Saúde negocia compra de antídotos contra intoxicação por metanol
PR registrou primeira suspeita e casos aumentam no Brasil; Procon fiscaliza estabelecimentos em Londrina
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de outubro de 2025
PR registrou primeira suspeita e casos aumentam no Brasil; Procon fiscaliza estabelecimentos em Londrina

No momento em que o Paraná registra o primeiro caso suspeito de intoxicação por metanol após ingestão de bebida alcoólica no Estado, a Sesa (Secretaria de Estado da Saúde) negocia a compra de antídotos para tratamento de pacientes.
O primeiro caso suspeito no Paraná é um homem de 60 anos, morador da capital, que deu entrada em um hospital de Curitiba na quarta-feira (1º), após sofrer um atropelamento e relatar consumo de bebida alcoólica destilada.
Durante a internação, seu quadro clínico apresentou agravamento, com sintomas compatíveis com intoxicação pela substância. Até o fechamento desta edição, ele permanecia inconsciente e em estado grave.
O Ministério da Saúde foi notificado pela Sesa nesta sexta (03). Juntamente da Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, a Sesa acompanha a evolução clínica e aguarda o resultado dos exames laboratoriais para confirmação ou descarte da suspeita. A reportagem foi informada que não há previsão de quando os laudos ficarão prontos.
Compra de antídotos
O Secretário de Estado da Saúde, Beto Preto, teve uma reunião com o Ministério da Saúde na tarde desta sexta, para verificar se haverá repasse de estoque de ampolas de etanol farmacêutico, utilizado como antídoto em casos de intoxicação por metanol.
À FOLHA, a Sesa informou que o órgão federal “não formalizou, até o momento, o quantitativo de ampolas que deve enviar ao Estado. O Paraná aguarda a formalização por parte do governo federal, mas já iniciou conversas para viabilizar a compra própria desses antídotos”.
Alexandre Padilha, ministro da Saúde, anunciou que o governo irá adquirir, em caráter emergencial, 150 mil ampolas de etanol farmacêutico, que serão utilizadas conforme a necessidade de estados e municípios. O governo federal já comprou 4,3 mil ampolas em parceria com a Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares).
Também existe a possibilidade de adquirir Fomepizol, mais eficaz - e caro -, junto a produtores e agências internacionais. Os dois antídotos são usados para a cura, sendo que o Brasil só dispõe do primeiro.
Como proceder
Se houver ingestão de bebidas alcoólicas e sintomas de intoxicação por metanol, a orientação é buscar imediatamente uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) ou um hospital, para que sejam realizadas as intervenções necessárias. Conforme a Sesa, “o procedimento hospitalar para pacientes com suspeita de intoxicação é de manejo de suporte”.
Em casos de suspeitas de intoxicação, os serviços de saúde públicos ou privados devem notificar imediatamente o CIATox (Centro de Informação e Assistência Toxicológica do Paraná) para orientação e conduta adequada.
Até seis horas após a ingestão do metanol, os sintomas incluem sonolência, dificuldade motora e de andar, tontura, dor abdominal, náuseas, vômitos, cefaleia, confusão mental, taquicardia e hipotensão. Entre 6 a 24 horas após a ingestão: visão turva, fotofobia, dilatação da pupila, perda da visão das cores, convulsões e coma.
Aumento nas notificações
Além do Paraná, Bahia e Mato Grosso do Sul notificaram os primeiros casos em investigação ao Ministério da Saúde. Com a atualização divulgada na tarde desta sexta, o Brasil registra 113 ocorrências de intoxicação por metanol após ingestão de bebida alcoólica.
São 11 casos confirmados e 102 em investigação. Do total de 113 notificações, 101 são em São Paulo (11 confirmados e 90 em investigação), seis estão em investigação em Pernambuco, dois na Bahia e no Distrito Federal, e um no Paraná e Mato Grosso do Sul. Destas notificações, 12 são de mortes. Um óbito foi confirmado no estado de São Paulo e 11 estão sendo investigados em demais estados.
Fiscalização em Londrina
Oito mercados e distribuidoras de Londrina receberam a visita do Procon na manhã desta sexta-feira (03), com uma equipe à procura de bebidas adulteradas. A fiscalização foi preventiva, considerando o aumento no número de casos confirmados de intoxicação por metanol no Brasil, além da notificação do primeiro caso suspeito no Paraná.
