A segregadora Aparecida Donizete Gonçalves tem um mioma uterino e espera desde 2012 por uma cirurgia pelo SUS
A segregadora Aparecida Donizete Gonçalves tem um mioma uterino e espera desde 2012 por uma cirurgia pelo SUS | Foto: Fotos: Marcos Zanutto


Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha a pedido do CFM (Conselho Federal de Medicina) confirmou o que se ouve nas salas de espera de unidades básicas de saúde, clínicas médicas e corredores de hospitais. Os usuários dos serviços de saúde, públicos ou privados, estão insatisfeitos com a qualidade da assistência recebida. No País, o sistema de saúde, de um modo geral, é classificado como péssimo ou ruim por 55% dos brasileiros e regular por 34%. Quase 90% da população, portanto, gostaria de ver melhora na área da saúde. Entre os usuários de planos de saúde, o índice de descontentamento chega a 94% contra 87% dos que dependem exclusivamente do SUS (Sistema Único de Saúde).

Um dos objetivos do CFM com a pesquisa é identificar a expectativa dos brasileiros para a saúde em relação aos próximos governantes e parlamentares que serão eleitos no pleito de outubro. O resultado do estudo está sendo apresentado nesta terça (26) e quarta-feira (27) em Brasília, durante o 13º Enem (Encontro Nacional das Entidades Médicas). Do encontro deverá sair uma agenda de reivindicações da categoria sobre a saúde e a medicina que será encaminhada aos candidatos às eleições de 2018. O relatório também será enviado ao Ministério Público e aos secretários municipais de saúde.

A pesquisa aponta que os brasileiros estão cientes dos principais problemas da área da saúde e são capazes de indicar as possíveis soluções. O combate à corrupção é citado por 26% dos entrevistados. Reduzir o tempo de espera por consultas, exames, cirurgias e outros procedimentos é o desejo de 18% deles, seguido do aperfeiçoamento da fiscalização dos serviços prestados na rede pública (13%), fomento à construção de mais postos de saúde e hospitais (11%) e oferta de melhores condições de trabalho e de remuneração aos profissionais da área (9%).

LEIA TAMBÉM:
- 'Se for esperar pelo SUS, eu morro'

"A pesquisa avalia o sistema de saúde na perspectiva do cidadão, que é um pouco diferente do técnico. E ficou muito clara a dificuldade de acesso em vários níveis, desde o simples acesso a uma consulta até o encaminhamento ao especialista, exames complementares, internação, UTI, cirurgias. O Brasil adotou o sistema universal de saúde, que é um sistema socializado, semelhante ao do Canadá, Inglaterra e outros países da Europa, com seus direitos constitucionais, mas a política do Estado não se reflete na gestão de recursos do governo", avaliou o representante do Paraná no CFM, coordenador do Enem e coordenador da Comissão Nacional Pró-SUS, Donizette Dimer Giamberardino Filho.

Um sistema universal de saúde como o adotado pelo Brasil, defende o médico, deve ter uma porta de entrada eficiente, nos serviços de atenção primária. "O País tem uma dificuldade de ter uma atividade resolutiva, o que é um grande problema para o cidadão, e isso é agravado porque não há uma rede de comunicação entre a atenção primária e a secundária e o paciente fica ao deus-dará e vai batendo de porta em porta em um sistema deficiente", destacou Giamberardino.

Para o presidente do CFM, Carlos Vital, o resultado da pesquisa mostra que a saúde não pode ser ignorada pelos candidatos e deve ser tratada com seriedade. "Em vez de anúncios midiáticos, os brasileiros cobram planejamento, mais recursos e uma boa gestão", ressaltou o médico em nota encaminhada pela assessoria de imprensa do conselho. De abrangência nacional, a pesquisa ouviu 2.087 pessoas, 59% delas residentes no interior do País. A amostra foi composta por homens e mulheres acima dos 16 anos de idade.

A pesquisa mostra que o SUS, que em 2018 completa 30 anos de existência, é prioridade para 88% dos entrevistados, que defendem a manutenção do sistema público brasileiro, embora apontem as falhas da assistência gratuita oferecida pelo governo. Entre as dificuldades elencadas, a má administração dos recursos públicos é mencionada por 83% da amostragem. Para 73%, a equidade, um dos princípios básicos do SUS, não é cumprida e 62% afirmam que os gestores do sistema são ineficientes e mal preparados.

Giamberardino considera ainda mais preocupantes os dados da pesquisa quando comparados a um estudo semelhante realizado em 2014. No estudo divulgado nesta terça-feira, 34% dos entrevistados esperavam por uma cirurgia, 32% buscavam uma consulta médica e 31% aguardavam o encaminhamento para exames.

Há quatro anos, 29% dos que haviam pedido exame, cirurgia ou consulta ainda aguardavam um desfecho após seis meses. Agora, esse percentual subiu para 45%, quase duas vezes mais. A parcela dos brasileiros que esperavam por procedimentos específicos há mais de 12 meses também cresceu. Em 2014 eram 16% dos entrevistados. Agora, já são 29% nessa condição. "Os números de agora foram piores. Os pacientes têm ficado mais tempo na fila e a insatisfação está maior. Muda governo e continua a mesma lógica. Como técnico, vejo que o governo federal centraliza os recursos, mas descentralizou as responsabilidades, transferindo muitas delas aos municípios", ressaltou Giamberardino.

O cientista político Clodomiro Bannwart atribui os problemas enfrentados não só na área da saúde, mas em outras áreas cruciais, como a educação e a segurança pública, à ausência de um mecanismo legal que obrigue que os candidatos eleitos cumpram os compromissos firmados durante a campanha eleitoral. "Os candidatos a cargos executivos e ao Senado, que concorrem ao majoritário, têm que fazer suas propostas, mas é um compromisso meramente formal ou moral", destacou. "Elegemos, expressamos nossa soberania popular, mas não temos um mecanismo de soberania popular que o retire se ele não cumprir o compromisso que assumiu. Precisaríamos de uma reforma política para mobilizar algumas regras e obrigar os candidatos a cumprirem suas propostas de campanha."

mockup