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m de leitura Atualizado em 07/07/2022, 15:04

Boris Johnson renuncia no Reino Unido após escalada de crises

Em meio a uma avalanche de crises, premiê tenta permanecer no cargo até que um novo líder do Partido Conservador seja escolhido

PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de julho de 2022

Daigo Oliva – Folhapress
AUTOR autor do artigo

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São Paulo - Boris Johnson, o primeiro-ministro do Reino Unido que ascendeu ao poder por meio de uma imagem de bufão, com os cabelos organizadamente desorganizados e gravatas tortas, renunciou nesta quinta (7). 

Críticos haviam especulado que a derrocada aconteceria antes, mas a saída de Boris se deve menos a um caso específico, mas ao acúmulo das controvérsias Críticos haviam especulado que a derrocada aconteceria antes, mas a saída de Boris se deve menos a um caso específico, mas ao acúmulo das controvérsias
Críticos haviam especulado que a derrocada aconteceria antes, mas a saída de Boris se deve menos a um caso específico, mas ao acúmulo das controvérsias |  Foto: Niklas Halle’n/AFP
 

 Em meio a uma avalanche de crises e abandonado por aliados, ele ainda tenta permanecer no cargo até que um novo líder do Partido Conservador seja escolhido – o que deve acontecer nos próximos meses –, mas a possibilidade é rechaçada pela oposição trabalhistas e por alguns membros de sua legenda. 

 Críticos haviam especulado que a derrocada aconteceria antes, mas, resistente, Boris sobreviveu a uma série de crises, e a saída agora se deve menos a um caso específico, mas ao acúmulo das controvérsias. 

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 Do negacionismo diante do surgimento da Covid à descoberta de que sabia e nada fez para tirar um hoje acusado de assédio sexual da tarefa de garantir a disciplina parlamentar de seu partido, o ex-premiê deixa o cargo impopular e constrangido por aliados, como a debandada em série de seu governo mostra. 

 Nos últimos dias, dois secretários de peso, Rishi Sunak e Sajid Javid, das Finanças e de Saúde, puxaram a fila de renúncias, seguida por mais de 50 membros de sua gestão.  

A pressão cresceu na quarta (6), quando um grupo de pessoas próximas a ele, entre as quais outros ministros, foi até Downing Street para pedir que Boris enfim cedesse, encerrando um período de quase três anos à frente do Reino Unido. 

 Eleito para entregar o brexit, a separação dos britânicos da União Europeia, o conservador cumpriu a promessa. Também foi o primeiro líder no mundo a entregar vacinas contra o coronavírus à população, numa virada que chegou a apagar os trancos iniciais, quando demorou a decretar lockdown e outras restrições, levando o país a ser um dos mais atingidos pela pandemia no continente. 

 Mas, de todos os rótulos, o que mais grudou foi o de mentiroso. O "partygate", episódio no qual vazamentos em série revelaram festas na sede do governo num momento da Covid em que os ingleses estavam proibidos de se reunir em ambientes fechados, deixou explícita a maior crítica feita pela oposição e até por membros de seu partido, a de que negava fatos que sempre se revelavam verdadeiros. 

 Foram dezenas de comemorações, de festa de Natal a festa de aniversário – do próprio premiê. Funcionários do gabinete chegaram a realizar um convescote na véspera do funeral do príncipe Philip (1921-2021), o que depois gerou um pedido de desculpas de Boris à rainha Elizabeth 2ª. 

 A fritura também abrigou uma reforma feita na residência oficial por meio de doação privada não declarada e até a acusação de que, durante a retirada do Afeganistão, após a retomada do poder pelos extremistas do Talibã, seu governo priorizou o transporte de cães e gatos em vez do de civis, polêmicas que passaram a ser acompanhadas de derrotas eleitorais em redutos tradicionalmente conservadores. 

 Pouco mais de um mês atrás, Boris escapou de um voto de desconfiança. Precisava do apoio de 180 dos 359 parlamentares de sua sigla – obteve 211 votos, mas viu 148 correligionários se posicionarem contra ele. Em tese, a conquista garantiria um ano sem que ninguém pudesse acionar o mecanismo para derrubá-lo outra vez, mas bastou uma nova crise para que especulassem uma revisão das regras. Só a ameaça de uma nova votação acabou impulsionando a renúncia. 

 ONDA DE POPULISTAS

 Nascido em Nova York, Alexander Boris de Pfeffel Johnson, 58, o primeiro-ministro que levou o brexit a cabo, passou o final da infância e o começo da adolescência em Bruxelas, na Bélgica, onde fica a sede da União Europeia. Filho de um ex-funcionário da Comissão Europeia, aprendeu a falar francês e sabe também alemão, italiano e espanhol, além de ter estudado latim e grego, que por vezes usou em citações. 

 Ainda que tenha chegado ao poder na onda de populistas de direita, ao fim não tinha muitas semelhanças com o ex-presidente americano Donald Trump, a quem analistas costumavam relacioná-lo. Além do perfil intelectualizado, não é moralista, não discrimina pessoas LGBTQI+ e já admitiu ter experimentado maconha e cocaína, ou seja, diverge frontalmente da pauta de comportamento conservadora. 

Antes de se tornar ex-primeiro ministro, formou-se na Universidade de Oxford, e, em 2001, deixou uma longa carreira como jornalista e escritor para ser eleito deputado. Depois, entre 2008 e 2016, foi prefeito de Londres e, na sequência, por dois anos, chanceler do governo de Theresa May, a quem sucedeu. 

 Durante seu mandato, a política externa, em especial nos últimos cinco meses, foi um traço forte de Boris, que por vezes usou a Guerra da Ucrânia como escudo para desviar das crises. Um dos líderes mais vocais contra a Rússia de Vladimir Putin, visitou Kiev duas vezes, prometeu armas e ajuda ao país ora invadido. 

 Mal os rumores de que ele iria renunciar surgiram na imprensa, Moscou se apressou para afirmar, por meio de seu porta-voz, Dimitri Peskov, esperar que "pessoas mais profissionais, que decidam pelo diálogo," assumam o poder no Reino Unido. "Ele não gosta de nós, nós não gostamos dele." 

 Agora, qualquer que seja o novo premiê britânico, é muito improvável que a posição britânica vá mudar, mas o líder ucraniano, Volodimir Zelenski, perde um aliado que quase nunca vacilou em demonstrar apoio. De forma um pouco mais comedida, Boris também foi crítico da China, chamando-a de "desafio sistêmico" ao anunciar a estratégia de segurança, defesa, desenvolvimento e política externa do país em 2021. 

 A preocupação ficou mais visível no Aukus, parceria entre Austrália, Reino Unido e EUA para garantirá à nação na Oceania submarinos nucleares numa área em que Pequim quer aumentar sua influência. 

 Em meio a tantas questões e escândalos, por muito tempo Boris foi visto como um sobrevivente. Em seu governo, foi de fato um. Chegou a ir para a UTI após ser contaminado pela Covid. Depois, permaneceu no poder até quando todos já davam a derrota como certa. Ficou mais do que os críticos imaginavam.(D.O.) 

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