No primeiro semestre deste ano, 56.740 venezuelanos solicitaram refúgio ou visto de residência temporária para legalizar a situação no Brasil. Muitos deles têm recorrido à ajuda humanitária de instituições religiosas, como a congregação Testemunha de Jeová, que trouxe, em 2018, cerca de 20 venezuelanos para Londrina. O coordenador da congregação de ajuda humanitária da igreja, Paulo Ricardo Almeida, explicou que uma comissão em Roraima analisa quem pode ser encaminhado para outros estados do Brasil.

"As pessoas precisam preencher certos requisitos. Perguntamos aos irmãos quem possui uma moradia para ceder e vagas de emprego. Caso haja venezuelanos com o perfil pedido, eles são encaminhados para esses lugares, dando preferência aos locais que possuem grupos de língua espanhola, para que a integração seja mais fácil", explicou Almeida.

Ele ressaltou que na Venezuela muitas famílias não têm emprego e alimentos suficientes para todos os membros. É o caso da família Marin, composta por oito pessoas. O funileiro e pintor automotivo Pedro Luiz Marin Martinez, 33, conta que chegou a emagrecer de 89 kg para 59 kg por falta de alimentos. "Não tinha dinheiro para comer a semana inteira. Comprava peito de frango, mas era para a minha filha de oito anos. Eu já estava tendo problema de desnutrição." O salário dele na Venezuela era de cinco a sete mil bolívares. "Isso dava para comprar meio frango. Nós sobrevivíamos com a ajuda de irmãos da congregação", destacou ele, que está no Brasil há cinco meses, já recuperou parte do peso e diz que sente feliz aqui com sua filha e a esposa.

Alexander Marin decidiu vir ao Brasil com a filha e esposa após dificuldades em atendimento médico e conseguir medicamentos
Alexander Marin decidiu vir ao Brasil com a filha e esposa após dificuldades em atendimento médico e conseguir medicamentos | Foto: Gustavo Carneiro



Seu sobrinho, Alexander Marin, 28, chegou ao Brasil há dois anos. "Quando cheguei a Roraima era mais fácil conseguir trabalho do que no período em que meu tio chegou", disse, explicando que decidiu vir ao Brasil quando ficou doente e percebeu as dificuldades para ser atendido e conseguir medicamentos.
"Olhei para a minha filha Anderline, hoje com quatro anos, e fiquei preocupado. E se acontecesse algo com ela e precisasse de hospital? Como iria fazer?", questionou. Quando chegou ao Brasil ele sentiu que era uma mudança. "É uma cultura bem diferente da nossa. Mas a situação do Brasil está bem melhor que a do nosso país." O irmão de Alexander, Peter Rafael Rojas Marin, 20, também elogiou Londrina. "Os brasileiros dão dicas sobre o modo de viver. Eles falam sobre as coisas boas daqui, do que gostam. Isso é um jeito de ajudar. Eu não quero mais voltar para a Venezuela", destacou.

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Acolhida da sociedade

A família Fernandez também chegou em Londrina em abril, com a ajuda da congregação. Pai, mãe e filha deixaram não só a residência em San Joaquín, no norte da Venezuela, mas também uma triste realidade. Além da escassez de dinheiro, a saúde de toda família estava começando a responder às más condições de sobrevivência. "Eu queria muito sair de lá, não suportava mais aquela situação. Quando chegamos no aeroporto, havia muitos irmãos nos esperando, cantando com muita alegria. Chegamos em casa e havia mais do que necessitávamos. Superaram nossas expectativas", diz Katherine Daniela, 23, que veio acompanhada dos pais Francisco e Silvana.

Além de trabalhar em um supermercado na zona norte, Família Fernandez frequenta aulas de português e está com documentação em dia
Além de trabalhar em um supermercado na zona norte, Família Fernandez frequenta aulas de português e está com documentação em dia | Foto: Saulo Ohara



A família Fernandez está trabalhando em um supermercado na zona norte da cidade, frequenta aulas de português e está com toda a documentação em dia. Parte do salário eles enviam para familiares que seguem lutando na Venezuela. "Estamos nos sentindo em casa. Ao futuro? Ficar aqui em Londrina e ajudar outros venezuelanos que possam vir para cá. Os londrinenses são amáveis e se preocupam com a gente", afirma Francisco.

Éber Cordeiro, integrante do projeto de ajuda humanitária, explica que o objetivo é receber as famílias já com emprego e moradia garantidos. "Toda ajuda, inclusive nos meses iniciais, para os custos de energia, água, transporte e alimentação, é de voluntários." Já o advogado Bruno Camilo tem oferecido ajuda jurídica. Ele explica que existem dois tipos de visto disponíveis para os venezuelanos. O visto de refugiado é mais lento de se obter, pois as exigências são muitas. Já o do Mercosul demanda custas que podem chegar a R$ 410, mas é mais rápido. A opção tem sido pelo visto do Mercosul, pois quando um empregador tem uma vaga, a urgência é grande. (V.O. e M.O.)

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