Campanha de Lula aponta caminhos para futuras disputas eleitorais
Mobilização nas ruas e nas redes sociais, conexão emocional com o eleitor e apresentação de propostas estão entre os aprendizados do 2º turno
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de outubro de 2026
Mobilização nas ruas e nas redes sociais, conexão emocional com o eleitor e apresentação de propostas estão entre os aprendizados do 2º turno

A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial, no último domingo (25), de virada em comparação com a primeira etapa, deve deixar lições para as próximas campanhas eleitorais, especialmente em relação ao uso das redes sociais, à comunicação direcionada a diferentes segmentos do eleitorado e à capacidade de pautar o debate político. A avaliação é de especialistas que apontam mudanças no comportamento dos candidatos e na maneira de disputar a atenção dos eleitores.
A campanha presidencial reforçou a importância de combinar mobilização nas ruas e no ambiente digital, além de apresentar propostas e explorar as fragilidades dos adversários. Para o cientista político Eduardo Grin, da FGV EAESP (Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas), a vitória de Lula demonstrou que essas estratégias podem funcionar de maneira complementar, mesmo quando o candidato não conta com o apoio dos principais partidos políticos.
"O que a virada surpreendente do Lula mostra, em primeiro lugar, é como é possível combinar duas coisas. Mobilização nas ruas e nas redes sociais, anunciar o que o candidato vai fazer e desconstruir a imagem do opositor", afirma.
Na avaliação de Grin, outro aprendizado foi a necessidade de desenvolver mensagens específicas para diferentes grupos sociais. Ele cita a mobilização de idosos em torno do receio de perder benefícios sociais e direitos previdenciários, enquanto a juventude foi alcançada por pautas relacionadas à educação, às redes sociais e aos direitos humanos. Os idosos representam o maior crescimento de votos para Lula no segundo turno, de acordo com o site Radar do Voto.
O especialista também considera que temas ligados à democracia e ao respeito aos direitos de grupos minoritários podem ganhar ainda mais espaço em eleições polarizadas. Segundo ele, situações aparentemente pontuais podem mobilizar parcelas expressivas do eleitorado. "Pequenas questões, que a gente acha que são pequenas, mobilizam milhões de pessoas", observa.
A estratégia de mobilização também é apontada como um dos fatores que devem influenciar as próximas disputas. Jornalista e estrategista político com experiência em campanhas desde os anos 1990, Cláudio Osti destaca o uso de grupos de WhatsApp como uma ferramenta importante para ampliar o engajamento dos eleitores no segundo turno. Esta foi a alternativa para disseminar informações, depois das restrições às listas de transmissão utilizadas em eleições anteriores. "Foi criado um grupo gigantesco, específico para mobilização, o Exército do Lula, e funcionou muito bem", avalia.
Para Osti, a diferença dos grupos virtuais está na possibilidade de interação entre os participantes. Enquanto publicações no Instagram e em outras plataformas podem ser consumidas de maneira individual e superficial, os grupos permitem discussões constantes, compartilhamento de informações e cobrança por participação.
"Há muito mais engajamento. A pessoa quer participar, ela quer discutir", afirma. Na avaliação do jornalista, o WhatsApp tende a ganhar ainda mais importância nas próximas campanhas, justamente pela capacidade de mobilizar pessoas e estimular conversas sobre os candidatos.
Osti também chama a atenção para a mudança de comportamento de parte do eleitorado que não se identifica necessariamente com os dois campos políticos. Segundo ele, o receio de uma eventual instabilidade e os riscos associados à candidatura adversária contribuíram para a migração de votos em favor de Lula.
Essa percepção, segundo o estrategista, deve levar os partidos a considerar não apenas a identificação ideológica dos eleitores, mas também a confiança que os candidatos conseguem transmitir. Osti avalia que o eleitor tende a valorizar políticos com trajetórias conhecidas e capacidade de diálogo, em contraponto a candidaturas que representam posições mais extremadas.

