Retratos do abandono: espaços públicos viram mocós em Londrina

Moradores reclamam do acúmulo de lixo e da presença de usuários de drogas em imóveis que pertencem ao município sem ver perspectiva de futuro

Publicado sábado, 14 de junho de 2025 | Autor: Douglas Kuspiosz às 06:15 h

Quem passa pela rua Mário Bonalume, no Jardim do Leste, nem imagina que as duas casas construídas na esquina com a rua Nello Thomaz Lainetti têm uma história de quase sete décadas. São um símbolo das propriedades cafeeiras da zona leste de Londrina e um recorte importante da imigração japonesa. Mas tudo isso está esquecido em meio ao lixo e ao mato que cresce no terreno, abandonado há mais de dez anos e sem nenhuma perspectiva de uso pelo poder público.

Essas residências não são casos isolados do abandono. Há outros imóveis que hoje pertencem ao município e estão completamente esquecidos, como o antigo Centro de Ginástica Artística Alceu Malucelli, na região central. Por um lado, há desinteresse das pastas municipais em desenvolver políticas públicas nesses locais; por outro, faltam recursos para revitalizá-los. Um levantamento feito pela Prefeitura de Londrina identificou pelo menos 134 imóveis públicos e privados em estado de abandono e que oferecem riscos à segurança da população.

Com uma área de mais de 5,8 mil metros quadrados, o imóvel da rua Mário Bonalume abrigou a Casa da Mulher, onde a Prefeitura de Londrina oferecia apoio e capacitação profissional às londrinenses. Foi nesse período, há quase 15 anos, que o local fechou as portas e deixou de ser utilizado. O portão foi furtado e o mato e o lixo se espalharam. As casas estão lacradas, depredadas e cheias de entulho. Segundo moradores ouvidos pela FOLHA, o imóvel tem sido utilizado por pessoas em situação de rua e usuários de drogas.

Na rua Mário Bonalume, no Jardim do Leste,  imóveis de antiga área cafeeira transformaram-se em mocós e depósitos de lixo há mais de dez anos
Na rua Mário Bonalume, no Jardim do Leste, imóveis de antiga área cafeeira transformaram-se em mocós e depósitos de lixo há mais de dez anos | Foto: Douglas Kuspiosz

Quem enfrenta diariamente as dificuldades de morar ao lado de um imóvel abandonado é o servidor aposentado José Aparecido Martins Sola, 68, que se mudou para a região em 2000.

“Era um ambiente gostoso, o pessoal frequentava, eram feitos cursos. Era bem legal, mas agora está tudo abandonado. Aqui vem morador de rua dormir todos os dias, usuários de drogas… eles queimam fios para depois vender. E isso assusta, porque temos um colégio do lado, uma praça do outro, as crianças vêm brincar”, conta o morador, que questiona o fato de a Prefeitura não ter nem reposto o portão furtado. “Pelo menos, fica mais difícil para as pessoas entrarem.”

Ele lembra que o espaço já foi utilizado para o plantio de ervas medicinais e pertenceu a uma família de imigrantes japoneses. E isso se confirma em documentos obtidos pela reportagem.

Em 2016, o Ippul (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina) vistoriou as casas a pedido da Secretaria da Mulher, que tinha interesse em sua reforma. Segundo o Ippul, uma casa foi construída em 1956 e outra na década de 1960. O Instituto fez visitas e as estruturas não foram consideradas condenadas. O que se reforçou à época foi a importância histórica das construções e possibilidade de reforma.

Cinco anos depois, o Instituto voltou a frisar que as casas representam as antigas sedes das propriedades cafeeiras da zona leste de Londrina. Apesar disso, o local não está incluído no inventário nem protegido por tombamento.

“Inclusive, vemos importância no conjunto das duas casas (não apenas da mais antiga), que representam a sede da propriedade rural e a casa do primeiro filho após o casamento, construída na mesma propriedade, representativa de costume da época”, afirma o Ippul em um documento de 2021, que defende que cabe ao município preservar "bens que contribuam para a memória da cidade".