A equipe não atestou nenhuma irregularidade nos estabelecimentos, informou o coordenador da entidade, Bruno Lopes. “Todos que visitamos mantinham o estoque de forma íntegra, não tinha qualquer indício de adulteração nos lacres de segurança e informações do rótulo. Nós verificamos, principalmente, se estavam fidedignas ao produto original, bem como se tinham erro de ortografia”, elencou.
Legítimo ou adulterado
Os pontos observados pelos profissionais também devem ser lembrados por consumidores de bebidas alcoólicas, para que seja verificado se a bebida é realmente legítima. Como o metanol não altera a aparência, cor e cheiro do líquido, a pessoa deve se atentar ao conteúdo das garrafas. “Elas são padronizadas e o nível dos fabricantes se mantém constante, a indústria segue um padrão rigoroso de qualidade. O consumidor pode comparar se, com relação a outras garrafas no estabelecimento, o nível do conteúdo é o mesmo, também se a tampa e o lacre de segurança estão totalmente vedados”.
As impressões na tampa possuem alta resolução, com nada borrado. Se o rótulo estiver apagado, torto, com erros de ortografia ou uma cor diferente do convencional, pode ser indicativo de falsificação. “Caso o consumidor tiver qualquer tipo de dúvida, não cheire, não teste, não tome. Por mais insignificante que seja a quantidade (de metanol), pode comprometer seriamente o organismo da pessoa”, recomendou Lopes.
O coordenador também destacou que toda bebida alcoólica nacional é fiscalizada pelo MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), o que gera um código na embalagem. Se estiver faltando no rótulo, é outro sinal de adulteração.
Análise das amostras
No caso de um estabelecimento ofertar produtos falsificados, o material é apreendido e encaminhado para análise laboratorial, com o MAPA também recebendo as amostras. Lopes informou que, se constatada a irregularidade, o comércio é interditado e irá responder o processo administrativo, para que “não venha a lesar mais as pessoas de Londrina”.
O Procon retoma as ações de fiscalização em distribuidoras, com orientação aos consumidores presentes, na segunda (06) à tarde. Está previsto que continuem até que as ocorrências de intoxicação por metanol sejam “normalizadas”, explicou o coordenador. “Enquanto houver a possibilidade desses produtos virem para o Paraná, considerando ainda que trata-se de fronteira com São Paulo, a fiscalização continuará até para inibir que esse produto seja distribuído na nossa cidade”.
Substância altamente tóxica
O metanol é uma substância usada na indústria, em solventes, combustíveis e produtos químicos, e comercializada no Brasil. É altamente tóxica para consumo humano, sendo que pequenas quantidades ingeridas podem causar cegueira, falência de órgãos e até a morte. Segundo a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), falsificadores têm utilizado garrafas originais reaproveitadas para enganar consumidores e comerciantes.
A irregularidade costuma atingir bebidas de maior valor agregado, como vodka, uísque e gim. Ainda conforme a Associação, casos de cerveja e vinho adulterados são mais raros e, quando ocorrem, geralmente envolvem substituição de produto ou troca de rótulos, e não o uso de metanol.
Ações de prevenção
A Abrasel orientou que bares e consumidores tomem medidas de segurança no descarte de garrafas de bebidas destiladas, para dificultar a revenda por parte de criminosos. Os rótulos devem ser destruídos ou descaracterizados, com a tampa e garrafa sendo descartadas em lixos diferentes, evitando o comum.
O Procon Londrina adota a mesma recomendação, sugerindo ainda que os fornecedores tenham cautela ao fazer a troca de produtos destilados que, em tese, venderam, no caso do comprador ter adulterado a bebida para repasse a um consumidor inocente.
Bruno Lopes informou que comerciantes relataram aumento na venda de destilados nesta semana, o que causou estranheza à sua equipe. “A tendência seria diminuir, dada a repercussão dos casos, mas durante a fiscalização nos relataram que aumentou o consumo e que alguns consumidores tentaram fazer a troca. Nesse cenário de cautela, recomendo cuidado ao receber o material novamente”.
(Com Agência Brasil e Agência Estadual de Notícias)


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.


