Lideranças políticas de Londrina e do Paraná que apoiaram o senador Flávio Bolsonaro (PL) na corrida presidencial não comentaram, após serem procuradas pela FOLHA, a carta em tom golpista publicada pelo candidato derrotado na quarta-feira (28). O documento foi divulgado horas depois de Flávio chegar aos Estados Unidos, após fugir do Brasil pela Argentina.

Na primeira versão, que trazia um antigo brasão nacional, com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, Flávio se declarou “verdadeiro presidente eleito”. Ao menos outras três versões circularam, com alterações no brasão e no texto. Na versão final, a declaração de “presidente eleito” foi substituída pela de “líder do Brasil”.

A carta desconsidera o resultado oficial da eleição, que terminou com a reeleição do presidente Lula (PT), com vantagem de mais de 4,4 milhões de votos, e provocou reação até entre aliados de Flávio. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou nesta quinta-feira (29) que “ninguém aprovou a carta”.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), disse compreender a “indignação” de Flávio, mas afirmou que “a eleição acabou” e defendeu o respeito ao resultado das urnas. Já o senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha presidencial, afirmou que nem ele nem o partido podem sustentar que houve fraude na eleição porque não há provas.

No Paraná, porém, aliados procurados pela FOLHA evitaram se posicionar sobre o conteúdo do documento. A reportagem procurou o governador eleito Sergio Moro (PL), mas ele informou que não irá se manifestar. Antes da publicação da carta, Moro havia classificado como “compreensível” a decisão de Flávio de deixar o país.

O governador Ratinho Junior (PSD) também não comentou. Não há menções a Flávio nos últimos dias em seus perfis nas redes sociais e, procurado pela FOLHA por meio da assessoria, ele não se manifestou sobre a carta.

O senador eleito Filipe Barros (PL), um dos principais apoiadores de Flávio no Paraná e atuante nas redes sociais, não se manifesta em seus perfis desde o último domingo (25). Ele não respondeu às mensagens encaminhadas pela reportagem nesta quinta-feira.

Em Londrina, o deputado federal eleito Marcelo Belinati (PP), que publicou um vídeo no segundo turno declarando apoio a Flávio, afirmou que estava de plantão - ele é médico - e que responderia assim que possível. Até o fechamento, contudo, não retornou. Belinati será o único representante de Londrina na Câmara dos Deputados.

A FOLHA também solicitou, via assessoria de imprensa, um posicionamento do prefeito Tiago Amaral (PSD). Em 2024, ele recebeu o apoio de Jair Bolsonaro (PL) na disputa pela Prefeitura de Londrina e, neste ano, apoiou abertamente a candidatura de Flávio. Ele não comentou a publicação da carta até o fechamento deste texto.

‘TEORIA DA CONSPIRAÇÃO’

Para o professor de ética e filosofia política da UEL (Universidade Estadual de Londrina) Elve Cenci, a carta publicada pelo candidato derrotado do PL “não faz sentido algum”.

“O presidente do TSE [Kassio Nunes Marques], nomeado pelo pai de Flávio, declarou a lisura da eleição e a vitória do adversário. Até o próprio PL, seu partido, reconheceu o resultado. Portanto, não faz sentido algum afirmar que o presidente do Brasil seria ele. Essa afirmação só faz sentido se for pensada como uma forma de incentivar o presidente Trump a interferir no resultado da eleição brasileira ou como uma postura psicológica de negação da realidade”, afirma Cenci, que ressalta que a “teoria da conspiração” presente na carta “não encontrou apoio nem entre os aliados mais fiéis”.

“A tendência, até por estar nos Estados Unidos e nutrir uma sensação de impunidade, é a radicalização do discurso. A postura de Flávio Bolsonaro afeta a sua credibilidade e abre espaço a outros políticos de direita com mais credibilidade. Tarcísio de Freitas agradece”, acrescenta o professor.

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