Diferentes canais
Embora as redes sociais tenham ganhado protagonismo, os especialistas divergem sobre o espaço que os meios tradicionais devem ocupar nas próximas campanhas. O cientista político Eduardo Grin considera que o horário eleitoral gratuito perdeu parte de sua influência, diante da facilidade de acesso a conteúdos políticos pela internet.
"Hoje todo mundo consegue acessar, no tempo que quer, informações que importam, informações rápidas, memes, vídeos curtos, falas curtas diretamente no seu celular", observa.
Para Grin, entretanto, a propaganda eleitoral na televisão e no rádio ainda alcança segmentos da população que têm menor familiaridade com a internet, especialmente parcelas das classes D e E. Por isso, não acredita que esses espaços devam desaparecer, embora tenham perdido o peso que tiveram em eleições anteriores.
O estrategista político Filipi Oliveira, por sua vez, defende a manutenção do horário eleitoral e das inserções ao longo da programação das emissoras. Ele ressalta que esses canais continuam importantes para apresentar candidatos a eleitores que ainda não os conhecem. "São canais estruturantes, são pilares fundamentais da comunicação política", afirma.
Oliveira cita como exemplo a campanha de Filipe Barros ao Senado – da qual foi coordenador de comunicação -, na qual a televisão e o rádio foram utilizados para ampliar o reconhecimento do candidato diante de adversários com maior exposição pública, como Alexandre Curi (PSD) e Gleisi Hoffmann (PT), que têm décadas de exposição pública por atuação na política. Para ele, o desafio das próximas eleições será integrar os diferentes meios de comunicação, com conteúdos específicos para cada público.
Ele também considera que as campanhas precisam olhar com mais atenção para os recortes do eleitorado. A votação dos idosos, da juventude e de categorias profissionais, entre outros segmentos, deve servir de referência para a elaboração de estratégias futuras. "As campanhas precisam adotar estratégias e conteúdos direcionados a todos os públicos. E, neste quesito, não é só idade, mas todos os públicos mesmo", afirma.
Porém, Oliveira pondera que os resultados da eleição presidencial não podem ser reproduzidos automaticamente nas disputas estaduais e municipais. O desempenho de Lula em determinada cidade, por exemplo, não significa necessariamente que o PT terá condições de eleger um prefeito naquele município em 2028. "O contexto importa. Então, não necessariamente os municípios que elegeram ou que têm prefeitos de direita não vão votar no Lula", ressalta.

Recuperação dos debates
Outro ponto levantado pelos três especialistas é a necessidade de repensar os debates eleitorais. Embora reconheçam a importância desses encontros para a democracia, eles avaliam que os confrontos entre candidatos têm sido cada vez mais utilizados para produzir ataques e trechos curtos destinados às redes sociais, em detrimento da apresentação de propostas.
Grin defende que os debates sejam incentivados e os candidatos, estimulados a participar, uma vez que a ausência deles prejudica a possibilidade de o eleitor conhecer melhor quem pretende ocupar os cargos públicos. "O ruim não são os debates, mas a ausência de candidatos para debater", afirma.
O cientista político também observa que os participantes precisam deixar de tratar os encontros apenas como oportunidades para produzir vídeos direcionados à própria militância. "O problema dos debates hoje é que todos vão para fazer corte para a rede social, falar para a sua própria militância", critica.
Na avaliação de Filipi Oliveira, os debates continuam sendo fundamentais para confrontar ideias e exigir que os candidatos expliquem como pretendem colocar em prática suas promessas. "Não deixar genérico como ‘vou melhorar a saúde, vou melhorar a educação’, mas explicar como fazer isso", afirma. O estrategista considera que os formatos precisam ser aprimorados para garantir espaço tanto à apresentação de propostas quanto ao confronto entre adversários.
Cláudio Osti compartilha a preocupação com o empobrecimento dos encontros. Segundo ele, os debates televisivos deixaram de priorizar a discussão de projetos e passaram a funcionar como instrumentos de desconstrução dos adversários. "Hoje cada vez mais o debate serve para apontar qual o defeito do outro, do que propôs alguma coisa em relação ao seu projeto de governo", avalia.
O jornalista considera que essa mudança prejudica principalmente o eleitor que ainda não decidiu o voto e procura informações para comparar as propostas. Para ele, os candidatos precisam explicar de maneira objetiva como pretendem executar suas promessas, inclusive de onde virão os recursos para financiá-las.
Polarização exige atenção
As entrevistas também apontam que as próximas campanhas deverão considerar a capacidade de acontecimentos aparentemente pequenos de mobilizar grupos expressivos de eleitores.
Grin cita episódios envolvendo manifestações consideradas desrespeitosas a pessoas com deficiência e a discussão sobre violência como exemplos de assuntos que podem ganhar dimensão eleitoral. Na avaliação dele, a campanha de Lula soube explorar essas situações no último debate do segundo turno, tanto exigindo respeito ao ser chamado pejorativamente de “nove dedos” quanto ao questionar por que o adversário defendeu o policial que assassinou a menina Ana Clara, para mobilizar segmentos da sociedade.
Para ele, o petista conseguiu estabelecer os assuntos que pautaram boa parte do segundo turno, obrigando o adversário a se posicionar sobre temas como Bolsa Família, Farmácia Popular, aposentadorias e salário mínimo. "Se o Flávio Bolsonaro está dizendo tudo o que o Lula vai fazer, por que eu vou trocar?", questiona Grin.


Luis Fernando Wiltemburg
Jornalista



