‘Zillennial’: entenda a microgeração entre millennial e geração Z
Livro de Juliana Taha, psicóloga londrinense, explica sobre a população que nasceu no fim da era analógica e cresceu em um mundo digital
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segunda-feira, 13 de abril de 2026
Livro de Juliana Taha, psicóloga londrinense, explica sobre a população que nasceu no fim da era analógica e cresceu em um mundo digital

Representando a maior parte da força de trabalho global, os millennials têm entre 30 e 45 anos, sendo que até os mais novos da geração não são mais considerados jovens-adultos, conforme o Estatuto da Juventude. Vindo logo depois, a idade dos pertencentes à geração Z varia de 14 a 29 anos, com parte recém-chegada na adolescência e demais se consolidando em sua independência e formando famílias. Entre eles, existe uma “microgeração” chamada de zillennial, contemplando quem nasceu em meados dos anos 1990 até o início da década de 2000, que apresentam características da geração anterior e da seguinte, mas não se enquadram em seus moldes.
A psicóloga clínica Juliana Taha, nascida em Londrina, mas radicada em São Paulo, aborda o tema em seu livro “Zillenial’s: Uma geração em transição”. Ela tem 25 anos e se identifica como uma, baseando sua obra nas noções de experiências tecnológicas, comportamento humano e conexões sociais. “O millennial tem muitos aspectos que eu não me encaixo, de referências, aspectos comportamentais, e a geração Z também não, porque é totalmente tecnológica, muito rápida. Eu vi a necessidade de ir atrás desse conceito do zillennial, porque ele resgata quem nasceu no final da era analógica e foi se desenvolvendo em um contexto digital”, explicou.
Tecnologia impacta relações
Taha é pesquisadora na área de Ciberpsicologia e doutoranda em Psicobiologia pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), usando a realidade virtual para viabilizar um tratamento a quem possui ansiedade social, para que os pacientes desenvolvam habilidades para contorná-la. Junto da intervenção, estuda a relação entre a tecnologia e o comportamento humano, tema apresentado em seu livro. Ela inicia a obra explicando como a conexão humana é indispensável, pontuando que, antes das redes sociais surgirem, a tecnologia era vista como ferramenta, e agora, altera a forma pela qual as pessoas se relacionam.
A psicóloga exemplificou a maneira que a entrevista sobre o livro foi marcada na última semana, com a repórter enviando uma mensagem de texto. Disse que alguns anos atrás, ela poderia ter recebido uma ligação com o convite, e ainda antes, uma carta. “É tudo muito instantâneo e isso ativa novos comportamentos na gente que antes não existiam. No livro, eu falo muito mais sobre essa mudança do analógico para digital, como sociedade e indivíduo, e a geração traduz esse conceito”, relatou Taha.
A obra não é destinada somente a quem faz parte desta “geração de transição”, visto que todos podem se beneficiar de uma melhor compreensão do mundo tecnológico em que vivemos.

Millennial X Geração Z
Voltando ao contexto analógico em que os millennials nasceram, Taha explicou que esta geração foi muito guiada por influências da “mídia grande”, como a televisão. Já os integrantes da geração Z foram criados com uma mídia descentralizada, nascidos junto do YouTube, Facebook e, mais recentemente, de influenciadores digitais.
Além das diferenças culturais, enxergam o mercado de trabalho de maneiras opostas. “Os valores dos millennials são mais ligados aos valores antigos, de escalar na corporação aos poucos, um senso de hierarquia maior. A geração Z valoriza mais a experiência, se está se sentindo bem no lugar e se vê sentido naquilo para a vida dela, do que só o financeiro”, considerou a autora.
Já no âmbito da saúde mental, a questão não é tabu para as gerações, com redução considerável do estigma observado nos recortes temporais anteriores. Exemplificando os baby boomers, nascidos entre 1946 e 1960 - que têm entre 66 e 80 anos -, apontou que eles deixaram um legado que as gerações atuais têm que lidar, como guerras e crises ambientais causadas em nome da evolução. “Será que o progresso é o valor mais importante agora? A gente vai ter que repensar essas questões, talvez um mais importante seja respirar ar puro”, julgou Taha.
Não é só a geração em que uma pessoa nasceu que influencia o seu comportamento, devendo ser considerados fatores como gênero, contexto social e condição financeira. “Existem alguns recortes socioeconômicos que talvez não tenham tanto tempo para parar e refletir em qual geração se enquadram exatamente. Então, a pessoa está sendo afetada por aquilo, mas não tem tempo autorreflexivo, porque tem que se preocupar mais em pagar boleto”, ilustrou a psicóloga.
'Sem jeito certo ou errado de viver'
Os millennials foram criados por uma geração regrada que pregava a estabilidade, incentivando a finalização do ensino médio, o ingresso na faculdade, o casamento, a procriação e a permanência no mesmo emprego até a aposentadoria. Com a quebra deste paradigma rígido, quando chegou a vez da geração Z, as condições deixaram de ser impostas.
“Cada vez mais, existem mais possibilidades de ser, estar e se relacionar no mundo. Não tem jeito certo ou errado de viver, você não precisa casar hoje em dia, não precisa ter filho, não precisa se relacionar com alguém do gênero oposto ao seu e não precisa nem se identificar com o seu próprio gênero. Ao mesmo tempo que essas possibilidades são muito ricas porque deixam as pessoas existirem de novas formas, também trazem um outro paradoxo, que é a escolha”, considerou Taha.
A pluralidade de opções leva à ansiedade, ainda mais considerando que a responsabilidade pelas escolhas deve ser assumida. “Qual vai ser a decisão correta? A gente fica muito incerto e paralisado várias vezes. Você vê índices de ansiedade e depressão aumentando e, ao mesmo tempo, o isolamento social também, como um coproduto das redes sociais que eram para conectar”.
A psicóloga completou dizendo que, assiduamente, ficamos satisfeitos com uma “microinteração” e perdemos a conversa real. “É olhar no seu rosto, você olhar no meu, e além de você ouvir o que eu estou falando, você também consegue ver como eu estou falando. O tom, todas essas pistas sociais também são importantes para dar um sentido naquilo. E é a característica principal de nós humanos”.
Serviço
O livro “Zillenial’s: Uma geração em transição” está à venda no site da Editora Madrepérola.


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.


