Em viagem aos EUA, Bolsonaro prioriza narrativa a apoiadores
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quarta-feira, 11 de março de 2020
Marina Dias - Folhapress 
"O senhor é a resposta das nossas orações", afirmou o pastor Leidmar Lopes.
De cabeça baixa e olhos fechados, Jair Bolsonaro assentia à fala do presidente da associação de pastores do sul da Flórida, que organizou um encontro de brasileiros nesta segunda (9), em Miami.
"Nós, que estamos no exílio opcional, louvamos a Deus por sua vida, oramos por sua família, oramos por sua equipe", completou o líder evangélico sob aplausos.
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Minutos depois, foi a vez de Bolsonaro subir ao púlpito. "Confesso que jamais esperava estar na situação em que me encontro. Mas, para quem acredita em Deus, sabe que milagres acontecem."
"Amém", ecoou a plateia. A concordância incondicional carregou o presidente por mais 30 minutos de discurso.
No salão fechado com seus apoiadores, Bolsonaro reproduziu o repertório ideológico de seu grupo político e escalou novos ataques contra as instituições. Relembrou os anos de ditadura e de sua carreira militar, criticou a imprensa, lançou suspeitas sobre a Justiça Eleitoral e pressionou o Congresso às vésperas das manifestações de 15 de março.
Durante viagem aos EUA, Bolsonaro focou o discurso nos apoiadores –90% dos brasileiros em Miami votaram nele no segundo turno de 2018– enquanto as agendas oficiais foram pouco capitalizadas pela figura do presidente.
Seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), era um dos integrantes da comitiva, sempre com o celular voltado para os apoiadores digitais.
Publicava vídeos das escapadas do pai, que aproveitou as brechas na agenda para ir ao shopping, almoçar em uma churrascaria com o ex-piloto de Fórmula 1 Emerson Fittipaldi e visitar o ateliê do pintor brasileiro Romero Britto.
Todos os dias, pouco antes das 7h30, Bolsonaro tomava café da manhã no hotel e, quase sempre, começava sozinho.
Perto das 8h, auxiliares começavam a chegar. Nesta terça (10), foi o ministro Bento Albuquerque (Minas e Energia) quem apareceu –de roupa de ginástica– para distrair Bolsonaro das mexidas no celular.
Foi Albuquerque quem precisou falar à imprensa que o governo não planejava medidas emergenciais para enfrentar a crise gerada pelo derretimento dos mercados.
O ministro negou ainda o aumento da Cide, contribuição sobre o preço dos combustíveis recolhido pelo governo, e afirmou que o presidente estava tranquilo, minutos antes de Bolsonaro ir às redes sociais para dizer o mesmo. Foi também online que o presidente comemorou a assinatura de um acordo militar inédito entre Brasil e EUA.
O pacto para tentar ampliar a entrada brasileira no mercado de defesa americano foi negociado entre o ministro Fernando Azevedo e Silva (Defesa) e o Departamento de Defesa dos EUA. O presidente, que foi até a base militar em Miami para a assinatura, não participou nem da declaração conjunta dos governos.
Bolsonaro também não estará em Washington nesta quinta (12), quando o Brasil vai aderir ao "América Cresce", programa que promove e financia projetos de infraestrutura na América Latina.
O chanceler Ernesto Araújo, que estava na comitiva de Miami, será o responsável por firmar o acordo com o Tesouro americano. A aparição pública mais esperada da viagem aconteceu antes do jantar com Trump, no sábado (7), no resort do presidente americano em Palm Beach.
Sem tradutor, Bolsonaro, que não fala inglês, não entendeu quando Trump afirmou que não poderia fazer promessas sobre novas tarifas aos produtos brasileiros.
O assunto preocupa empresários, que ouviram Bolsonaro duas vezes entre segunda e terça (10). Somados os dois discursos, o presidente falou 23 minutos ao setor.
Nas ocasiões, Bolsonaro minimizou a crise e disse que o coronavírus era superdimensionado pela imprensa. Aos jornalistas, por sua vez, dedicou menos de dois minutos ao longo dos quatro dias, numa entrevista coletiva antes de ir embora de Miami.
Desde que tomou posse, esta é a quarta vez que Bolsonaro viaja aos EUA e também a quarta que se encontra com Trump. Em sua passagem pela Flórida, priorizou a condução da narrativa aos apoiadores, enquanto ministros faziam a maior parte das articulações.
No evento com brasileiros na segunda, entre eles pastores e o ex-lutador de UFC Vitor Belfort, Bolsonaro disse que houve fraude eleitoral em 2018 e que poderia provar que foi eleito no primeiro turno.
A única contestação que o presidente recebeu foi quando disse que Fernando Haddad (PT) foi ministro da Educação por oito anos. "Não foi, não", sussurrou um dos convidados. Foram quase sete anos do petista no cargo.
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