mesmo sob vigilância de agentes da repressão da ditadura militar que foram ao cemitério, a jovem londrinense seguiu fotografando o sepultamento de Herzog | Foto: Elvira Alegre/Arquivo Pessoal
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Douglas Kuspiosz

Douglas Kuspiosz

Repórter com foco em Política e Cidades.

Repórter com foco em Política e Cidades, acompanha decisões públicas e seus impactos na população.