De lá para cá, pouca coisa mudou. Em 2023, a Secretaria Municipal de Educação manifestou interesse no espaço, pretendendo instalar uma creche na rua Mário Bonalume - desejo que durou pouco tempo. No ano seguinte, as casas voltaram para a DGBM (Diretoria de Gestão de Bens Municipais) e, atualmente, não há nenhuma destinação definida.

“Ninguém quer assumir isso aqui. Olha o espaço que tem. Quer manter as casas? Mantenha. Mas dá para construir outras casas enormes, talvez até um prédio, uma creche, qualquer coisa. Hoje, vemos que, por parte da Prefeitura, não há um interesse”, reforçou Sola, que entende que há risco para a segurança da vizinhança. “Ficamos frustrados com o descaso.”

José Aparecido Martins Sola, morador do Jardim do Leste, critica os imoveis em total abandono: "Hoje, vemos que, por parte da Prefeitura, não há um interesse"
José Aparecido Martins Sola, morador do Jardim do Leste, critica os imoveis em total abandono: "Hoje, vemos que, por parte da Prefeitura, não há um interesse" | Foto: Douglas Kuspiosz

Para a autônoma Larissa Cunha da Silva, 23, a situação não é melhor. Ela critica o descarte irregular de lixo no terreno e o “vai e vem” de pessoas no local. A aparição de escorpiões e outros animais peçonhentos tem se tornado cada vez mais comum. “Eu acho que deveria ser feito algo de útil, porque do jeito que está, não adianta. Tudo está destruído e não tem segurança para impedir eles de entrar, usar drogas, dormir e morar aí”, reforça Silva. “Não tem como andar à noite, dar uma volta na praça, porque temos medo.”

Procurada pela FOLHA, a DGBM informou que enviará um fiscal para avaliar a situação das duas edificações e irá solicitar a abertura de um processo de providências para verificar possíveis problemas estruturais. A Diretoria também irá solicitar o fechamento do terreno, “para tentar impedir a entrada de estranhos”.

COMPLEXO ESPORTIVO

Em meio ao fundo de vale da rua Monte Castelo, na região central, outro local com passado marcante em Londrina segue esquecido. O antigo Centro de Ginástica Artística Alceu Malucelli, que abrigou a Alga (Associação Londrinense de Ginástica Artística), está há dez anos fechado. Em 2017, um incêndio destruiu parte da estrutura, que hoje está sem telhado e tomado por lixo.

A FOLHA conversou com moradores da região, que relatam que usuários de drogas costumam frequentar o espaço. Hoje, segue sem nenhuma perspectiva de revitalização, tanto da quadra e do ginásio, que chegou a ser lacrado e foi invadido, quanto do banheiro do lado de fora, que serve de moradia para pessoas em situação de rua.

Antigo Centro de Ginástica Artística Alceu Malucelli: um dos 134 imóveis de Londrina em estado de abandono, encontra-se sem telhado e tomado pelo lixo
Antigo Centro de Ginástica Artística Alceu Malucelli: um dos 134 imóveis de Londrina em estado de abandono, encontra-se sem telhado e tomado pelo lixo | Foto: João Guilherme França

O último movimento para dar destino ao Alceu Malucelli ocorreu em 2023, quando a Secretaria de Planejamento tentou captar recursos para revitalizar o centro esportivo, seguindo o projeto original. Mas isso nunca saiu do papel. Agora, a administração diz que está "avaliando a situação do local e possíveis fontes de recursos para a reconstrução do espaço".

O professor de inglês Valdecir Cerkevink Ferreira de Melo, 77, diariamente desce até o gramado atrás do Alceu Malucelli para alimentar uma família de gatos que vive no fundo de vale. Ele mora e trabalha há pouco mais de dois anos na rua Monte Castelo e reclama do descaso com o centro esportivo.

