Pesquisa de Londrina põe oito planetas no radar da vida extraterrestre
Fábio Calabrio Evangelista da Silva, formado em física pela UEL, leva resultados de sua pesquisa a evento que reúne astrobiólogos nacionais e internacionais
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domingo, 20 de setembro de 2026
Fábio Calabrio Evangelista da Silva, formado em física pela UEL, leva resultados de sua pesquisa a evento que reúne astrobiólogos nacionais e internacionais

A ciência, de forma geral, é fruto de um trabalho coletivo de diversos cientistas, ao redor do mundo, que se unem para responder às perguntas que cercam a nossa realidade. Dentre esses questionamentos está aquela que talvez seja uma das mais antigas e importantes: "Estamos sozinhos no universo?". Essa homérica procura por vizinhos extraterrestres acaba de ganhar uma relevante contribuição brasileira, de um pesquisador londrinense.
Depois de analisar e filtrar todos os exoplanetas já catalogados pela Nasa até o momento, número que chega à marca de 6.366, um cientista pé-vermelho identificou os oito melhores candidatos a ter uma das matérias-primas da vida como conhecemos, a água em seu estado líquido. Com essas condições e estando na zona habitável, a uma distância relativamente adequada de sua estrela, o octeto entra como forte candidato no radar da vida interplanetária.
Fábio Calabrio Evangelista da Silva, pesquisador de 27 anos formado em física na UEL (Universidade Estadual de Londrina) e doutorando em astronomia no ON (Observatório Nacional), apresentou o resultado da sua investigação na 6ª edição do Astrobion. O evento, que ocorreu entre os dias 15 e 17 de setembro, no Rio de Janeiro, reúne astrobiólogos nacionais e internacionais para discutir a origem e evolução da vida.
DISTÂNCIA DIFICULTA OBSERVAÇÃO
Silva explica que seu trabalho, denominado "A identificação e a caracterização de planetas rochosos astrobiologicamente interessantes", leva em consideração uma série de fatores para ranquear aqueles que apresentam, sob as condições de temperatura e pressão, a melhor probabilidade de ser parecido com a Terra. Principalmente, com a presença de água líquida em sua superfície.
"As técnicas de observação desses exoplanetas atualmente não têm a resolução necessária para que possamos ver essa água fluindo no planeta. Nossa análise acaba sendo mais indireta, com os modelos científicos fazemos a modelagem desses dados para que, posteriormente, haja uma confirmação", explica o pesquisador londrinense.
A dificuldade para observar um exoplaneta é ainda maior do que a de outros corpos celestes, como no caso das estrelas, porque a luz emitida ou refletida pelos planetas é muito mais fraca do que a de suas estrelas. Essa característica gera um desafio extra na hora de descobrir e estudá-los. Por isso, os instrumentos de estudo, como telescópios e satélites, muitas vezes dependem de sinais indiretos, como citado por Silva.
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MÉTODOS DE PESQUISA
O método pioneiro e ainda nos dias de hoje um dos mais comuns é o método de trânsito. Nele, o movimento de translação do planeta, quando esse corpo passa na frente da estrela, gera uma pequena queda no brilho dela. Com esses dados, é feita uma análise da variação no brilho e dos momentos de entrada e saída para se chegar ao raio planetário.
Outro método é a espectroscopia Doppler, ou técnica de velocidade radial. Nela, o movimento do planeta provoca uma pequena oscilação na estrela, causada pela atração gravitacional entre os dois corpos. Essa oscilação gera alterações nas linhas do espectro da estrela, que permitem aos cientistas calcular a massa dele.
Questionado sobre a baixa "porcentagem de aproveitamento", apenas oito planetas de uma lista com 6 mil exemplares, o estudioso esclarece que ainda há uma lacuna muito grande de informações sobre vários desses astros. "Realmente, é um número bem reduzido, seria aproximadamente 0,1% [de possibilidade de água líquida]. Existe uma discrepância nesses dados [do catálogo da Nasa], alguns contam com oito elementos, outros com muito menos, até um registro apenas", ressalva.
O LÍDER DO RANKING
Nessa seleção de aspirantes ao posto de "irmão" da Terra, um dos planetas se sobrepõe e chega à marca de 98% de similaridade com o único endereço da vida conhecida, considerando características como temperatura e massa. Descoberto em 2022, a uma distância de 16 anos-luz, o GJ 1002 b é um planeta com medidas muito próximas às da Terra, com cerca de 1,08 vez a massa do nosso planeta.
A diferença entre ambos está na estrela que orbitam. Enquanto o Sol é mais "estável", sua estrela, uma anã vermelha do tipo M, é muito mais ativa, o que pode "facilmente varrer a atmosfera que ele [GJ 1002 b] tem, levando todos esses cálculos abaixo", detalha Silva.
Uma curiosidade desse exoplaneta é seu tempo de translação. Enquanto a Terra leva 365 dias para completar esse processo, GJ 1002 b conclui uma volta ao redor de sua estrela em 10 dias.

UMA AUTODESCOBERTA
Na perspectiva do pesquisador londrinense, a incessante vontade humana de revelar os segredos de outros lugares no universo diz mais sobre uma autodescoberta dos motivos que fizeram a vida surgir na Terra do que, necessariamente, sobre a interação com outras raças e seres alienígenas.
"Buscamos encontrar a nós mesmos nesses lugares. Não vamos sair daqui [Terra] tão cedo, então nossa procura é para entender como esses planetas funcionam para que assim possamos cuidar da melhor forma deste em que vivemos", compartilha o pesquisador que nasceu e cresceu em terras pé-vermelho.
ARTE E CIÊNCIA NA UEL
Morando no Rio de Janeiro desde 2024, local onde trabalha na sede do Observatório Nacional, o pesquisador deve seguir com outros projetos na área da astrobiologia e exoplanetas durante os próximos quatro anos de seu mestrado. Durante a entrevista, ao ser mencionada sua ligação com Londrina, Silva resgata com apreço na memória seu período de formação na UEL como um momento-chave na construção de sua identidade.
O pesquisador relembra projetos que buscavam promover um diálogo entre a arte e a ciência como porta de entrada para cativar alunos e leigos nesses conhecimentos. "A Chegada (2016), Contato (1997), Interestelar (2014), assistíamos a esses filmes juntos, nisso nós [alunos] ganhávamos um incentivo muito legal para fazer pesquisa."
Outro projeto da universidade que o cientista guarda com apreço é o Planetário de Londrina. Para ele, a visitação aberta era um incentivo muito grande para difundir essas descobertas e despertar, em diferentes gerações, o apreço por esse trabalho que hoje faz parte da vida profissional de Silva. "A ciência é importantíssima para a formação do ser humano. Quem está dentro desse curso [Física] precisa ser um divulgador. Fazer outra pessoa entender algo que você está estudando, seja até de uma forma mais lúdica, é uma recompensa muito gratificante", conclui o cientista londrinense.







