Dos holofotes das colunas sociais às acinzentadas páginas de noticias policiais. Esse é o trajeto da socialite londrinense Camila Briote, acusada por ourives do Brasil e dos Estados Unidos de aplicar golpes envolvendo joias de luxo em terras americanas. Segundo as vítimas, o prejuízo estimado ultrapassaria US$ 20 milhões (R$ 100,3 milhões, em valores desta terça, 20). As cifras e o modus operandi colocaram o FBI (Federal Bureau of Investigation, a polícia federal norte-americana) em seu encalço.

Segundo os relatos, a suspeita teria utilizado relações pessoais, aparência de alto padrão de vida e referências no mercado de luxo para conquistar a confiança das vítimas e obter joias consignadas que, posteriormente, seriam penhoradas em casas de penhor norte-americanas.

A reportagem apurou que ao menos dois processos contra a londrinense, que também tem cidadania norte-americana, tramitam na Côrte de Miami-Dale, na Flórida, mas haveriam outras ações judiciais contra ela correndo no Brasil. Os entrevistados aceitaram falar sob a condição de anonimato.

Uma das vítimas, dona de uma marca de joias com operação nos Estados Unidos, afirma que conhecia Camila socialmente havia anos, por meio do marido da investigada, amigo do seu esposo desde a época do cursinho. Segundo ela, a reaproximação ocorreu em 2025, quando Camila entrou em contato por meio de redes sociais oferecendo representação comercial das peças em Palm Beach, na Flórida. “Ela dizia que representava várias marcas em Palm Beach e que minha marca faria muito sucesso entre clientes milionários”, relatou.

A empresária contou que inicialmente enviou pequenas quantidades de joias e recebeu os pagamentos normalmente. O esquema, segundo ela, começou a mudar após um suposto evento promovido nos Hamptons, quando Camila teria solicitado um volume muito maior de peças, inclusive joias consignadas de terceiros. “Ela dizia que tinha vendido dez, vinte vezes mais do que antes, mas começou a não repassar os valores”, afirmou.

De acordo com o relato, Camila alegava que os pagamentos demoravam a cair devido ao sistema bancário norte-americano. Desconfiada, a vítima decidiu mudar a forma de pagamento, exigindo que as vendas passassem diretamente em uma máquina vinculada à sua própria empresa, em um banco norte-americano, mas com funcionamento no aparelho celular de Camila.

Mesmo assim, segundo ela, a investigada continuou pedindo mais peças para eventos de luxo que, depois, teriam se revelado inexistentes ou manipulados com informações falsas.

A joalheira afirma que, ao firmar novo acordo para pagamentos diretamente em sua conta bancária, recebeu um cheque sem fundos e outros nove cheques assinados em branco, que seriam usados para quitar débitos futuros.

Camila Briote é apontada por ourives de aplicar um golpe de R$ 100 milhões
Camila Briote é apontada por ourives de aplicar um golpe de R$ 100 milhões | Foto: Arquivo Folha

Pouco depois, diz ter descoberto que clientes apresentados por Camila eram, na verdade, números falsos utilizados pela própria investigada.

“Ela me fazia falar com supostos clientes que depois descobrimos que nem existiam. Certa vez, colocou-me em contato com o suposto contador dela, que, na verdade era sua assistente. E, quando o golpe ficou evidente, descobrimos que o número de contato que ela passava para um como sendo do contador, para outro, ela creditava ser de um cliente, por exemplo”, contou.

A empresária estima prejuízo de cerca de US$ 1,6 milhão (pouco mais de R$ 8 milhões), entre estoque desaparecido e vendas não repassadas. Segundo ela, ao todo, 107 peças permanecem sem devolução.

“Ela construía o golpe”

Outra vítima, integrante de uma tradicional família do setor joalheiro nos Estados Unidos, afirmou que Camila utilizava nomes conhecidos do mercado como referência para conquistar credibilidade entre empresários brasileiros.

Segundo o relato, a investigada se aproximava de joalheiros pelas redes sociais, apresentando-se como uma empresária rica e ligada ao mercado de luxo norte-americano. “Ela vivia nos Estados Unidos, usava bolsas e sapatos de marca e dizia trabalhar em lojas sofisticadas. Isso fazia as pessoas abrirem a guarda”, afirma.

