Uma árvore que veio de longe e criou raízes profundas no Paraná. Introduzido no Brasil há 120 anos, o chamado "pinheiro americano" atravessou décadas de pesquisas e transformações para se tornar protagonista do setor florestal paranaense. No estado, o pinus encontrou no clima e no solo condições favoráveis para crescer e ajudou a desenhar uma nova paisagem, marcada por extensas florestas plantadas que hoje abastecem indústrias e movimentam a economia.

A dimensão dessa trajetória é confirmada pelos números. Do total de 1,17 milhão de hectares de florestas plantadas para fins comerciais no Paraná, 713,7 mil são ocupados pelo pinus, o que representa mais de 60%. O Estado concentra ainda 50,49% de toda a produção brasileira de pinus, de acordo com os dados mais recentes da Apre Florestas (Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal).

Da floresta à indústria, o pinus se transforma em móveis, painéis, materiais para construção civil, papel e celulose, mostrando que, no Paraná, a trajetória dessa árvore está longe de se resumir ao que cresce no solo: ela também se traduz em tecnologia, empregos, exportações e desenvolvimento.

As florestas plantadas

Eleandro Brun, engenheiro florestal, professor da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) e vice-presidente da SBEF (Sociedade Brasileira de Engenheiros Florestais), explica que o pinus foi introduzido no Brasil por volta do ano de 1906, completando 120 anos de presença no país. A introdução, segundo ele, foi feita por imigrantes europeus que chegavam ao país, principalmente com a finalidade ornamental.

O crescimento acelerado veio a partir da década de 1960, impulsionado pelos incentivos fiscais da época que permitiam que pessoas físicas e empresas deduzissem seus investimentos em florestamento do imposto de renda.

Na disseminação do pinus pelo país, foi fundamental a atuação do antigo IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal) que, a partir de sua criação em 1967 foi responsável por operacionalizar os recursos dos incentivos fiscais ao reflorestamento, por meio da realização de pesquisas tecnológicas e cooperação científica com instituições brasileiras e estrangeiras.

Foi também entre os anos 1960 e 1970 que foram criados os primeiros cursos de engenharia florestal no Brasil para consolidar a expansão do setor de base florestal plantada e o manejo sustentável de florestas nativas. “Isso serviu para dar a base de recursos humanos profissionais necessários à consolidação do setor florestal brasileiro, trazendo o atendimento da demanda de madeira do mercado e diminuindo a pressão sobre as florestas nativas, as quais passaram a ser mais protegidas e manejadas de forma sustentável”, explica.

Hoje, o Brasil conta com 66 cursos de engenharia florestal, sendo três em instituições paranaenses: UFPR (Universidade Federal do Paraná), Unicentro (Universidade Estadual do Centro-Oeste) e UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), no campus de Dois Vizinhos.

Clima e solo: o combo perfeito

No Paraná, a introdução do pinus se deu em 1960, tendo como motivação principal a substituição à madeira de araucária, que já começava a ficar escassa por conta dos primeiros cortes que as florestas tiveram nas décadas anteriores.

Os primeiros plantios ocorreram nos Campos Gerais, região que hoje continua sendo a principal produtora, encabeçada por Telêmaco Borba, Sengés e Jaguariaíva. Ao longo do tempo, a produção também se expandiu para outros pontos, como Guarapuava, General Carneiro e na região do Vale do Ribeira.

O professor destaca que o Paraná é um dos locais onde o pinus apresenta o melhor crescimento a nível mundial. “O clima é um fator-chave, principalmente para esta espécie, onde a condição de clima frio das regiões do primeiro, segundo e também do terceiro planalto paranaense oferecem um ambiente ideal para o seu desenvolvimento”, esclarece. Também é importante a qualidade do solo, com maior teor de matéria orgânica, boa profundidade e quantidade ideal de nutrientes.

Inovação e tecnologia

O engenheiro florestal Álvaro Luís Pasquetti Berghetti, docente do Departamento de Ciências Florestais da UFPR (Universidade Federal do Paraná), explica que a silvicultura do pinus transitou de uma atividade rudimentar para uma silvicultura de precisão. Essa evolução ocorreu em camadas sucessivas de inovação, envolvendo o preparo do solo, melhoramento genético e produção de mudas.

“O desenvolvimento de programas de melhoramento e a produção de mudas de qualidade superior, oriundas de procedências selecionadas e, posteriormente, de pomares clonais de geração avançada, foram determinantes para elevar a produtividade do pinus no Brasil a patamares muito superiores aos de sua região de origem”, aponta.

