Religiosos que fazem parte do grupo Padres da Caminhada do Paraná elaboraram uma carta aberta em defesa da vida em que lamentam a realização de protestos, carreatas ou ações que promovam aglomeração; reforçam a necessidade de medidas mais rígidas contra o coronavírus e cobram do poder público a liberação de auxílios à população mais vulnerável.

O manifesto “A vida humana não tem preço” é assinado por 14 padres de Londrina. No texto, o grupo reconhece e se solidariza com a dor dos familiares das vítimas da Covid-19 e critica o governo federal pela falta de ações e de planejamento estratégico no auge da pandemia.

“Ao nos aproximarmos dos 300 mil mortos, constatamos um colapso total no Sistema Público e Particular da Saúde, sem nenhuma perspectiva de vermos melhorar o quadro nos próximos dias. Com um presidente da república debochando da doença desde o primeiro momento, sem nenhum plano de vacinação oportuno e vendo agora a escassez da vacina e dos insumos golpearem o país e o mundo. O desprezo é tanto que em seis dias não temos um Ministro da Saúde que possamos chamar de fato e de direito! Milhares de vidas foram perdidas pela inércia, pelo crime da omissão, pela politização da pandemia!”

Em meio à superlotação dos leitos hospitalares no mês mais crítico da pandemia, os padres reforçaram a necessidade da população evitar aglomerações para conter o avanço da Covid-19. Nos últimos domingos, empresários e lideranças políticas e religiosas convocaram a população para manifestações e carreatas “em defesa da liberdade”.

“Com toda esta situação, é com imenso pesar e indignação, que vemos líderes religiosos atrelados a políticos de plantão e alheios ao sofrimento dos seus concidadãos, promovendo passeatas e convocando aglomeração de pessoas (ainda que de carro), sem nenhuma empatia com os profissionais da saúde da linha da frente, extenuados por um ritmo de trabalho alucinante bem como nenhuma compaixão pelos familiares que já perderam seus entes queridos.”

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Ainda conforme os padres, “experiências internacionais e até aqui em nosso país já provaram sobejamente que lockdowns regionais ou nacionais são a única saída para diminuir as internações”.

O grupo também criticou a realização de celebrações presenciais nas igrejas, de uma forma geral. A Arquidiocese de Londrina, por exemplo, voltou a permitir a presença dos fiéis. No entanto, limitou a ocupação em 15% da capacidade máxima e reforçou a necessidade da prática de medidas de prevenção como distanciamento social e uso de álcool em gel. A resolução seguiu as orientações do governo do Estado.

“As Igrejas não devem reclamar a essencialidade dos seus serviços durante a calamidade que atravessamos. Existem inúmeras formas de serem o que de fato são, sem celebrações presenciais! Em comunhão com muitos nossos irmãos evangélicos, clamamos ao Senhor que nos dê força e coragem para enfrentarmos esta tempestade e apresentamos a nossa solidariedade e preces aos irmãos que estão nos hospitais e também aos familiares que já perderam as pessoas que muito amavam. Uma vida não tem preço.”

Entre os padres que assinam a carta está Dirceu Fumegali. Em entrevista à Folha, ele reforça que é necessário valorizar a vida e que os trabalhadores são os que mais sofrem com os impactos da pandemia.

“Nesse momento de crise sanitária, as pessoas estão tão adoecidas que estão incapazes de perceber que estão também socialmente doentes. Agora parece que a vida não é mais tão importante. Parece que o indivíduo se sobrepõe à coletividade. É compreensível, pela lógica capitalista, que alguns grupos exijam que o povo vá trabalhar, mas não são eles que pegam o transporte coletivo e que passam por todos os espaços para chegar até o trabalho. Ao aglomerar, os trabalhadores estão sendo empurrados para o matadouro. As pessoas precisam perceber que elas estão sendo empurradas para uma situação de morte”, ressalta.

“É importante que a igreja seja o sacramento, que ela seja o sinal da presença do Divino nesse momento tão fragilizado da sociedade, que ela seja um instrumento de defesa da vida. O testemunho tem que ser algo que leve à resistência, sem perder a esperança. Não é o momento para aglomeração”, afirma.

A carta aberta também é assinada pelos padres José Cristiano Bento dos Santos, Paulo Martins, Manuel Joaquim Santos, Altair Manieri, Andre Luís de Oliveira, Jorge Pereira de Melo, Mauro Pedrialli, Luis Laudino, Jaime Alonso Gallo, Carlos Escobar, Alessandro Zanchi, Camilo Didone e João Pires.

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