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Londrina

Opinião

m de leitura Atualizado em 13/06/2022, 16:42

ESPAÇO ABERTO - A fome que nos envergonha

Desigualdade social, cinismo e falta de governança com políticas adequadas. É um escândalo!

PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de junho de 2022

MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS
AUTOR autor do artigo

Foto: iStock
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Escandalizados! Este é o termo aplicado à estupefação, com a notícia de que 125 milhões de brasileiros convivem com a insegurança alimentar e trinta e três milhões passam fome. Retornamos a 1993 e ressuscitamos o espectro da fome que perseguiu o Brasil até a década de 90. Porém, o escândalo no seu maior expoente, fica com o confronto dos números do agro, que ano após ano se superam na produção e na exportação. 271 milhões de toneladas de grãos! Por outras palavras: o Brasil passa fome na casa da comida! Onde a matemática falha?

Quando as contas não fecham no quadro dos números, devemos buscar ajuda nas ciências sociais, que muitos gostariam de ver erradicas das universidades! Não sem motivo! Elas nos obrigam a pensar, a refletir e a mudar! A fome no nosso país, tem endereço, caixa postal e CPF. Assim nos garantem essas ciências. A miséria que se instalou em milhões de famílias, ao ponto de não poderem ingerir o mínimo de calorias-dia, está anos luzes distante do fenômeno africano congênere. Lá, a conjuntura política é sofrível como aqui, contudo, as suas terras não produzem alimentos, seja por eventos climáticos extremos ou esterilidade do solo. O Brasil, dispensa comentários quanto à sua capacidade de gerar riqueza agrícola.

O “grande agro” não foi feito para saciar a fome de ninguém no país! Esta é a verdade que devemos assimilar e que é corroborada por números nacionais ou internacionais. É um negócio. Um negócio que produz alimentos, que são comercializados segundo a bolsa de Chicago ou outras, e que faz com que eles sejam “mercadorias” geralmente chamadas de commodities, palavra usada para descrever produtos de baixo valor agregado e, cujo valor, é ditado pela lei da oferta e da procura. Simples assim. Os nossos produtos primários são comercializados para gerar equilíbrio na balança comercial. Aliás, a balança comercial do agro, superou os cem bilhões de dólares em 2021. Correspondeu a 30% do PIB brasileiro, nesse período. É chamado de “locomotiva da economia brasileira”! Malgrado o paradoxo anunciado, não se trata de criminalizar o agro.

O Brasil tem nítidos três níveis de produtores rurais. Os pequenos, os médios e os grandes. A estes últimos cabe a sofisticação tecnológica, para competir de igual para igual com os gigantes mundiais do setor e viabiliza a produção e o consumo de nossos produtos mundo afora. Temos também cerca de 22% das propriedades rurais nas mãos de médios agricultores e os pequenos são responsáveis pela produção de milho, raiz de mandioca, pecuária leiteira, gado de corte, ovinos, caprinos, oleícolas, feijão, cana, arroz, suínos, aves, café, trigo, mamona, fruticulturas e hortaliças. Isso representa mais ou menos 5% do PIB nacional. É isso que colocamos na mesa e nas marmitas! O nosso problema, é que organizamos a economia em torno de um setor agrícola competitivo, voltado para a exportação e baseado, sobretudo, em monoculturas.

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Vamos aos números. Na América Latina, cerca de 17 milhões de pequenas propriedades ocupam 60,5 milhões de hectares ou 34,5% do total de terras cultivadas, produzindo 51% do milho, 61% da batata e 77% do feijão destinados ao consumo doméstico. No Brasil, 85% dos agricultores são pequenos produtores e são responsáveis pela produção de 84% da mandioca e 67% do feijão consumidos no país. Os pequenos agricultores empregam 17 vezes mais do que o grande agro.

No entanto, e neste ponto começa a chamada política pública equivocada, os maiores investimentos e transferências de recursos federais vão para o agrobusiness! A fome, tal qual riacho que vai tomando corpo montanha baixo, não nasce da falta de alimentos no país! Ela grassa e devora vidas, contemplando as grandes máquinas semeando e colhendo, os colossais navios nos portos se indo e o desperdício perverso no lixo das classes abastadas, gerando uma pegada ecológica maior que a do primeiro mundo.

Ao falar de fome, portanto, falamos de moral e de ética. Desigualdade social, cinismo e falta de governança com políticas adequadas. É um escândalo!

Manuel Joaquim R. dos Santos é padre na Arquidiocese Londrina

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