Duas semanas após um aluno de 14 anos agredir Márcia Luciana da Rocha, 61, a socos em um colégio estadual cívico-militar da zona norte de Londrina, a vítima segue aguardando a chance de se pronunciar perante o Ministério Público. Uma medida socioeducativa de liberdade assistida, no prazo de seis meses, foi concedida ao menino, sem que a vítima fosse acionada pelo órgão para ser ouvida. Sua advogada planeja interpor recurso até sexta-feira (11), sendo que o processo tramita em segredo de justiça. O adolescente foi transferido para outro colégio e teria proferido ameaças violentas em sala de aula, dizendo que “uma hora de massacre é o suficiente” e que “gosta de ver as pessoas sangrando”.

A docente foi agredida no dia 24 de agosto, após declinar a solicitação do menino para ir ao banheiro 10 minutos antes de a aula acabar. O aluno do 8º ano a xingou de “vaca” e desferiu diversos socos na parte de trás da cabeça. Foi contido por demais estudantes, mas se desvencilhou quando Rocha questionou se “o valentão gostava de bater”. Assim, ele socou a professora no olho esquerdo e quebrou os seus óculos com o impacto.

Advogada pede punição mais severa

Os envolvidos foram levados à Central de Flagrantes, onde prestaram depoimentos, e um defensor público foi atribuído ao adolescente. A advogada de Rocha, Marcilene Santos, informou que “o agressor foi encaminhado e ouvido pelo promotor de Justiça, no entanto, a Márcia ficou aguardando também ser chamada para depor ou para receber alguma orientação sobre a situação, e ela não foi chamada”. Com a habilitação da advogada no processo, descobriu que uma sentença já havia sido proferida ao aluno: uma medida socioeducativa de liberdade assistida com prazo de seis meses. A decisão garante que jovens que cometeram atos infracionais permaneçam junto à família, sem privação de liberdade.

Santos irá interpor, até sexta, um embargo de declaração solicitando a revisão da sentença e a oitiva de sua cliente, pedindo que ela seja ouvida pelo promotor de Justiça e juiz envolvidos. “Ele tem que ser punido de uma forma mais severa. A pena foi tão branda a ponto de ele, no outro colégio, se vangloriar pelo episódio”, pontuou a advogada.

O garoto foi transferido na mesma semana da agressão para um colégio estadual, se gabando pelo ataque, conforme relatado a Rocha. “Falei com uma professora que dá aula lá e ela disse que ele está me usando como troféu. Ele está passando medo para os outros professores e, que eu saiba, até agora ele não demonstrou nenhuma gota de arrependimento”.

‘Uma hora de massacre’

Rocha contou que uma professora registrou um boletim de ocorrência contra o aluno após ele ter proferido ameaças no novo colégio, três dias após a agressão contra ela. “Ele falou em voz alta dentro da sala de aula que ‘uma hora de massacre é o suficiente’ e que ele quer ver sangue, que gosta de ver as pessoas sangrando. As mães dos alunos estão desesperadas ligando pro colégio. Eu achei que já tinha acabado, mas esse indivíduo é perigoso pra sociedade e tem que ser recolhido”.

A reportagem entrou em contato com a diretora da instituição, que solicitou o redirecionamento da demanda para a SEED/PR (Secretaria de Estado de Educação do Paraná). Também falando em nome do NRE (Núcleo Regional de Educação) de Londrina, o órgão não quis se pronunciar sobre o relato.

Em nota, a Secretaria detalhou o protocolo seguido quando ocorre uma agressão em um colégio estadual. “Quando se trata de profissional da educação, é realizado o acolhimento, com encaminhamento para atendimento de saúde quando necessário e orientação quanto ao registro de boletim de ocorrência. No caso do estudante, sendo criança ou adolescente, os responsáveis são acionados, a ocorrência é registrada em ata e a documentação pode ser encaminhada à rede de proteção. A partir da avaliação do caso, são definidas as medidas cabíveis, que podem incluir ações pedagógicas, transferência de unidade escolar ou, quando caracterizado ato infracional, encaminhamento aos órgãos competentes”.

Rocha informou que se sentiu “totalmente desamparada” pela SEED e pelo NRE, sem receber “um telefonema sequer”.

Lutar pelos colegas

A professora retornou ao ofício nesta quarta (9) com sensação de “arritmia no coração”, permanecendo em casa com atestado de sua psiquiatra pelas últimas duas semanas. Ela contou que perdoou o aluno e não deseja vingança, esperando somente que “a justiça seja feita”. “Ninguém quis me ouvir, ninguém quer saber o que aconteceu, só ouvir a parte dele. Eu tenho 61 anos, já dei aula por 20 e me aposento ano que vem. Agora eu vou lutar pelos meus colegas, pelos que estão aí e pelos que vêm”, garantiu.

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