UEL se articula para plantio legal de cannabis no câmpus
Novas regras da Anvisa entram em vigor em agosto e devem impulsionar estudos para os usos medicinal, agrícola e industrial da planta
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de julho de 2026
Novas regras da Anvisa entram em vigor em agosto e devem impulsionar estudos para os usos medicinal, agrícola e industrial da planta
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

Há três anos, a Agência de Notícias da Universidade Estadual de Londrina divulgou que a instituição estava realizando tratativas iniciais para a criação de um centro multidisciplinar de pesquisas envolvendo plantas do gênero Cannabis. Na ocasião, havia no horizonte uma aproximação com a Southern Illinois University, em Carbondale (EUA), onde está localizado um dos mais avançados laboratórios de pesquisa desta família de plantas no mundo.
A negociação esbarrou em entraves regulatórios da legislação brasileira em relação ao plantio da cannabis e testou a persistência do professor Claudemir Zucarelli, doutor em Agronomia e coordenador do Escritório de Apoio ao Pesquisador da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pró-Graduação (ProPPG), um dos líderes acadêmicos que defendem uma frente organizada de investigação científica nas universidades públicas para equipar o Brasil a outros países que pretendem explorar todas as possibilidades da angiosperma.
No entanto, desde janeiro de 2026, resoluções aprovadas por unanimidade pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizaram o plantio para fins de pesquisas e mudaram o panorama para cerca de 40 pesquisadores do campus que trabalham diretamente ou indiretamente com o tema. As novas regras que entrarão em vigor em agosto vão permitir que universidades, centros de pesquisa, órgãos públicos e fabricantes de medicamentos cultivem variedades com maior concentração de THC desde que cumpram protocolos rigorosos de segurança, com o rastreamento das sementes, o videomonitoramento e o controle eletrônico de acesso às áreas de plantio, com a armazenagem das imagens por até dois anos.
No caso da UEL, a permissão do plantio vai ajudar pesquisas em diferentes campos, como fisiologia vegetal, manejo, aplicações na saúde animal, desenvolvimento de novas matérias-primas e novos insumos e nos ensaios clínicos na área de farmácia. "São inúmeras possibilidades de exploração. Desde o mais conhecido, que é o uso medicinal, mas também outros, como o uso na agricultura e na indústria, como a desintoxicação do solo ou a produção de tecidos", explica Zucarelli.
A reportagem da Folha foi atendida justamente após uma reunião na ProPPG que tratava desta articulação. "Vamos realizar ações para que possamos avançar na produção de conhecimento", afirmou. Estas ações envolvem acessar recursos oferecidos em editais de financiamento, concluir os trâmites burocráticos para obter autorização de construção de estufas no campus e o trabalho político para enfrentar o preconceito. “Já está demonstrado o interesse e o envolvimento das universidades paranaenses neste assunto, reflexo de uma demanda da sociedade. O interesse e o uso dos medicamentos é crescente no cotidiano das famílias e elas querem avanços científicos para que os tratamentos se tornem mais acessíveis e mais efetivos”, defende.
REMÉDIO E TECIDO
Um braço essencial na perspectiva da organização desta rede acadêmica é o programa de extensão Práxis Itinerante, coordenado pelo professor Fábio Lanza, um doutor em Ciências Sociais que promove o diálogo entre a academia, o sistema jurídico e a sociedade civil. O programa realiza atividades que debatem a questão científica sobre o uso da maconha, especialmente sobre os tratamentos com o óleo da planta, muito usado contra a epilepsia refratária e contra dores crônicas, ou como auxílio no tratamento com remédios que causam “estado de ausência” (quando o paciente fica inerte), mas também oferece conteúdos com especialistas que, por exemplo, lembram da oportunidade de uma renovação da indústria têxtil. “O cânhamo pode ser importante na transição para uma indústria têxtil que não produza resíduos de petróleo”, argumenta, lembrando que as velas e as cordas da primeira esquadra portuguesa que chegou ao Brasil em 1500 eram feitas por esta fibra natural.
