O país que ainda podemos construir
Assistimos novamente ao desfile de promessas que, muitas vezes, sabemos de antemão que não serão cumpridas
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sábado, 19 de setembro de 2026
Assistimos novamente ao desfile de promessas que, muitas vezes, sabemos de antemão que não serão cumpridas
Ary Sudan 
A chegada das campanhas eleitorais deveria representar um momento de esperança e de ampla participação popular. Seria a oportunidade de avaliar aqueles que exerceram o poder, substituir os que não cumpriram suas promessas e renovar a confiança em pessoas verdadeiramente comprometidas com o bem comum.
Entretanto, depois de tantas decepções, o que deveria despertar esperança passou a provocar desânimo e até certa repulsa. Assistimos novamente ao desfile de promessas que, muitas vezes, sabemos de antemão que não serão cumpridas. Mudam os discursos, renovam-se os slogans, multiplicam-se as propagandas, mas os velhos comportamentos permanecem.
Nas entrevistas e nos programas eleitorais, alguns candidatos apresentam longas listas de supostas realizações. Apropriam-se de conquistas para as quais pouco ou nada contribuíram. Colocam-se como responsáveis por avanços alcançados graças à luta da população, de entidades representativas, de lideranças comunitárias e de pessoas abnegadas que dedicaram tempo e energia à melhoria da qualidade de vida de todos.
Sempre sonhei — e continuo sonhando — com um governo que pratique a verdade e trabalhe efetivamente para a população. Um governo que cuide da cidade, do estado ou do país com responsabilidade, planejamento e visão de futuro. Governantes que sejam exemplos positivos, daqueles que fazemos questão de mencionar às novas gerações como referências de honestidade, competência e espírito público.
Costuma-se dizer que os políticos são a representação exata do povo que os elegeu. Concordo apenas em parte. Os governantes não deveriam limitar-se a reproduzir as deficiências da sociedade. Deveriam contribuir para superá-las. A cada legislatura, poderíamos ter uma população mais consciente, mais informada, mais desenvolvida e mais exigente na hora de escolher seus representantes.
Na prática, porém, muitas vezes parece ocorrer o contrário. Em vez de investir na consciência política do cidadão, alguns se beneficiam de sua desinformação. Manter parcelas da população dependentes, desorientadas ou afastadas do conhecimento facilita a perpetuação de grupos no poder e a conservação de antigos feudos eleitorais.
Fico imaginando onde o Brasil estaria se, há cinquenta anos, tivéssemos iniciado uma sequência de governos verdadeiramente comprometidos com o desenvolvimento do país e de seu povo. Certamente estaríamos entre as nações desenvolvidas, com elevado padrão de vida, melhor distribuição de renda e uma sociedade mais justa e menos desigual.
Talvez nem fosse necessário tanto tempo. Vinte anos — o equivalente a cinco governos consecutivos honestos, competentes e comprometidos com um projeto nacional — poderiam produzir uma transformação extraordinária. A população evolui rapidamente quando recebe educação de qualidade, encontra oportunidades e convive com bons exemplos.
Para isso, também precisamos de uma Justiça que pratique efetivamente a justiça: sem preferências, sem interesses partidários e sem inclinações ideológicas, reconhecendo o direito de quem o possui e aplicando a lei com equilíbrio e igualdade.
A educação seria, naturalmente, um dos pilares dessa transformação. A escola existe para ensinar, estimular o pensamento, transmitir conhecimento e preparar o jovem para a vida. Não deve ser usada para doutrinar nem para servir a interesses políticos ou eleitorais.
Um Estado verdadeiramente comprometido com o desenvolvimento não pode ser dominado por ideologias, feudos eleitorais, corrupção ou projetos pessoais de poder. Precisa valorizar a competência, a honestidade, o planejamento e, acima de tudo, o exemplo.
Chega de atraso, de abusos, de oportunismo e de desrespeito ao cidadão. Precisamos recuperar a capacidade de acreditar na política como instrumento de transformação — mas também aprender a cobrar, fiscalizar e escolher melhor.
Não se trata de destruir tudo o que existe nem de apagar as conquistas já alcançadas. Trata-se de reconstruir princípios, renovar comportamentos e estabelecer uma nova relação entre o poder público e a sociedade.
É preciso começar de novo naquilo que perdemos: a verdade, a responsabilidade, o respeito e o compromisso com o bem comum. Somente assim poderemos construir o país com que tantos brasileiros sempre sonharam — e que ainda está ao nosso alcance.
Ary Sudan, economista e empresário
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