Produtos

O pinus vem sendo utilizado para uma série de produtos, com destaque para a madeira sólida que vai para construção civil, movelaria, chapas e lâminas, assim como madeira processada para a fabricação de painéis reconstituídos. O pinus também tem grande importância na produção de celulose e papel.

Diretor-executivo da Apre Florestas, Ailson Loper explica que a madeira está presente no dia a dia de toda a população. Logo pela manhã, a madeira está no papel higiênico, na caixa e até mesmo na pasta de dente, com algumas essências vindas das florestas plantadas.

Ele também exemplifica o caso das empresas de cosméticos e maquiagens, que vêm utilizando cada vez mais produtos com origem na madeira, como a nanocelulose ou componentes da resina do pinus, para substituir a matéria-prima de origem fóssil, já que a produção é mais sustentável e o resultado, menos agressivo para a pele.

A partir daí, a madeira vinda das florestas plantadas está na cápsula do medicamento, na mesa e na cadeira em que você sentou, na caixa do leite ou do suco que você tomou e no lápis e no papel que você deixou um recado antes de sair de casa. “A gente vai cada vez mais utilizar a madeira para outras coisas porque é uma alternativa sustentável e renovável”, afirma.

52 anos e três gerações de uma família

A história da Águia Florestal começou em 1974, na região dos Campos Gerais, quando membros da família Scheffer iniciaram um plantio de 24 hectares de pinus.

“Na época, eles vislumbraram que as florestas nativas de araucária estavam se esgotando e entenderam que o pinus seria a solução para suprir a demanda futura de madeira”, conta Álvaro Luiz Scheffer Junior, engenheiro florestal e diretor da Águia Florestal, que é neto e sobrinho-neto dos fundadores. Hoje, a empresa conta com 9.860 hectares de área plantada.

O pai, Álvaro Luiz Scheffer, que tinha 13 anos na época, acompanhava o trabalho aos finais de semana e assumiu a gestão da área de Itaiacoca, distrito de Ponta Grossa, com apenas 15 anos. Junior, que é da terceira geração, afirma que a empresa acompanhou a evolução do pinus no Paraná, desde a fase artesanal até a revolução tecnológica e genética.

A empresa gera cerca de 490 empregos diretos e tem capacidade de colher 26 mil toneladas de madeira por mês. A produção de madeira serrada ultrapassa 8 mil m³ por mês, sendo que, com o início de uma nova planta industrial, prevista para fevereiro de 2027, a expectativa é de aumentar em 30% o volume de madeira serrada.

Ao longo de mais de cinco décadas e de três gerações da família, do plantio à colheita, ele diz que "tudo mudou". Hoje, as sementes são de alta qualidade genética, que vêm principalmente do pomar da empresa, que produz mais de 1,2 milhão de mudas por ano.

Pinus: a base da indústria florestal no Paraná

“No manejo e na colheita, a transformação foi radical: saímos da derrubada manual com motosserra, desgalhe no machado e arraste com junta de bois e cavalos para operações 100% mecanizadas com máquinas de última geração”, afirma.

Com uma combinação de clima, solo e topografia que ele considera perfeita, o Paraná conseguiu, ao longo dos anos, produzir mais madeira de pinus que as regiões de origem. “A tradição e a vocação florestal do povo paranaense, aliadas à disponibilidade de áreas propícias nos Campos Gerais e no interior, criaram o ambiente ideal para que o pinus não apenas se adaptasse, mas se tornasse a base da indústria de base florestal do estado”, reforça.

Na visão de Álvaro Luiz Scheffer Junior, o pinus foi o grande responsável por aliviar a pressão sobre a vegetação nativa e garantir a transição da atividade extrativista para uma silvicultura renovável e de alta produtividade. A partir daí, o pinus também fomentou o surgimento e a estruturação de uma grande cadeia industrial no Paraná, envolvendo serrarias, indústrias de celulose e papel, painéis de madeira, laminados e móveis.

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“Do ponto de vista socioeconômico, a cultura fixou famílias no campo, gerou empregos qualificados em regiões antes desprovidas de grandes indústrias e atraiu investimentos multinacionais para o estado, tornando o Paraná uma referência nacional e internacional no setor madeireiro”, afirma.

Junior afirma ainda que o pinus ainda tem um papel importante a desempenhar no futuro do setor florestal paranaense, principalmente na transição para uma bioeconomia de baixo carbono. “As florestas plantadas de pinus são verdadeiros poços de sequestro de carbono; ao transformarmos essas árvores em casas, móveis e estruturas de longa duração, fixamos esse carbono definitivamente e abrimos espaço para novos ciclos de plantio.”

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