O festival de ciência que ocupa espaços de lazer e gastronomia caiu no gosto do paranaense.

O Pint of Science 2026 vai se espalhar por 44 municípios do Estado - 12 deles estreantes - a partir desta segunda-feira (18), envolvendo o trabalho de cerca de 300 cientistas vinculados a instituições públicas e privadas, numa enorme gama de assuntos em todas as áreas. Somente no Paraná, o evento mobiliza 700 voluntários e 35 instituições de ensino.

O Paraná é o estado brasileiro com mais cidades envolvidas, à frente de São Paulo (32). Por sua vez, Londrina, reconhecida como centro de importância nacional na produção científica e na articulação da sociedade civil, arregimentou 87 palestrantes, um número que faz os organizadores sustentarem que a cidade é um “destaque mundial” nesta edição.

Coincidência ou não, a cidade cujo nome é o gentílico de uma certa capital europeia é a prova do sucesso de uma ideia simples surgida em 2012 no Reino Unido, mais precisamente nos corredores do Imperial College London, uma das instituições de ensino mais prestigiadas do mundo, com uma respeitável coleção de prêmios Nobel e de contribuições valiosas à humanidade, como a descoberta da penicilina pelo sir Alexander Fleming, 98 anos atrás.

Foi neste ambiente de excelência que dois doutores, os neurocientistas Michael Motskin e Praveen Paul (ela ainda ocupa cargo diretivo no festival), tiveram a ideia de fazer divulgação científica em locais públicos de lazer noturno. O embrião da ideia começou a se desenvolver em 2012, quando eles organizaram visitas de pacientes afetados por Parkinson, Alzheimer e outras doenças degenerativas ao laboratório onde trabalhavam.

Imagem ilustrativa da imagem Paraná é destaque em festival que leva ciência a ambientes descontraídos

O sucesso da iniciativa deixou claro que explicações simples sobre estudos complexos seduziam os leigos, o que motivou a inversão do fluxo, com os cientistas saindo da “bolha” para contar o que faziam. Em maio de 2013 o Pint (que se refere à caneca onde a cerveja é consumida, quase um sinônimo de beber para os ingleses) foi inaugurado em 15 pubs de três cidades. O festival foi crescendo sem parar desde então e hoje está espalhado por mais de 600 cidades de 30 países.

Aproxima, conecta e celebra

“As pessoas valorizam aquilo que conhecem. Se queremos que a sociedade valorize a ciência, precisamos apresentar as pesquisas fantásticas realizadas em nossas instituições”, defende Eduardo Inocente Jussiani, o coordenador da Regional Sul do país e um dos responsáveis por trazer o festival para Londrina em 2018 (no Brasil, a primeira edição foi em 2015).

Graduado em Física pela Universidade Estadual de Londrina, instituição onde também defendeu o mestrado e o doutorado e na qual leciona desde 2014, o pós-doutor pela Universidade de São Paulo nascido em Jacarezinho acredita que o festival “aproxima, conecta e celebra a ciência brasileira”. Para ele, não existe barreira entre o pesquisador da academia e o cidadão leigo quando os dois estão sentados no mesmo banco de bar.

Numa rápida conversa por telefone já é possível perceber nele um entusiasmo incomum pelo trabalho científico. Há emoção em muitas palavras sobre o trabalho voluntário que sustenta o Pint, algo inesperado para um cientista que passa os dias no Laboratório de Física Nuclear Aplicada, utilizando técnicas com raio x e raio gama para entender materiais, que vão do solo aos fármacos, passando pelo mosquito da dengue e por pinturas rupestres.

“A gente só consegue juntar tantos pesquisadores no festival porque existe neles um amor pela ciência. Não é só trabalho, é vocação. São pessoas resilientes que continuam nas universidades, muitas vezes sem ter financiamento, apoio institucional, mas que estão lá batalhando, tentando viabilizar projetos, basicamente porque acreditam na ideia que produzir conhecimento faz bem para a vida das pessoas e para a sociedade”, afirma, frisando que os cientistas fazem parte da vida da cidade, onde vivem cerca de 3 mil doutores.

Multidão de voluntários

As mulheres também têm participação cada vez mais marcante na programação. Em Londrina, serão 37 palestrantes femininas e a coordenação está por conta da bióloga Marna Sakalem, mestre em psicobiologia pela Escola Paulista de Medicina e doutora em neurociência e comportamento pela alemã Universidade de Munster.

Marna Sakalem, mestre em psicobiologia pela Escola Paulista de Medicina e doutora em neurociência e comportamento pela alemã Universidade de Munster
Marna Sakalem, mestre em psicobiologia pela Escola Paulista de Medicina e doutora em neurociência e comportamento pela alemã Universidade de Munster | Foto: Divulgação

Ela ressalta os números superlativos da empreitada que lidera, um deles é o número de voluntários envolvidos, que alcança 200 pessoas de quase todas as 11 instituições de ensino superior da cidade. “O planejamento começou em outubro”, lembra. Ao todo são 18 estabelecimentos diferentes, onde ocorrerão 45 eventos, entre segunda (18) e quarta (20). Apenas três deles têm programação vespertina, em dois cafés e uma praça de alimentação. O predomínio do horário noturno faz o festival se tornar quase onipresente na cidade nas três noites, espalhado em 15 endereços simultaneamente.

A programação completa de Londrina pode ser conferida no Instagram, no perfil @cienciapevermelho.

É importante lembrar que todos os eventos são gratuitos e não exigem inscrição prévia. Na Região Metropolitana, o festival desembarca em Cambé (em dois bares), em Ibiporã (em uma pizzaria) e em Arapongas (dois bares). Apucarana e Cornélio Procópio também contam com programação (o site oficial pintofscience.com.br não traz mais detalhes).

Apoiadores

Os organizadores fizeram questão de agradecer o apoio das instituições de ensino, mas também de entidades como a seção local da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) e da Associação Comercial e Industrial de Londrina, fundamentais nas negociações com os bares e na organização da grade. O evento também conta com a chancela oficial do governo do Estado, através do envolvimento direto da Secretaria de Inovação e de Inteligência Artificial e da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior nos esforços de divulgação do festival.

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