O Práxis Itinerante também aproxima as ciências sociais e jurídicas ao debate da cannabis, analisando questões como o avanço regulatório, a descriminalização e o impacto social da proibição, o que inclui elementos como racismo da sociedade e do poder público. “Ainda existem milhares de pessoas da periferia encarceradas por terem sido flagradas fumando um cigarro de maconha esperando uma revisão de pena, a maioria negra. Enquanto os donos do negócio nunca são presos. É uma questão de CEP e de raça”.
FEMININO E VANGUARDISTA
O programa tem um vínculo operacional com duas associações que apoiam pacientes que usam cannabis. A Cura em Flor, que atua em Londrina e Apucarana, e a Maria Flor, de Marília (SP). Na visão dos pesquisadores da universidade, a relação com estes coletivos, formados sobretudo por mulheres que são mães, esposas, filhas ou irmãs de pacientes, enriquece as investigações sobre o uso da planta porque carregam um conhecimento prático de vanguarda tanto no cultivo quanto na produção do óleo e nos efeitos da terapia.
No site, a associação norte-paranaense informa que tem como objetivo “promover, garantir, consolidar e expandir a inclusão social e o respeito aos direitos humanos dos pacientes que usam cannabis medicinal”, mencionando diretrizes como “a cultura de acolhimento, autonomia, superação dos preconceitos e discriminações, convivência saudável e aceitação incondicional dos pacientes”. Já a Maria Flor, de Marília (SP), cujo slogan é “Qualidade de Vida se Cultiva”, informa que “nasceu para entregar bem-estar, natureza, comunidade, acolhimento e conhecimento – com DNA feminino – por meio de produtos à base de cannabis”.
O crescimento acelerado do número de associações e de pacientes das mais conhecidas - A Maria Flor atende atualmente 15 mil pacientes - tem chamado a atenção da academia. A pesquisadora Ana Beatriz Pavilhão Boscariol faz parte da equipe liderada por Lanza na Práxis e foi orientada por ele na dissertação do mestrado, intitulada “Associação Maria Flor e os Usos Terapêuticos da Maconha”. Ela também participou da reunião na ProPPG e destacou alguns pontos comuns das associações canábicas espalhadas pelo Brasil. “São lideradas majoritariamente por mulheres. Muitas vezes são mães desesperadas por um tratamento eficaz para o filho ou outro familiar. Diante da falha de medicamentos convencionais, buscam na cannabis uma alternativa para que seus entes possam viver a vida”, explica. “Como as universidades brasileiras foram impedidas, durante décadas, de pesquisar a planta, quem acumulou o conhecimento prático sobre dosagens, efeitos colaterais e tipos de canabinoides foram os pacientes e seus familiares. Em muitos casos, estas pessoas têm mais conhecimento do que especialistas acadêmicos”.
AGRÔNOMOS E FARMACÊUTICOS
Ela classifica o modelo de atuação da Maria Flor como “exemplar”, oferecendo desde o suporte social até o ciclo completo de produção do medicamento. As estufas ficam numa propriedade privada, onde trabalham agrônomos e jardineiros experientes. A extração dos componentes para a fabricação do óleo também é feita na mesma propriedade. Um corpo de farmacêuticos garante a qualidade e a credibilidade dos produtos. Ana Beatriz destaca que a associação aplica técnicas agronômicas avançadas, como o cultivo intercalado de diferentes plantas dentro de uma mesma estufa.
Mesmo com autorizações judiciais, Beatriz relata que as associações ainda enfrentam invasões policiais que resultam na destruição de estufas, descarte de óleos e prisão de coordenadores. No entanto, ela destaca que a nova regulamentação da Anvisa em 2026 é um marco que traz segurança jurídica, permitindo que as associações sejam formalmente reconhecidas, participem de editais e passem por processos de padronização e controle de qualidade.