Valdecir Cerkevink Ferreira de Melo, morador da rua Monte Castelo, critica a destruição do antigo Centro Alceu Malucelli apontando o lixo que serve até à proliferação de mosquitos da dengue
Valdecir Cerkevink Ferreira de Melo, morador da rua Monte Castelo, critica a destruição do antigo Centro Alceu Malucelli apontando o lixo que serve até à proliferação de mosquitos da dengue | Foto: João Guilherme França

“O principal problema é o lixo. Se descer a escadaria, tem um depósito de lixo. Se for atrás do banheiro, tem guarda-chuva, tem uma caixa de isopor com água dentro e Aedes aegypti. Essa é a situação. Pior de tudo é a sujeira. Nunca teve solução; há pneus no fundo de vale, eu reclamo, tiro e mando para eles [Prefeitura]. Não deram a mínima satisfação”, critica Melo.

O morador reclama que o espaço acabou sendo ponto de uso de drogas e de abrigo para pessoas em situação de rua.

“Tem gente que entra fumando, mulheres e homens. Vemos que é gente mexendo com drogas”, relata. “Você não pode sair à noite, andar sozinho por aqui. É um perigo. Isso que você está vendo [durante o dia], é uma maravilha, mas durante a noite você não pode andar sozinho.”

O QUE DIZ A PREFEITURA

A Prefeitura de Londrina afirma que os mocós são um problema histórico na cidade, mas que vem sendo enfrentado “desde os primeiros dias” da gestão do prefeito Tiago Amaral (PSD), por meio da operação Choque de Ordem. Ao mesmo tempo, a administração aponta que a Secretaria Municipal de Assistência Social vem realizando um “amplo trabalho de atendimento e acolhimento de pessoas em situação de rua e usuários de drogas”. Pelo menos 183 pessoas retornaram ao convívio familiar em outras cidades. "Além disso, outros 158 cidadãos estão, atualmente, acolhidos em casas ou repúblicas mantidas pela pasta”, diz a nota. “Outro ponto a ser destacado é que, diariamente, 206 pessoas são atendidas pelos serviços da Assistência Social do Município. Para reforçar esse trabalho, 120 estudantes de Medicina e Odontologia também têm atuado nas unidades de acolhimento, por meio de uma parceria com a Universidade Estadual de Londrina (UEL)”.

‘Falta comprometimento com a nossa própria história’, diz arquiteta

Em cada tijolo dos imóveis públicos abandonados há uma história. Pedaços das primeiras décadas de Londrina, que dia a dia acabam esquecidos. Para a arquiteta e urbanista e professora da UEL (Universidade Estadual de Londrina) Camila Oliveira, é necessário reconhecer a história das edificações que marcaram o passado de Londrina.

Em uma cidade considerada jovem - e com muito dinheiro circulando -, as estruturas são substituídas muito rapidamente. “Eu acho que falta esse comprometimento com a nossa própria história. Londrina é muito jovem, mas toda cidade tem sua história. E Londrina é histórica para nós. Isso não é desculpa para a gente não pensar nos nossos edifícios antigos, intervir em cima deles sem precisar anular as nossas identidades históricas”, afirma.

Questionada sobre os imóveis públicos abandonados, que acabam se tornando mocós, Oliveira avalia que é um problema complexo e uma preocupação tanto para o poder público quanto para os moradores. “O imóvel público inativo entra em um processo acelerado de deterioração. A ausência de manutenção constante faz com que o desgaste natural do tempo se intensifique”, pontua. “Além disso, são espaços que acabam sofrendo com ocupações irregulares, vandalismo, furto de materiais e outras práticas ilícitas.”

Essa “dupla degradação”, causada pelo abandono e pelos vândalos, faz com que seja muito custoso revitalizar essas estruturas. Em muitos casos, como o antigo Centro de Ginástica Artística Alceu Malucelli, a degradação pode ter atingido um ponto em que se torna irreversível a retomada desse imóvel para algum uso.

“E esses imóveis acabam gerando uma sensação de insegurança para os moradores das redondezas. Afetam diretamente o bairro, o cotidiano dos moradores. Vemos muitos reclamando da situação porque se sentem inseguros”, sublinha a arquiteta, que ainda vê um desperdício de espaços privilegiados na cidade.

“São locais que deveriam estar servindo à comunidade, porque eles têm um potencial de uso comunitário.”

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