O empresário contou que Camila inicialmente pegava poucas peças, reportava vendas e pagava corretamente, criando confiança para aumentar gradualmente o volume negociado. “Ela foi construindo o golpe. Descobrimos depois que, desde as primeiras peças, ela levava tudo para casas de penhor”, declarou.

Segundo ele, o esquema funcionava como uma espécie de pirâmide: as peças eram penhoradas por valores muito abaixo do mercado, e parte do dinheiro era usada para pagar supostas vendas anteriores e manter a confiança das vítimas. O empresário afirma que há relatos de ao menos 20 vítimas. Ele próprio relata perdas próximas de US$ 500 mil (R$ 2,5 milhões).

Prejuízo de US$ 5 milhões

Uma terceira vítima, proprietária de uma empresa americana de joias e residente nos Estados Unidos há 16 anos, afirma que trabalhou com Camila durante aproximadamente um ano e relata prejuízo superior a US$ 5 milhões.

Segundo ela, Camila chegou até a empresa por meio de amizades em comum da alta sociedade brasileira nos Estados Unidos e se apresentava como gerente de uma conhecida loja de Palm Beach. A investigada teria levado inclusive um contrato de consignação ligado a uma marca norte-americana de luxo, o que ajudou a transmitir credibilidade. “Ela era simpática, bonita, falava inglês perfeito, formada nos Estados Unidos. Parecia ter tudo para ser verdade”, contou.

A empresária afirma que o modelo de negócio começou com poucas peças e pagamentos aparentemente normais. Conforme o relacionamento comercial avançava, porém, Camila passou a solicitar volumes cada vez maiores de joias.

Segundo o relato, os pagamentos eram prometidos em até 45 ou 60 dias, mas começaram a surgir problemas com transferências bancárias supostamente falsas e cheques sem fundo.

A vítima diz que o comportamento começou a despertar desconfiança no fim de 2025, quando Camila ainda quitava vendas de outubro enquanto seguia retirando novas peças. Segundo ela, a investigada relatava vendas milionárias e criava histórias detalhadas sobre clientes ricos, eventos de luxo e celebridades. “Ela dizia que tinha atendido uma cliente árabe, uma mãe de casamento, que precisava de um brinco específico para combinar com a gola do vestido. Era tudo muito elaborado”, contou.

A empresária afirma que, ao todo, Camila deixou de devolver 293 peças avaliadas em cerca de US$ 5,4 milhões (cerca de R$ 27 milhões), além de 40 joias supostamente vendidas, mas nunca quitadas, somando mais US$ 1,1 milhão (aproximadamente R$ 5,5 milhões) em débitos.

Segundo ela, quando as vítimas começaram a pedir devolução das peças, a investigada passou a se recusar a entregar os produtos.

FBI e casas de penhor

As vítimas afirmam que o caso passou a chamar atenção de autoridades norte-americanas após o aumento do número de denúncias e do volume financeiro envolvido. De acordo com elas, uma funcionária que trabalhava com Camila teria informado às vítimas que as joias nunca eram vendidas a clientes finais, mas encaminhadas diretamente a pawn shops, casas de penhor comuns nos Estados Unidos.

A partir dessas informações, empresários começaram a localizar peças desaparecidas em estabelecimentos do tipo. Segundo os relatos, registros teriam sido compartilhados com autoridades federais norte-americanas. As vítimas também afirmam que empresas norte-americanas ligadas ao mercado de luxo teriam procurado a polícia após suspeitas envolvendo a investigada.

A FOLHA questionou o FBI, por e-mail, se Camila é investigada, por quais suspeitas, se ela é considerada foragida e se foi pedido auxílio da Polícia Federal para localizá-la, mas a agência norte-americana não quis comentar o caso. “Eles [agentes] não comentam nada da investigação. Entram em contato conosco quando precisam de ajuda na investigação, mas só se pronunciam depois que a acusação é formalmente feita”, disse uma das entrevistadas.

Procurados, os advogados de defesa de Camila informaram que a representam apenas em ações que tramitam no Brasil e afirmam que houve um uso indevido de processos criminais para “resolver questões estritamente comerciais”. “As supostas vítimas apresentam denúncia absolutamente sem respaldo jurídico e sem qualquer prova de fato acontecido em território brasileiro”, continua a nota.

A manifestação oficial também diz que os valores são “completamente exorbitantes” em relação aos contratos firmados e que ela e sua defesa estão à disposição das autoridades.

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