A Itália limitou a duas gerações o reconhecimento da cidadania a descendentes de nascidos naquele país.

O decreto foi assinado na sexta-feira passada (28/03) pelo Conselho de Ministros e deverá ser enviado ao Parlamento em até 60 dias para aprovação ou não.

Até a manifestação do Congresso, estará valendo.

A decisão estarreceu os descendentes de italianos, que no Brasil são cerca de 30 milhões, o equivalente à metade da população da Itália.

Não acredito que o Parlamento italiano altere a essência da decisão – o limite geracional -, pois é dominado pelos conservadores liderados pela primeira-ministra Giorgia Meloni. Mas torço para que me surpreenda, flexibilizando-a com condições, entre elas a exigência do conhecimento básico do idioma, cultura e história italianas, que viriam a ser comprovados por meio de testes.

O grande número de pedidos de cidadania, que vinha abarrotando consulados, cartórios e a Justiça, foi apontado como causa principal da decisão. Vinte mil cidadanias foram concedidas a brasileiros somente no ano passado, aos quais se somaram argentinos e venezuelanos, totalizando 60 mil.

Também contribuíram para isso a indústria milionária que se criou para a intermediação da cidadania e o desvirtuamento desse direito pela maioria dos que o obtiveram. Pois essa maioria, sem conexão com a Itália exceto pelo vínculo sanguíneo, visou ao reconhecimento da cidadania exclusivamente para trabalhar na União Europeia e obter facilidade para entrada e permanência nos Estados Unidos. Por último, as fraudes: foram em quantidade ínfima comparadas ao volume de pedidos, mas rumorosas, sedimentando o clamor popular contra a concessão ilimitada da cidadania.

Para os intermediários e sua clientela majoritária, a cidadania converteu-se em mercadoria valiosa.

É legítimo buscar melhores condições de vida, mas recorrer à cidadania italiana exclusivamente para isso profana o espírito da lei 91/1992, agora suspensa pelo Conselho de Ministros. O reconhecimento da cidadania sem limite geracional foi concedido para permitir aos descendentes de italianos irmanarem-se juridicamente a seus antepassados e usufruírem dos direitos e cumprirem os deveres cívicos que a Itália oferece e exige de seus cidadãos natos. E para recompensar simbolicamente os antepassados, que emigrarem para não morrer de fome, por preservarem e disseminarem a cultura e as tradições italianas mundo afora. O mundo que o genovês Américo Vespúcio expandiu com a descoberta da América!

A cidadania italiana não se resume a um passaporte de capa vermelha com inscrições douradas que escancara fronteiras a seus portadores. É, acima de tudo, um estado de espírito, uma irmandade supranacional resultante de mais de dois milênios de lutas, tragédias, conquistas e realizações. E que age em consonância com os princípios de fraternidade, criatividade e operosidade. Princípios que fazem os italianos uma das nações mais carismáticas do mundo.

A Itália é o resultado de suor, lágrimas, sangue e genialidade de gerações e gerações e gerações. Esse legado é um valioso patrimônio imaterial e sentimental e como tal deve ser respeitado e preservado. Então, como declama Francesco de Gregori: Viva l'Italia, l'Italia liberata/ l'Italia del valzer, l'Italia del caffè/ viva l'Italia, l'Italia tutta intera/ Viva l’Italia, l’Italia che non moure! (Viva a Itália, Itália libertada/A Itália da valsa, a Itália do café/ Viva a Itália, a Itália como um todo/Viva a Itália, a Itália que não morre!)

José Antonio Pedriali, jornalista e escritor ítalo-brasileiro

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