Curitiba - A última pesquisa Quaest que mostrou um provável segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na eleição presidencial de 2026 não atingiu apenas o mercado financeiro: parte do chamado centrão, que vinha ensaiando apoio a uma candidatura alternativa no próximo ano, também foi abalada. E a tendência é que esses partidos, como PSD, União Brasil e Podemos, venham a ser o fiel da balança em uma eleição que deverá novamente a dividir o país.

No levantamento divulgado pelo instituto Quaest na quarta-feira (16), Flávio Bolsonaro aparece consolidado no segundo lugar, atrás de Lula, em cinco cenários, com índices que variam de 21% a 27% das intenções de voto. Ele pontua mais nos cenários em que o nome do governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), não é apresentado: chega a 26% e a 27%.

No cenário com Ciro Gomes (PSDB) e outros três candidatos do centrão e da direita, as intenções de voto do senador caem para 21%. Sinal de que as presenças de Ratinho Junior e dos governadores Romeu Zema (Novo, Minas Gerais) e Ronaldo Caiado (União Brasil, Goiás), além de Ciro Gomes, tendem a dividir o voto do eleitorado de direita.

Os números desanimaram os entusiastas da candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). No cenário em que seu nome é citado, Tarcísio aparece com 10%, atrás de Lula (41%) e Flávio de Bolsonaro (23%).

No mesmo dia em que a pesquisa foi divulgada, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, caiu 2,4% e o dólar fechou em alta de 0,73%. Preferido pelo centrão e pelo mercado financeiro, Tarcísio indicou na quinta-feira (18) que deverá apoiar Flávio caso ele mantenha sua candidatura.

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'Sobrenome faz diferença'

Para analistas ouvidos pela FOLHA, o cenário e os números da Quaest mostram que a candidatura de Flávio Bolsonaro deverá se consolidar. “Muita gente disse que era um balão de ensaio para colocar o Flavio em uma vice-candidatura, para trocar pela dosimetria. Não é bem por aí, é muito provável que o Flávio seja o candidato do clã Bolsonaro à Presidência”, diz o cientista político Gabriel Marcondes de Moura.

“É improvável que, diante do Flávio e de uma reeleição bem encaminhada em São Paulo, o Tarcísio venha a ser candidato a presidente. Ele é praticamente um governador reeleito. Não se troca o certo pelo duvidoso”, acrescenta.

A vantagem do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, diz o analista, é o sobrenome, que faz com que ele largue com uma boa margem de votos. “Ele apresenta um melhor desempenho justamente por causa do sobrenome. Outros nomes da direita não têm a confiança do núcleo duro do eleitorado bolsonarista, que vê com desconfiança qualquer outra candidatura. Quando o Jair Bolsonaro, mesmo preso, indica o nome do Flávio, a massa bolsonarista já tem claro que será o Flávio. Os bolsonaristas estão em campanha desde 2018, não pararam. Ele tem um piso muito bom para buscar outros eleitores.”

Centrão, o diferencial

Essa busca por novos eleitores passa justamente pelo centrão – o que pode inclui o PSD de Ratinho Junior. “O fato de estar no PSD torna muito improvável que o Ratinho Junior leve até o fim sua candidatura à Presidência. Gilberto Kassab (presidente nacional do PSD) é uma pessoa de composição. Seja Lula, seja Flávio, o Kassab vai negociar para o PSD ter um bom espaço, independentemente de quem seja o governo”, avalia o mestre em Ciência Política pela UFPR.

Para o cientista política e professor da PUCPR em Londrina Mário Sérgio Lepre, a fragmentação partidária nos Estados e a dificuldade de articulação entre os demais nomes tende a reforçar a candidatura do Flávio Bolsonaro como representante da direita em 2026.

“Não é só a candidatura para presidente. Os partidos também precisam ter palanques nos estados. Essa é a manobra mais difícil. Ratinho Junior é um nome viável, mas como ficam os arranjos estaduais? Os partidos precisam de chapas fortes para as eleições de deputado e senador, precisam de uma chapa robusta. Por isso, é difícil lançar a candidatura do Ratinho Junior ou do Romeu Zema”.

Flávio e rejeição

Flávio Bolsonaro também enfrentará essa dificuldade, diz Lepre. “União e PP deverão ir nessa linha (de apoiar Flávio). Já com Republicanos, PSD, MDB e PSDB vai ser um pouco mais trabalhoso. Mas vai depender de como a candidatura vai se consolidando”, afirma o professor da PUC-PR.

“Depende de uma série de fatores: como o candidato está se comportando, se ele tem empatia, se uma grande parte da população gosta daquele tipo de abordagem, como ele trata o mercado. Aí é que os outros partidos talvez venham.”

A pesquisa Quaest mostrou uma rejeição de 60% ao nome de Flávio, mas, para o cientista político, parte do eleitorado deverá separar sua imagens da de Jair Bolsonaro. “O Flávio tem uma vida própria, tem um trato diferente do Jair. O nome Bolsonaro agrega rejeição, mas se o Jair fosse candidato. Com o Flávio, agrega a rejeição até a campanha mostrar que é um candidato diferente. Aí poderá ser retirado esse excesso de rejeição.”

No segundo turno, a pesquisa Quaest mostrou Lula na frente de todos os oponentes. A menor diferença é no cenário com Flávio Bolsonaro: 46% a 36%. Lula teria 45% contra Tarcísio de Freitas e Ratinho Junior, ambos com 35%; 44% contra Ronaldo Caiado, que ficaria com 33%; e 45% contra Romeu Zema, que foi citado por 33% dos eleitores.

A pesquisa Quaest, contratada pela Genial Investimentos, ouviu 2.004 pessoas entre os dias 11 e 14 de dezembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com um nível de confiança de 95%.

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